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HistóriaAngola

Testemunhas do horror

26 de maio de 2017

José Reis, um dos sobreviventes dos assassinatos que sucederam o 27 de maio de 1977, diz que os responsáveis pelos crimes cometidos naquele período negro da história de Angola devem responder perante os tribunais.

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Agostinho Neto
Foto: casacomum.org/Documentos Dalila Mateus

José Eduardo Reis esteve preso cerca de três anos na cadeia de São Paulo, em Luanda. Foi uma das vítimas de tortura, apanhada pelos acontecimentos que geraram a chacina do pós-27 de maio de 1977. Conta que são inúmeros os casos de pessoas desaparecidas e barbaramente massacradas: "O que é um facto é que eu vi diariamente, principalmente nos primeiros meses, desaparecerem pessoas que estavam na cadeia de São Paulo e que nunca mais foram vistas."

Da cadeia de São Paulo José Reis foi transferido para um chamado "campo de recuperação", que, afirma "mais não era do que um campo de concentração." No seu livro "ANGOLA – O 27 de Maio – Memórias de um Sobrevivente”, Reis fala de tudo aquilo porque passou e o que viu nesses três anos. Presta homenagem também a figuras heróicas, como o "camarada Rui Coelho”, a quem deve a vida, como contou à DW África: "Tenho a noção de que o seu desaparecimento foi a minha safa e de outros companheiros que militávamos nos mesmos grupos de ação do setor da educação e dos intelectuais. Ou seja, o Rui Coelho assumiu responsabilidades de coisas que não fez para nos safar."

José Reis Autor und Überlebende des 27. Mai in AngolaLissabon / Portugal
José Reis exige a responsabilização dos autores do massacreFoto: DW/João Carlos

Eslarecimentos exigem-se

Quarenta anos depois, José Reis quis romper o silêncio em torno do 27 de Maio na sociedade angolana: "Uma das coisas que se tem que acabar é com o medo. As pessoas não podem continuar a se autocensurarem e não dizerem aquilo por que passaram e aquilo que viram."

José Reis não esconde a sua satisfação pela iniciativa atual de um grupo dos jovens órfãos que decidiu endereçar uma carta ao Presidente da República de Angola, José Eduardo dos Santos, com o objetivo de exigir a verdade, 40 anos após os eventos. E querem sobretudo conhecer finalmente os resultados da investigação da Comissão de Inquérito, criada por decisão do então presidente Agostinho Neto, e dirigida por José Eduardo dos Santos, para averiguar se os elementos da corrente de Nito Alves e José Van Dúnem eram ou não fraccionistas.

Reis reivindica ainda um processo para a devolução dos corpos às famílias, lamentando que as viúvas não têm certidão de óbito dos seus respetivos maridos e companheiros, e que há filhos que não têm o nome do pai nos seus bilhetes de identificação: "Quer dizer, as pessoas cometem crimes e não podem ficar impunes para o resto da vida! A nós não nos foi dado o direito de responder a um tribunal, mas nós temos que exigir que se forme um tribunal para ouvir as pessoas que cometeram crimes.”

27 de Maio José Reis e Edgar Valles - MP3-Stereo

A angústia das famílias

Edgar Francisco Valles foi poupado a destino semelhante a de José Reis por ter vindo para Portugal cinco meses antes do 27 de maio. O advogado, irmão de Sita e Admar Valles, vítimas da chacina, salienta que foi ocultada à comunidade internacional a dimensão do massacre que, segundo estimativas da organização não governamental Amnistia Internacional, vitimou cerca de 30 000 angolanos. E houve ainda o sofrimento das suas famílias: "Para a minha família foi a angústia que se seguiu após o "27 de maio no que respeita a saber neste caso [o paradeiro] dos meus irmãos. Foi algo de terrível porque corriam os mais diversos boatos: ora que a minha irmã [Sita Valles] estava refugiada na União Soviética, ora que tinha conseguido refugiar-se numa embaixada; até sabermos o que se tinha passado decorreram muitos meses e isto foi uma angústia terrível sobretudo para os meus pais, que sofreram imenso,” contou Valles à DW África.

Quanto ao seu irmão Admar, na altura diretor nacional da Indústria Pesada no Ministério da Indústria, Edgar Valles diz que "era um cidadão angolano sem grande atividade política, embora fosse militante do MPLA. Logo a seguir ao 27 de maio, julgando ele que se ia salvaguardar, apresentou-se voluntariamente à polícia política (DISA) sem que tivesse qualquer responsabilidade no que quer que fosse, com receio de ser vítima de algum atentado na rua." Admar Valles esteve detido até 23 de março de 1978: "Na noite desse dia foram buscá-lo, a ele e a outros, e pura e simplesmente desapareceu da cadeia."

Edgar Valles admite que havia um grupo pro-soviético no seio do MPLA. Naquela altura, lembra, só depois da queda do muro de Berlim é que muitas pessoas de esquerda ficaram a saber o que se passava na União Soviética e nos países do bloco soviético. Até então havia uma grande ilusão em relação a isso. "Julgava-se que era um regime incomparavelmente superior aos países ocidentais", precisa.

Lissabon, Portugal Edgar Valles, Bruder von Sita Valles, Opfer des 27. Mai in Angola
Edgar Valles perdeu dois irmãos na purgaFoto: DW/João Carlos

A influência soviética

O grupo de que fazia parte considerava que o caminho correto seria seguir o modelo soviético. Entendia que o regime de Agostinho Neto estava a seguir um caminho que se poderia considerar ligado ao modelo jugoslavo ou terceiro-mundista. Mas a principal divergência era outra e residia no facto do chamado grupo de Nito Alves considerar que o regime angolano estava a caminhar para uma situação de acentuada corrupção e a desprezar os interesses do povo, diz Edgar Valles.

Também o Partido Comunista Português (PCP)  está na mira da crítica de Valles. Tendo Sita Valles sido uma militante deste partido, o advogado acha "notório" o silêncio do PCP no tratamento do tema anda considerado tabu. A União Soviética foi acusada, mas não publicamente, pelos dirigentes do MPLA, designadamente Agostinho Neto, de estar por detrás do Movimento do Nito Alves. Com receio de que essas acusações se tornassem públicas, o PCP manteve um silêncio cúmplice em relação aos massacres do 27 de maio de 1977, salienta Valles.

Hoje Valles sublinha ser da mais elementar justiça um pedido de perdão por parte das autoridades angolanas: "Não se está a pedir reparações de natureza económica. Está-se apenas a exigir que seja respeitada aquilo a que poderíamos chamar a memória coletiva. As pessoas foram vítimas de uma repressão atroz, não tiveram o direito à defesa, não foram julgadas, não tiveram a possibilidade de manifestar o seu ponto de vista como acontece em qualquer outro país e é da mais elementar justiça que haja um memorial e que ao fim ao cabo o regime reconheça as atrocidades que cometeu," diz Valles.

Buchcover von José Reis über den 27. Mai in Angola
Memórias e testemunhos

Um livro de testemunhos

José Reis concorda que o pedido de perdão público seria um gesto nobre. No entanto, perante a dimensão do crime cometido, não é o suficiente, afirma. Mas Edgar Valles diz ser importante: "Para que não se repitam tragédias como esta; que seja feita a maior divulgação do que se passou. Não há qualquer espírito de vingança, não há qualquer intenção de represálias em relação aos dirigentes do regime. Mas o que se pretende é que assumam os trágicos erros cometidos para que no mínimo, seja reposta a memória coletiva e que não se volte a repetir em África situações como esta."

O irmão de Sita Valles apresenta o livro de José Reis este sábado (27.05.) em Lisboa. Longe der ser uma obra ideológica ou a dissecação das divergências internas no MPLA o livro pretende reunir os testemunhos e as denúncias de companheiros seus que viveram aquele período de chacina e de tortura.