Moçambique: Morgues sem condições agravam risco de propagação da Covid-19 | Moçambique | DW | 03.02.2021

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Moçambique

Moçambique: Morgues sem condições agravam risco de propagação da Covid-19

Morgues de Maputo são locais de alto risco para propagação do novo coronavírus. Num estudo, a ONG CIP constatou falta de infraestruturas e até de equipamentos de proteção. Orientações da OMS não são cumpridas, revela.

 Institut für Rechtsmedizin am Universitätsklinikum Frankfurt

Foto ilustrativa

E os problemas não param por aí, há relatos de situação semelhantes por todo o país. Por isso, o Centro de Integridade Pública (CIP) lembra ao Governo moçambicano que as morgues fazem parte do sistema nacional de saúde.

Num estudo intitulado "Morgues representam risco de infeção pelo novo coronavírus", divulgado esta segunda-feira (01.02), a ONG diz, por exemplo, que "a máquina de desinfeção da morgue central do município de Maputo, que recebe corpos transferidos do Hospital Central de Maputo, o maior do país, está avariada e os funcionários chegam a trabalhar com o mesmo equipamento de proteção, incluindo máscaras e luvas, durante uma semana".   

Quanto a morgue do Hospital Provincial da Matola, na província de Maputo, também não dispõe de condições de conservação e está sobrelotada.

"A equipa de pesquisa do CIP também constatou que nalgumas gavetas das câmaras frigoríficas com capacidade de conservação de um a dois corpos encontram-se arrumados mais de quatro sobrepostos", lê-se no documento, misturando-se corpos de mulheres, crianças e adultos.

A DW África conversou sobre a situação com Ben Hur Cavelane, pesquisador do CIP.

Assistir ao vídeo 01:24

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DW África: Pode descrever o quão grave é a condição das morgues verificada pelo CIP?

Ben Hur Cavelane (BC): Uma situação bastante grave. Avaliamos a situação da infraestrutura das morgues e percebemos que não estão em condições aceitáveis para a gestão de corpos, tanto por mortes que não sejam pela Covid-19 tanto como da própria Covid-10. Quando falo de infraestrutura falo do edifício, mas também falo das câmaras frigoríficas. Temos na cidade e província de Maputo insuficiência de câmaras para a conservação de corpos. E mesmo as próprias câmaras que temos não estão em condições, algumas estão avariadas. É só para ter o exemplo, a morgue do maior município do país, Maputo, está a funcionar a 33% da sua capacidade real. O outro aspeto que o CIP constatou tem a ver com os recursos humanos, as pessoas que estão lá alocadas muitas delas não têm formação para manusear corpos vítimas da Covid-19. Temos a questão do equipamento de proteção individual, os técnicos das morgues chegam a trabalhar mais de duas semanas com a mesma máscara e até as luvas. O protocolo todo prescrito pela OMS para manuseio de corpos vítimas de Covid-19 não é respeitada. 

DW África: Essa situação é verificada só na capital?

BC: Essa não é só uma situação de Maputo Cidade e Maputo província, é uma situação nacional. Em alguns distritos não existem morgues, mas os planos anuais contemplavam a construção de morgues, porque sabemos que as visitas de altas individualidades deste país, falo do PR e até os governadores, aos distritos colocam os governos locais numa situação complicada, em que têm de desviar os recursos que têm para atender a essa visita.

Essa é uma situação muito preocupante nesta situação de pandemia. Constatámos que esses corpos saem das enfermarias das unidades sanitárias, dados como óbitos, para o Hospital Central [de Maputo] (HCM) e estes levam para a morgue municipal e esta por sua vez coloca os corpos no chão. A recomendação é que o corpo fique na morgue por 24 horas, entretanto esta recomendação não é observada, algumas famílias chegam a deixar os corpos por mais de 24 horas, outras são um pouco mais ousadas ao ponto de solicitarem aos técnicos que estes sejam conservados nas câmaras frigoríficas misturados com outros corpos e isso é feito mediante algum suborno.

DW África: Então, o Estado não cumpre há um bom tempo as regras básicas, ou regras emanadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS), no que diz respeito ao tratamento de corpos há um bom tempo. É isso?

BC: Sim, há um bom tempo que o Governo não tem estado a respeitar as diretrizes emanadas pela OMS de manuseio ou conservação dos corpos. Já se disse muitas vezes, mesmo os técnicos por nós entrevistados dizem nós somos os parentes mais pobres do sistema nacional de saúde, os recursos que cá chegam não são suficientes. 

DW África: Que recomendações o CIP faz para que a segurança sanitária seja restabelecida nas morgues?

BC: É preciso olhar para as morgues com uma das áreas do setor da saúde a que deve ser dada prioridade em termos de construção de mais morgues, equipar as morgues com frigoríficos suficientes, capacitar mais técnicos e alocar equipamentos de proteção individual e também material médico cirúrgico. 

Assistir ao vídeo 02:30

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