Nacionalista angolano pede mais reformas a João Lourenço | Angola | DW | 07.11.2018
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Angola

Nacionalista angolano pede mais reformas a João Lourenço

O Governo angolano tem desafios gigantescos para fazer face à situação económica e social, reconhece o nacionalista Adolfo Maria, que acaba de lançar um livro de memórias. "A herança é pesada", diz em entrevista à DW.

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Adolfo Maria, histórico da luta de libertação contra o colonialismo português: "Em Angola falta muita coisa"

O Presidente angolano, João Lourenço, herdou do anterior regime um país minado por esquemas de sobrevivência que degeneraram em corrupção, hoje transversal a toda a sociedade angolana. E apesar de ser "um homem do sistema ", o novo Presidente compreendeu o momento histórico, afirma Adolfo Rodrigues Maria, um dos históricos do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA). "Havia que fazer rupturas senão caminhava-se para o abismo", reconhece Adolfo Maria em entrevista à DW África.

"E ele fez, quer dentro do seu próprio partido e sobretudo em relação à nação, e o apelo à sociedade civil, as promessas da democratização e o combate à corrupção. Agora não há dúvida nenhuma que Angola tem uma terrível situação económica e social", lembra o também jornalista e escritor.

O nacionalista admite que "em Angola falta muita coisa" e "as dificuldades são tremendas". Entretanto, há um capital de confiança muito grande nas reformas anunciadas por João Lourenço. "Mas se as condições económicas e sociais não se modificarem em breve, criam-se situações difíceis e esse capital de confiança começa a ser desgastado e pode ser perdido. Porque o preço do petróleo subiu, mas a produção desceu", observa.

Fim da impunidade e outros desafios

Não se fez a diversificação da economia no tempo certo e o país continua só dependente do petróleo. Para o jornalista, falta definir planos de ação e objetivos com prazos muito concretos sobre os reais problemas económicos e sociais do país.

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Nacionalista angolano pede mais reformas a João Lourenço

Será necessário criar capacidades para dar resposta aos grandes desafios que Angola tem pela frente, por exemplo, no combate ao desemprego que afeta sobretudo os jovens. "Tem de se arranjar com investimento estrangeiro e cooperação estrangeira, para pôr o país a produzir, para a agricultura familiar desenvolver-se de modo a que a grande rede de distribuição possa permitir trazer os alimentos para as cidades", defende.

Além disso, sublinha, "Angola é dos países que mais cresce em população em África. O aumento de riqueza tem de ser pelo menos superior à taxa de crescimento da população, que neste momento é de 3,1%."

Por outro lado, Adolfo Maria concorda que é necessário moralizar a sociedade angolana: "Parece já se ter começado. Uns dizem que é demasiado radical, outros dizem que é demasiado brando. Outros dizem cuidado, não se vá tão depressa. Mas um sinal para o exterior e para o interior de que é preciso moralizar o Estado e a vida pública era fundamental."

Adolfo Maria é favorável ao fim da impunidade. Até que ponto figuras como José Eduardo dos Santos, os generais Kopelipa e Dino, assim como o ex-vice-presidente Manuel Vicente podem ficar impunes no âmbito da operação contra a corrupção? "Depende de como este processo continuar", responde. "Essa classe dirigente - mesmo muitos que estão agora com João Lourenço - tem muitos telhados de vidro e muitos vão-se coibir de atirar pedras. Portanto, haverá processos de negociação, de deixa para lá, esconde aqui, vamos mais um bocadinho ali."

Passaporte angolano após anos de espera

Gratificante e igualmente sinal de mudança de paradigma é o facto de ter recebido o seu novo passaporte angolano, depois de um longo episódio, associado a entraves de ordem administrativa, que obrigou a mais de oito anos de espera e impedimento de viajar. Adolfo Maria acabou por receber o documento num ato simbólico realizado, em agosto passado, no Consulado da Embaixada de Angola em Lisboa.

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Adolfo Maria esperou oito anos pelo seu passaporte angolano

"Foi uma cerimónia pequena, curta, mas íntima, em que o cônsul [Narciso do Espírito Santo Júnior] me deu pessoalmente o passaporte em mão. Foi gratificante não só por ter recebido o passaporte, como também por essa deferência", recorda o nacionalista, que vive há vários anos em Portugal, depois de ter sido expulso de Angola em 1979 e ter sido vítima de perseguição pelo regime do ex-Presidente José Eduardo dos Santos.

Adolfo Maria acaba de lançar o livro de poesia "O Que Falta", que aborda as vivências do autor, exaltando a nostalgia da terra, além de meditações sociais e políticas, incluindo uma referência aos 100 anos de Nelson Mandela. Nas várias obras já publicadas, o autor retrata muitas vezes os momentos de exílio no exterior.

No anterior regime, tais obras não tinham espaço, mas eram bem aceites por angolanos que queriam saber mais sobre a história do nacionalismo e da luta de libertação. Com a abertura que se regista com a presidência de João Lourenço, o escritor acredita que os seus livros terão mais penetração em Angola. "A minha credibilidade fez-se pela minha coerência e mesmo aqueles que eram adversários políticos habituaram-se a respeitar-me", recorda. E agora, diz, respira-se em Angola "outro clima político e intelectual, que leva à curiosidade e o gosto de querer saber mais."

Agora que já tem o seu passaporte de cidadão angolano, Adolfo Maria tem as portas abertas para ir a Angola apresentar os seus livros. "Logo que haja condições para eu ir lá eu vou rever a minha terra. Isso é evidente", assegura.

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