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Moçambique pode bloquear telecomunicações em caso de risco

15 de janeiro de 2026

Moçambique aprovou um regulamento que permite ao Estado suspender telecomunicações por até 48 horas sem ordem judicial, em casos de "risco iminente". Juristas e ativistas alertam para ameaça aos direitos fundamentais.

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Foto: picture-alliance/Robert Harding World Imagery

O Governo moçambicano aprovou a revisão do  Regulamento de Controlo de Tráfego de Telecomunicações, que autoriza o Instituto Nacional de Comunicações de Moçambique (INCM), a bloquear voz, dados, imagem e outras comunicações, de forma total, parcial ou por subscritor.

A autoridade reguladora justifica que a revisão do regulamento visa responder ao aumento de casos de fraudes e crimes cibernéticos, bem como salvaguardar o interesse público, sublinhando que qualquer bloqueio não pode exceder 48 horas sem ordem judicial.

Para o jurista e defensor de direitos humanos João Nhampossa, o novo regulamento viola a Constituição da República, uma vez que os direitos e liberdades fundamentais só podem ser limitados por lei e em situações de necessidade expressamente previstas no texto constitucional.

Segundo o jurista, o decreto entra igualmente em contradição com a Lei do Direito à Informação, a Lei de Imprensa e a Lei da Atuação Pública. "Não há dúvidas de que o objetivo é limitar manifestações, liberdade de expressão, liberdade de imprensa e liberdade de informação, que são mecanismos de escrutínio da atuação governamental", afirma.

Controlo do espaço cívico

A ativista social Mirna Chitsungo considera que a medida representa um sinal inequívoco de controlo do espaço cívico no país. "Em Moçambique, o espaço cívico físico foi-nos retirado. A internet tornou-se o principal espaço de exercício da cidadania. Este decreto é uma estratégia para limitar as comunicações e o ativismo em momentos críticos", afirma.

A ativista critica ainda a ausência de auscultação pública, considerando que a aprovação da revisão da legislação contrasta com o discurso oficial de diálogo nacional inclusivo.

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Chitsungo defende ainda que a decisão não pode ser dissociada do contexto recente de manifestações. "A experiência das manifestações passadas explica este decreto. O Governo tem medo do seu próprio povo", sustenta.

Na mesma linha, João Nhampossa afirma que, em vez de responder às necessidades dos cidadãos, o Governo opta por atacar os mecanismos de exercício das liberdades fundamentais. "Isto é a legalização da arbitrariedade. Sabemos bem que o que está por detrás disto são as últimas manifestações pós-eleitorais. Isto é ditadura de governação e não está correto", critica.

Também os jornalistas manifestam preocupação. Para Rafael Machalela, o regulamento pode transformar as telecomunicações num instrumento de contenção política. "Moçambique está a optar por legalizar a ditadura. As telecomunicações deixam de ser um serviço público e passam a ser uma arma", afirma.

Segundo o jornalista, a medida cria um ambiente de insegurança para o exercício da profissão. "Para nós, significa trabalhar às escuras, sob o risco constante de sermos criminalizados simplesmente por informar a população", acrescenta.

Com esta medida, Moçambique segue uma tendência de outros países africanos como Uganda, Etiópia, Senegal e Guiné-Bissau que têm recorrido à interrupção total ou parcial das telecomunicações durante eleições, protestos ou crises de segurança.

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Silaide Mutemba Correspondente da DW África em Maputo
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