″Os angolanos estão todos na expetativa″, diz Bonga | Angola | DW | 05.09.2018
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Angola

"Os angolanos estão todos na expetativa", diz Bonga

Concerto de homenagem aos 75 anos de José Adelino Barceló de Carvalho (Bonga), na Aula Magna da Universidade de Lisboa

Angola vive um período de mudanças com as primeiras eleições autárquicas previstas para 2020. É com esperança e paciência que Barceló de Carvalho (Bonga) vê o futuro. Os resultados, visando reduzir a pobreza e as injustiças sociais no país, não podem ser imediatos "porque houve tanta coisa negativa a ser corrigida", afirma o artista angolano em entrevista à DW.

"Estamos aqui à espera que as coisas se vão concretizando para o melhor para não degenerar. Nós temos um ditado em kimbundu que diz "malembe malembe", que significa devagar e bem. É melhor devagar e bem do que a correr precipitando as coisas".

Para o músico, que veio a adotar o nome de Bonga Kwenda, a crise que atingiu a economia angolana é preocupante "porque prejudica mais os menos favorecidos e não aqueles que se enriqueceram à custa da corrupção e do desvio dos fundos públicos".

"Recados de fora" último disco

Inquietações que não escapam aos temas que canta, por exemplo, no último álbum  "Recados de fora". Bonga lamenta a propósito o facto dos angolanos no exterior não terem direito de voto.

"Mesmo quando nós os angolanos residentes no exterior não somos tidos nem achados sócio-politicamente, porque não votamos… Como é que um povo que está no exterior não vota?! Isso é uma brincadeira de crianças, enfim! E, por conseguinte, damos a nossa voz como patriotas. Ninguém é mais patriota do que nós. Estejamos onde estivermos a nossa voz tem que ser ouvida".

E será que Bonga vai falar do tema quando o Presidente João Lourenço visitar Portugal este ano?

"É certo que nós iremos nos encontrar e, como é natural, tenho coisas para lhe dizer. Não vou dizer aqui agora que perguntas é que eu o faria. Mas iria ou irá ser de patriota para patriota... Mas vou simplesmente acentuar determinadas coisas que fazem parte de uma ética angolana e, principalmente, primar pela sócio-cultura, porque infelizmente a cultura continua um parente pobre das políticas em geral; [para] onde é que a gente quer ir e como é que a gente quer ir", destaca o músico angolano.

Bonga Kwenda, que no passado vincou de forma veemente a sua oposição ao regime colonialista, não descarta a hipótese de voltar a Angola para novos concertos. Ainda não há um convite explícito. No entanto, faz um aviso.

75 Jahre Barceló de Carvalho (Bonga) Angolanischen Musiker - Discs von Bonga (DW/J. Carlos)

Discografia de Bonga

"Eu tenho uma agenda, tenho um produtor, eu tenho os músicos e toda uma equipa que me acompanha e isso tem que ser preparado. Não é ida assim à toa, a toque de caixa, não. E nem sequer é o kumbu – o dinheiro que nos atiram. E depois não me exijam coisas que eu não possa satisfazer. É que eu não vou cantar para nenhum partido político. Não venham com essa. Nem influências deste e daquele, não, não. Mas se tiver que acontecer nós estamos aqui para trabalhar. E, sobretudo, para ir para o país de origem quem é que não quer!!!"

Carreira de Bonga

Muito se pode dizer da carreira de Bonga Kwenda, marcada por mais de 30 discos produzidos e seis vídeo-clips, além de prémios, discos de ouro e prata por ele conquistados. Pisou vários palcos a nível mundial, mas afirma que a rua é o palco mais sublime deste seu percurso de mais de 40 anos.

"A rua para mim tem um poder incrível pela mobilização que faz das pessoas de todas as condições. O que acontece na rua para mim é tão importante porque a primeira experiência que eu tive foi o carnaval, que decidiu tudo. E o carnaval na rua, festa popular, festa de toda a gente sem preconceitos, sem classes, sem coisa nenhuma, é importante. Então, cada vez que faço um espetáculo na rua, isto é maravilhoso".

Recordações

Foi em Angola que tudo começou, diz Bonga recordando "as festas de grande importância feitas na rua", uma delas com cerca de 80 mil pessoas.

Ouvir o áudio 06:33

"Os angolanos estão todos na expetativa", diz Bonga

"Só sei que tinha estado um tempo sem ir a Angola e depois voltei culminando com esse grande espetáculo na rua. Não houve quem não fosse. E mesmo alguns que não foram estavam em sintonia para saber como é que as coisas estavam a passar".

O músico veio para Portugal em 1966 a convite do Benfica, como atleta na área do atletismo. O percurso no desporto chegou ao fim aos 30 anos. Aí decide regressar à música, uma vocação que tinha desde criança."Angola 72", cujo registo faz parte do vasto espólio exposto no atelier do artista em Alfornelos, freguesia do concelho da Amadora (arredores de Lisboa), é o seu primeiro disco de estreia. A partir daí nunca mais parou até aos dias de hoje. São mais de 400 as canções que compôs e cantou. No entanto, entre elas, tem um apreço especial por "Mona Ki Ngui Xissa" (a filha que eu deixo na língua kimbundu).

"Hoje que se fala de migrações e imigrantes, o "Mona Ki Ngui Xissa" "a filha que eu deixo" por razões várias – principalmente porque o pai, o avô ou o tio têm que emigrar e deixam aquela criança que não sabe o que lhe vai acontecer, sendo ele o responsável por ela –, é uma canção que até hoje está a bater. Aliás, foi gravada várias vezes, e fiz duo com várias pessoas tanto nacionais como estrangeiras. Entretanto, há um leque de músicas aí que eu tenho que  cantar obrigatoriamente nos espetáculos que [faço]".

Próximo trabalho discográfico

Estará na forja um novo disco? Perguntamos a Bonga, que diz não ter pressa.

"Não. Não vale a pena. Não quero precipitar nada. Agora é para fazer calmamente e mesmo os espetáculos. Não quero fazer espetáculos seguidos, não quero viajar para muito longe. Não quero fazer o que os outros já fizeram e depois prejudicaram-se física e psicologicamente. Não, eu estou aí para ir andando calmamente. Quer dizer, hoje com a idade que tenho quero fazer alguns espetáculos, não tenho a pretensão de querer fazer todos. E os discos, então, não tenho essa pressa da juventude".

O projeto está no pensamento do músico. Garante que ainda tem "imaginação criativa" para um novo álbum na hora certa, a ser gravado nos sítios onde já é conhecido.

"Quer dizer, normalmente é Paris, Lisboa e depois Alemanha para mixar [misturar] e nos Estados Unidos para aperfeiçoar um pouco mais a gravação. Enfim, seria mais ou menos por aí".

A homenagem que lhe é rendida esta quarta-feira (05.09) na Aula Magna da Universidade de Lisboa tem sempre uma importância singular. "Significa que, finalmente, há pessoas que reconhecem o valor do artista", cuja carreira é marcada por "momentos fulgurantes em todos os cantos do mundo", como ele próprio afirma.

"É uma mais avalia. Virem aí para me homenagear, para estarem comigo, para me darem os kandandos, que são os abraços fraternos de gente que nos quer bem e que quer dar continuidade a esta carreira, eu acho que é um incentivo grande de reconhecimento do valor daquilo que eu fiz até aqui", conclui Bonga Kwenda.

 

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