O lento regresso depois das cheias em Moçambique | MEDIATECA | DW | 09.03.2013
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MEDIATECA

O lento regresso depois das cheias em Moçambique

Nos últimos meses, mais de 270.000 moçambicanos tiveram que abandonar as suas casas por causa das cheias. A DW África foi ao leste da província de Gaza, uma das regiões mais afetadas, para saber como estão os refugiados.

Ouvir o áudio 10:39

O maior centro de acomodação da zona sul de Moçambique situa-se em Chiaquelane, no leste da província de Gaza. Estão no local 70 mil pessoas vítimas das cheias que afetaram a cidade de Chokwé e arredores, em janeiro.

Muitos perderam tudo nas enchentes. Francisco, um dos que encontro refúgio em Chiaquelane, conta que houve desleixo na altura que a informação sobre as cheias na cidade de Chokwé foi espalhada: "Eu ouvi, mas não acreditava. Estava a trabalhar. Quando estava a dormir ouvir pessoas a dizer que vem ai a água. Mas as 16 horas da quarta-feira, a água chegou na minha casa."

Tucha, proprietária de uma boutique em Chokwé, também não acreditava que as coisas fossem sérias: "No fundo, no fundo, não estávamos a levar a sério. Por isso que a maioria das pessoas perdeu tudo, principalmente as pessoas que tinham comida", disse à reportagem da DW África.

Albergados em tendas

Em Chiaquelane, debaixo de um intenso calor, a DW África encontrou pessoas de todas as idades albergadas em tendas. Umas a cozinhar, outras à procura de água e alimentos.

As tendas não chegaram para 70 mil pessoas. A alternativa são plásticos enormes improvisados para construir um albergue. É o que fez a dona Izilda: "Nós dormimos aqui, não temos tendas. Os plásticos que tínhamos eram para fazermos a casa de banho. Mas quando pensamos na chuva tivermos que construir um albergue por causa das crianças", relatou.

Queixas de fome apesar de haver comida

Mas em Chiaquelane, as tendas não constituem grande problema. A DW África constatou que ninguém dorme fora. A fome, essa sim, é que é o maior bico de obra do centro.

Por isso que as pessoas se aglomeram no local onde são distribuídos os alimentos. A comida é distribuída uma vez em cada 15 dias. Cada família recebe 20 quilos de arroz, um litro de óleo e cinco quilos de açúcar.

Rossana recebeu comida, fazia pouco tempo. Mas já esgotou o stock. Quando soube que não iria receber, pois ainda não era a vez do seu bairro, se queixou: "Temos que receber todos. Não é para dar um bairro e outro ficar sem comida. Todos temos que ter comida!"

Desorganização na distribuição dos alimentos

É que para receber comida se obedece a certos critérios, explica o líder comunitário, e responsável pela distribuição, Ernesto Matuwage. "Cada secretário do bairro tem uma lista e chama famílias uma de cada vez. Por exemplo, famílias do primeiro bairro são chamadas e vão receber comida."

A desorganização é visível. Todos querem ser os primeiros na fila. Quando se anuncia a chegada do camião do INGC com alimentos, instala-se a confusão que dificulta a distribuição.

As pessoas estão impacientes. Têm que ficar muito tempo na fila e debaixo do sol ardente à espera da sua vez.

Enquanto o camião do INGC descarrega, Rossana continua inconformada. Esgrime todos os argumentos para convencer os responsáveis que os víveres não estão a ser distribuídos aos que veem dos bairros da cidade de Chokwé: "Nós somos de Chokwé, agora, este bairro não é o único que sofreu com cheias. Nós também temos que ter comida. Têm que distribuir para todas as pessoas e não para uma pessoa e um bairro só."

São argumentos que não convencem. Rossana tem que se render e esperar mais uma semana. As regras foram estabelecidas assim.

Aliás, o administrador de Chokwé, Alberto Paulo, explica que todas as famílias foram alistadas para receber alimentos. E ninguém fica sem comida: "O nosso principal parceiro na distribuição trabalha em função das listas apresentadas desde o primeiro momento pelos secretários dos bairros."

Medo de ter que domir com fome

Há famílias que tentam poupar. Outras preferem comprar comida localmente com o pouco dinheiro que ainda guardam. Foi o caso da Cláudia, que é comerciante, em Chokwé. "Desde aquela vez, ainda não recebemos comida", conta Cláudia. "Restou um pouco de arroz e não sei se ainda vai dar para os próximos dias. Já estou a temer porque posso dormir com fome."

Quem também guarda alimentos por razões de segurança é o jovem Vitorino. Tal como Rossana, também ele ficou de fora da lista porque ainda não chegou a sua vez. "Esses 20 quilos que nos deram já estão praticamente a acabar. Assim temos que poupar até quando chegar a nossa vez de receber", relata o jovem moçambicano de Chokwé que encontrou refúgio na vizinha cidade de Chiaquelane. "Diziam que tínhamos que levar antes de ontem, mas até aqui não nos disseram nada. Dizem que quem está a receber são os dos doutros bairros."

Armazém improvisado

O Centro de Chiaquelane regularmente recebe comida. Na escola primária local, foi improvisado um armazém, numa sala de aula para guardar os donativos, disponibilizados por empresários, instituições ou pessoas singulares.

No armazém improvisado, a DW viu consideráveis quantidades de alimentos. Mas a distribuição não satisfaz todos. Porém, o administrador Alberto Paulo nega que haja confusão: "Não se trata de desorganização coisa nenhuma."

Impaciência e ansiedade

A comida existe de fato. O administrador defende que está a ser bem distribuída. Explicou ainda que numa situação destas reina impaciência, ansiedade e desespero entre os refugiados, o que é compreensível. "A ideia é de acumular. Quanto mais alimentos acumular melhor é, porque não sabem se no dia seguinte haverá distribuição ou não de alimentos", explica o administrador. "Por causa desta avidez e desta ansiedade, que a população tem, acabam falando coisas sem sentido."

Chokwé ainda sem condições para o retorno de todos

Por causa da fome algumas famílias preferiram voltar à cidade de Chokwé. O administrador Alberto Paulo não aconselha as pessoas a voltarem: "O governo ainda não disse oficialmente para as pessoas regressarem, porque as condições ainda não estão criadas." Alberto Paulo diz que há muita sujidade na cidade: "Há animais mortos, restos de comida que foram atingidos pelas águas. A cidade não está habitável!"

A DW África deslocou-se à cidade de Chokwé, que dista 30 quilómetros de Chiaquelane. Encontrou muito lixo por remover. Ainda é necessário pulverizar a cidade para diminuir moscas e mosquitos que podem transmitir doenças infecciosas.

No centro da cidade, a DW África encontrou alguns comerciantes que reconstruíam as suas lojas. Tucha teve que remover toda a roupa da sua boutique, que já não dá para ser vendida. Quando as águas inundaram a cidade ela não se encontrava no local: "Roupa? Mesmo que tu queiras lavar já não é possível. Aquilo é para o lixo ou lavar para oferecer pessoas, mas não para vender."

Lama nas lojas

Ao lado da boutique da Tucha está um salão de beleza. Carla, com luvas e botas de cano alto remove a lama do interior da loja. "Todas as coisas entraram na lama. Lavamos umas coisas e outras não conseguimos", explica Tucha. "Deitamos e principalmente fraldas descartáveis. Perdemos muita coisa. Tínhamos cadernos. Aí tinha lama, mas assim que lavamos já estamos a montar tijoleiras."

Alguns estabelecimentos comerciais, além de terem perdido tudo por causa da força das águas, foram alvo de atos de vandalismo. Alguns trabalhadores de hotéis ou restaurantes vandalizados estão agora desempregados. Francisco regressou de Chiaquelane para regressar ao trabalho.

Mas a loja onde trabalha ainda não está em condições para isso. Agora faz alguns biscates, removendo ou descarregando mercadorias das lojas em recomposição. "Estou a trabalhar para receber por dia para conseguir comprar comida, sabão e mais...", conta Francisco.

Mas mesmo assim, a cidade de Chokwé tenta renascer dos escombros das cheias.

Autor: Romeu da Silva (Chokwé e Chiaquelane)
Edição: Johannes Beck / Renate Krieger