″Presidente angolano tem controlo absoluto no país″, diz Rafael Marques | NOTÍCIAS | DW | 11.11.2011
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"Presidente angolano tem controlo absoluto no país", diz Rafael Marques

"Fundação 27 de Maio" pretende voltar às ruas no próximo sábado (12.11.). O jornalista e defensor dos direitos humanos angolano, Rafael Marques, acredita que protestos como este são um exercício de cidadania.

Rafael Marques lembra que vítimas de 27 de maio de 1977 deixaram de existir aos olhos do governo angolano

Rafael Marques lembra que vítimas de 27 de maio de 1977 "deixaram de existir" aos olhos do governo angolano

Sair à rua sábado após sábado até serem ouvidos. Esta é a estratégia da "Fundação 27 de Maio", que exige que as autoridades angolanas indemnizem os familiares das vítimas e que se investiguem os acontecimentos de 1977. " É preciso que haja justiça".

Deutsche Welle: Que desfecho se pode esperar para protestos como os da "Fundação 27 de Maio"?

Rafael Marques: Eu acredito que, acima de tudo, estes protestos são um exercício de cidadania. E é verdade que, independentemente do que a "Fundação 27 de Maio" pretende, já passou demasiado tempo, o governo já deveria ter iniciado um processo de catalogação de quantas pessoas foram mortas nesses massacres e passar certidões de óbito, porque muitos dos filhos destes finados até hoje continuam sem poder ser perfilhados, porque os seus pais não foram dados nem sequer como desaparecidos – praticamente deixaram de existir.

“Fundação 27 de Maio” pretende voltar semanalmente às ruas de Luanda (na imagem) até que o governo cumpra as suas exigências

“Fundação 27 de Maio” pretende voltar semanalmente às ruas de Luanda (na imagem) até que o governo cumpra as suas exigências

DW: A "Fundação 27 de Maio" exige das autoridades angolanas, como referiu, que abram um inquérito para que se investiguem os acontecimentos e as mortes de 27 de maio de 1977. Mas a Fundação também acusa o governo angolano de cinismo…

RM: O cinismo é uma marca de atuação do próprio governo. Porque, por um lado, fala de democracia, de abertura política e há assuntos que são tabu e não quer discutir.

Mas eu penso que a questão de reivindicação do 27 de maio deve ser enquadrada no âmbito de um processo de reconciliação nacional e o processo não se fica apenas pela conquista da paz: Angola passou por vários massacres cometidos por vários intervenientes, não só o MPLA. Então, é necessário que, para a história de Angola, todos esses processos sejam debatidos, sejam catalogados, mas não no sentido de atribuir culpas, porque nessa altura, o fundamental é resolver problemas muito práticos de famílias que ficaram sem registo, porque nunca se reconheceu a morte dos pais por uma questão simplesmente política.

Eu penso que é um processo de aprendizagem tanto para o governo como para a sociedade. Não há alternativa senão aceitarmos e abraçarmos a democracia. É preciso que haja justiça. E a justiça só se fará sentir quando os cidadãos começarem a exigir o fim da impunidade para todos os atos que têm sido cometidos ao longo da nossa independência.

DW: De volta ao governo: segundo publicações, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos terá identificado o vice presidente de Angola, Fernando da Piedade Dias dos Santos, como estando supostamente relacionado com empresas ligadas ao terrorismo internacional. E terá sido esta a razão por que foi impedido de desembarcar nos EUA para liderar a delegação angolana à Assembleia Geral da ONU em setembro passado. Além disso, consta também que altos funcionários angolanos estarão implicados em ações ligadas ao tráfico de droga. Atualmente fala-se em possíveis sucessores de José Eduardo dos Santos no cargo de Presidente da República. Há alguma indicação de reações do estado angolano a estas afirmações?

O jornalista Rafael Marques acusa o governo angolano de reagir demasiado tarde no que toca a acusações de má governação de elementos do seu executivo

O jornalista Rafael Marques acusa o governo angolano de reagir demasiado tarde no que toca a acusações de má governação de elementos do seu executivo

RM: Eu não tenho ainda conhecimento de uma reação oficial do governo. Já há muitos anos que se vem falando das ligações do vice presidente aos negociantes libaneses cá em Angola. Cabe agora ao presidente esclarecer esta situação. Se acontece alguma coisa ao presidente, é o vice presidente quem assume o poder. E ter um indivíduo que está numa lista como suspeito de envolvimento em atos que facilitam o financiamento de terrorismo não é bom para a imagem do país.

E é necessário que o próprio vice presidente também venha a público esclarecer qual é a sua ligação a estes empresários para que a sociedade e a comunidade internacional não especule, mas tenha os factos presentes. Porque acredito que, se o departamento de justiça faz uma acusação destas, é porque eventualmente tem documentos, tem algumas provas, porque, doutro modo, até pode causar um grande incidente diplomático e não acredito que o departamento de justiça tenha apresentado esse dado sem ter informações substanciais. Mas nota que as autoridades reagem sempre tardiamente a esse tipo de casos.

Quando o próprio governo americano acusou o então governador do banco nacional de Angola de ter tentado desviar 100 milhões de dólares para as suas contas privadas nos Estados Unidos, o governo reagiu muito tarde e fez algo extraordinário: nomeou o governador para vice primeiro ministro. É uma forma de o presidente mostrar que tem o controlo absoluto da situação.

Autor: Marta Barroso
Edição: Helena de Gouveia

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