Namíbia ainda não abriu capítulo negro da SWAPO no exílio em Angola | MEDIATECA | DW | 30.07.2013

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Namíbia ainda não abriu capítulo negro da SWAPO no exílio em Angola

Milhares de pessoas foram presas quando o movimento de libertação da Namíbia, a SWAPO, esteve no exílio em Angola, há 30 anos. Muitas desapareceram, muitas foram torturadas. Até agora, impera o silêncio.

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Pauline Dempers continua à espera de respostas. Passaram-se quase trinta anos, mas ela ainda não sabe por que razão foi presa e torturada por pessoas que, tal como ela, pertenciam à SWAPO e lutavam pela independência da Namíbia.

Pauline foi detida no Lubango, no sul de Angola. Nos anos 80, a região servia como ponto de retaguarda para os guerrilheiros da SWAPO. Ela diz que ainda não percebe por que razão os seus próprios colegas da SWAPO a prenderam, acusando-a de coisas que não fez.

"Disseram-me que era uma agente do inimigo e que tinha de lhes contar a verdade sobre as minhas atividades", conta Pauline. "Cinco homens bateram-me, obrigaram-me a despir todas as minhas roupas. Fui torturada durante vários dias para dizer que era uma agente do inimigo."

A dor era insuportável, diz. Tão insuportável que um dia ela foi obrigada a ceder.

"Acabei por dizer que 'sim', que era uma agente do inimigo, no dia em que me enterraram viva, de cabeça para baixo. Obrigaram-me a divulgar os nomes de outros agentes inimigos."

A sua detenção não foi um caso isolado. Outras pessoas que estavam no Lubango também foram acusadas de espionagem.

"Conheci alguns deles nas prisões, onde falávamos sobre o que nos tinha acontecido. As nossas experiências eram semelhantes", recorda Pauline, hoje com 51 anos.

A namibiana foi detida em 1986 e esteve presa durante três anos. Quando foi para a prisão, perdeu o contacto com a filha, recém-nascida. O nome dela é "Survival" - "Sobrevivência", em português. Pauline só a voltou a ver mais tarde, depois de ser libertada.

Milhares de espiões?

Na altura em que Pauline foi presa, a luta de guerrilha pela independência da Namíbia aproximava-se do fim.

A Organização do Povo do Sudoeste Africano (SWAPO, na sigla em inglês) lutava desde 1966 contra o regime de "apartheid" da África do Sul, que administrava o território namibiano desde a primeira Guerra Mundial e depois do fim da colonização alemã.

Pauline Dempers quis ajudar na luta e alistou-se nas fileiras do movimento. Mas, em 1983, teve de deixar a Namíbia. A ofensiva sul-africana tornara-se mais forte, conta Pauline. Havia quem temesse pelas suas vidas. Para ela, a solução foi o exílio.

Foi aí que muitos membros da SWAPO foram presos, acusados pelo movimento de libertação de trabalhar como agentes infiltrados para o regime sul-africano. Houve detenções na Tanzânia, nos anos 60, e também na Zâmbia, nos anos 70. Mas terá sido no sul de Angola que as prisões se intensificaram. Estima-se que mais de 4 mil pessoas tenham sido presas no Lubango.

No entanto, Phil ya Nangoloh, um ativista dos direitos humanos que está à frente da ONG namibiana NAMRIGHTS, pergunta-se a si próprio: como é que a África do Sul podia ter tantos espiões?

"Não é possível que milhares de pessoas tenham sido enviadas como espiões. Pessoas que chegavam a ser familiares e amigos. Nunca se ouviu falar de algo do género", diz ya Nangoloh. "Talvez tivesse havido um, dois ou dez espiões, mas não milhares."

Onde estão os prisioneiros que desapareceram?

Até hoje, a SWAPO, que se tornou um partido e está no poder desde a independência, ainda não esclareceu oficialmente o que aconteceu nas prisões do Lubango, refere o ativista.

Falta também saber o que aconteceu a centenas ou milhares de pessoas que não regressaram a casa, depois dos presos de guerra serem libertados antes da independência da Namíbia, em 1990. Essas pessoas desapareceram sem deixar rasto e, segundo Phil ya Nangoloh, a SWAPO recusa-se a criar uma Comissão da Verdade e Reconciliação, contrariamente ao que aconteceu na África do Sul.

"O Governo da Namíbia e a SWAPO têm a mesma posição: 'não vamos abrir feridas do passado'. Foi esse o termo utilizado", conta ya Nangoloh.

A SWAPO defende o silêncio em nome da reconciliação nacional.

Num artigo sobre o tema das prisões do Lubango, que foi publicado na página online da SWAPO, o autor Asser Ntinda pede para que se siga essa política de reconciliação. A alternativa, escreveu, seria "o caos e a instabilidade - completadas por represálias e vinganças."

Sobre as detenções de espiões e de pessoas suspeitas de serem espiões no Lubango, Ntinda argumenta que seria ingénuo pensar que a África do Sul não tinha agentes infiltrados. Segundo ele, as pessoas que foram para as prisões não foram detidas ao acaso. Teria havido informações que motivaram as suspeitas.

Já Pauline Dempers reitera que está inocente. E continua à espera de respostas.

"Se houve agentes inimigos, deveriam dizer-nos quem foram e onde estão", diz. "Não sou um desses agentes. E estou certa que as pessoas que estavam presas comigo e que regressaram não são agentes inimigos."

Para quando um pedido de desculpas?

A procura de Pauline por respostas levou-a a coordenar a associação "Breaking the Wall of Silence" - "Deitar Abaixo o Muro do Silêncio", numa tradução livre. A organização foi criada em 1996. Um dos seus objetivos é pressionar as autoridades da Namíbia a esclarecer as detenções de alegados espiões durante a guerra da independência.

"Só a SWAPO pode confirmar o que fizeram a estas pessoas e por que razão o fizeram", sublinha Pauline. "Por que é que há pessoas que ainda não regressaram a casa e por que razão fomos presos, para além das alegações que fizeram na altura."

Pauline está também à espera que a SWAPO venha a público e peça desculpas pelo que aconteceu no passado.

Segundo Carola Engelbrecht, da organização "Cidadãos para uma Sociedade Responsável e Transparente", na Namíbia, essa é também a expectativa de muitas outras pessoas.

"Penso que o Governo está com medo sem que haja motivos para isso", comenta. "Falei com as vítimas. Elas disseram-me que entendem que é preciso avançar. Querem apenas que a SWAPO reconheça publicamente que errou."

Seguir em frente?

Para Phil ya Nangoloh, da NAMRIGHTS, só será possível seguir em frente quando as autoridades namibianas encararem o assunto frontalmente. Para já, persiste o silêncio. Mas, segundo o ativista, há sinais de mudança no interior da SWAPO. A nova liderança do partido parece estar mais aberta do que antes a discutir o assunto, diz.

"Há algumas vozes importantes que têm dito que este tema deve ser abordado. E o que é importante é que, antes, as suas vozes nunca puderam falar abertamente sobre isto."

Essa é uma esperança de Pauline Dempers, que continua à procura de respostas e almeja um diálogo franco a nível nacional.

Segundo Pauline, é preciso que os namibianos se sentem à mesma mesa. Para "falar sobre isto. E encontrar uma solução."