″Manifestação não é motivo para assassínios″ | Angola | DW | 21.11.2020

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Angola

"Manifestação não é motivo para assassínios"

Alfredo de Matos, pai de Inocêncio de Matos - jovem morto em circunstâncias ainda por esclarecer durante um protesto em Angola - reafirmou que o estudante foi morto pela polícia, e prometeu exigir justiça.

Cidadãos angolanos pedem justiça, em Luanda, no caso da morte do jovem Inocêncio Matos

Cidadãos angolanos pedem justiça, em Luanda, no caso da morte do jovem Inocêncio Matos

As declarações do pai de Inocêncio de Matos foram feitas numa conferência de imprensa realizada este sábado (21.11), em Luanda. "Inocêncio perdeu a vida em circunstâncias particularmente brutais, ele foi assassinado quando se encontrava prostrado com as mãos no ar", lamentou o pai do jovem morto na sequência de uma manifestação em Luanda, dia 11 de novembro.

Alfredo de Matos, pai do estudante, declarou ainda que o protesto "não constitui motivo para assassínios", e prometeu exigir justiça.

"É do nosso interesse realizar o funeral de Inocêncio o mais depressa possível (...), no entanto, não sem antes fazer a realização da autópsia", acrescentou o pai do jovem, que disse que a família tem "estado a encontrar inúmeras dificuldades" e foi pressionada para que se fizesse a perícia médico-legal, antes de o advogado ter sido avisado.

A Procuradoria-Geral da República (PGR) angolana divulgou nesta sexta-feira (21.11) um comunicado em que consta que a segunda autópsia ao jovem não chegou a ser realizada porque o advogado da família recusou o procedimento, depois lhe ser negada a presença de um fotógrafo, e colocou o cadáver à disposição dos familiares para que seja realizado o funeral.

Pedido de Justiça

Alfredo de Matos pediu "encarecidamente" apoio às entidades eclesiásticas, autoridades tradicionais, media, sociedade civil e opinião pública para ajudarem a "proporcionar a derradeira justiça" para que não voltem a acontecer situações semelhantes.

Angola Inocêncio Matos

Homenagem a Inocêncio Matos na Universidade Agostinho Neto

"A manifestação não é um problema, uma manifestação é consequência do problema", frisou, considerando que os protestos são a "reclamação de quem sofre" e "não constituem motivo para assassínios".

Alfredo de Matos garantiu que logo após a conferência de imprensa iria para a PGR. 

"Vou-me postar frente à PGR até que a mesma faça justiça pelo meu filho. Não vou para retaliações, não vou fazer desacatos, mas ali estarei até que a Procuradoria faça justiça", desabafou.

Segundo a PGR, de acordo com o primeiro exame de cadáver e autópsia, a perícia concluiu que a causa de morte foi um traumatismo cranioencefálico com fratura dos ossos do crânio e lesão do encéfalo, resultante de ofensa corporal com objeto de natureza contundente.

Testemunhas oculares garantem, no entanto, que o jovem foi baleado e morreu no local, sendo este também o entendimento dos familiares de Inocêncio de Matos que culpam a polícia pela morte.

"PGR está a impedir processo"

Por sua vez, o advogado da família, Zola Bambi, acusou hoje a PGR angolana de estar a impedir o bom andamento do processo, e a adotar "procedimentos para dificultar" o decurso das diligências.

Angola Protest in Luanda

Luanda tem sido palco de manifestações, nas últimas semanas, duramente reprimidas pela polícia

"Faremos com que a verdade seja levada à luz e aos tribunais", garantiu o também presidente do Observatório para a Coesão Social e Justiça.

Em declarações à Lusa, na sexta-feira (20.11), Zola Bambi adiantou que a autópsia deveria ter sido realizada nesse dia, de manhã, na morgue central do hospital Josina Machel, mas acabou por não se concretizar, pois o representante do Ministério Público não permitiu a entrada de um fotógrafo, como tinha sido requerido.

"Em nenhum momento nos disseram que o fotógrafo não podia estar presente", frisou.

A ativista Laura Macedo, também presente na conferência de imprensa, disse que quer a família, quer o observatório, os advogados e o médico "estão dispostos a aguardar "para que a contrautópsia seja feita mediante a lei e as condições que consideram ser as mais acertadas".

Laura Macedo defendeu que "a PGR não pode declinar" e a "ela serão imputadas todas as responsabilidades do que vier a acontecer ao cadáver". 

Nos últimos 30 dias, Luanda foi palco de duas manifestações duramente reprimidas pela polícia e que se saldaram em detenções e, pelo menos, uma morte confirmada.

Neste sábado (21.11), membros da sociedade civil angolana, entre os quais Laura Macedo, convocaram um outro protesto contra a corrupção e a impunidade.

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Angola: Polícia reprime protestos em Luanda