Legado Judaico: quando o exílio se torna pátria | MEDIATECA | DW | 12.01.2013
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MEDIATECA

Legado Judaico: quando o exílio se torna pátria

Lisboa foi um porto de esperança para os refugiados judeus e perseguidos políticos durante a Segunda Guerra Mundial. E a sala de espera para continuar viagem rumo aos Estados Unidos, ao Brasil, à Palestina.

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Dos milhares de refugiados judeus que passaram por Lisboa, poucos ficaram. Para estes o porto de trânsito, por diversas razões tornou-se porto de destino fazendo do exílio pátria. É o caso de Ruth Arons.

Nos anos quarenta Lisboa estava cheia de refugiados. Músicos, artistas, escritores e intelectuais como o pintor Marc Chagall, ou escritores Thomas Mann ou Hans Sahl. Muitos deles deixaram testemunho da sua passagem por Lisboa em romances, cartas ou livros de memórias.

Hans Sahl, um dos maiores escritores de língua alemã do século XX, descrevia assim Lisboa. "No porto de Lisboa estavam atracados navios que já não levantavam ferro, ou raramente o faziam. Nos cafés viam-se refugiados de todos os países à espera de um visto e procurando ser ouvidos nas mais desvairadas línguas. Sentíamo-nos em liberdade...Havia que comer, podíamos ir ao barbeiro e até à manicure. Abraços em tabernas cheias de fumo, junto ao porto, a amigos que tinham conseguido escapar. Brindava-se à América e todos combinavam ir juntos, assim que chegassem, ver o novo filme de Chaplin, o grande ditador, que acabava de estrear em Nova Iorque.

Se nos Estados Unidos em 1940, data em que estreou o filme se parodiava Hitler, a Europa, com a invasão da Polónia pela Alemanha nazi a 1 de Setembro de 1939, mergulhava no caos e no horror da guerra.

Recuemos no tempo. Com a chegada ao poder de Adolf Hitler, em 1933, os judeus foram alvo de uma propaganda anti-semita virulenta. Sendo excluídos económica, social e politicamente e mais tarde forçados a abandonar a Alemanha. Houve alguns que pressentindo o perigo saíram do país nos primeiros anos da década de trinta. A família Arons fê-lo.

Partida para um país desconhecido

A pequena fotografia a preto e branco que segura nas suas mãos data de 1935 e mostra Ruth Arons aos 13 anos, e sua irmã Ellen, com 10 anos, sentadas no banco traseiro de um descapotável, rumo ao ainda desconhecido Portugal.

" Em 1936 os meus pais decidiram que iriam imigrar. Primeiro fomos para Suíça e então os meus contaram-nos que iríamos para Portugal. Viemos de carro devagar por Paris, por Espanha até chegarmos a Portugal", recorda a activa senhora de 90 anos. Confessa-nos ainda que quando o carro partiu ficou "aliviada e ansiosa ao mesmo tempo". Ruth Arons recebeu-nos num prédio do elegante bairro de Amoreiras, em Lisboa. E as memórias vão e flutuando durante a conversa.

Ruth Arons fala um português perfeito, cheio de metáforas. Mas não esqueceu a língua materna o alemão e será em alemão que conversaremos. Na sala de estar da sua casa, há um armário cheio de livros: literatura clássica alemã, uma enciclopédia Brockhaus, obras de filosofia e política e o livro de cozinha da avó. Até hoje Ruth Arons sente o aroma e o sabor dos pratos que sua avó cozinhava.

O livro, um dos objectos trazidos da Alemanha que Ruth Arons conserva com mais carinho, chegou a Lisboa juntamente com os móveis e bens da família, antes que a própria avó Arons deixasse o país, o que aconteceu depois da Noite de Cristal de 9 de Novembro de 1938, noite em que foram destruídas Sinagogas, quebradas montras das lojas judaicas e milhares de judeus um pouco por toda a Alemanha foram levados para campos de concentração. Ruth Arons é descendente de uma abastada e culta família berlinense. Na capital alemã, no bairro de Neu Köln, existe ainda hoje uma rua Arons dedicada ao seu tio avô Leo Arons, um inventor, professor universitário de Física e militante do Partido Social Democrata.

Feliz por poder deixar a Alemanha

Ruth recorda-se bem, Adolf Hitler havia tomado o poder há apenas dois meses, quando, no dia 1 de abril de 1933, uma ação de propaganda levou a um boicote, em toda a Alemanha, às lojas que pertenciam aos judeus, aos consultórios de médicos judeus e aos escritórios de advogados judeus. "O meu pai Albert era advogado", conta-nos e "foi proibido de exercer a profissão. A atmosfera naquela época era terrivelmente tensa".

Ela tinha apenas 11 anos e não compreendia o que tudo aquilo significava, mas sentia, como recorda hoje, um mal-estar difuso, uma sensação de ameaça. No mundo infantil as coisas também mudavam: "Frequentávamos naquele tempo uma escola pública no bairro Charlottenburg, em Berlim", conta. "Os nossos pais nos tiraram-nos de lá por causa da discriminação e colocaram-nos numa outra escola. Os católicos pareciam-nos mais cordiais, mas era um engano: as meninas não judias recebiam em casa a proibição de manter contacto com as colegas judias. Quando saí da Alemanha, fiquei muito feliz", recorda Arons.

O seu pai percebeu cedo os rumos que as coisas tomariam. Ele leu "Mein Kampf", (A Minha Luta), o livro de Hitler, e levou-o muito a sério. Em seguida resolveu deixar a Alemanha com mulher e filhos enquanto isso ainda era possível.

A vida na Avenida da Liberdade

A cidade à beira do Tejo era naquela época uma cidade pequena no sul da Europa. Na década de trinta apenas cerca 600 refugiados viviam ali à espera de um visto para continuar viagem. A grande onda de milhares de perseguidos viria quatro anos mais tarde, com a ocupação da França pelos alemães.

No Jardim das Amoreiras, situado em frente à casa de Ruth Arons, marcamos encontro com Irene Pimentel, historiadora e autora do livro " Judeus em Portugal durante a Segunda Guerra". Ela fala-nos deste período: "Na década de trinta chegaram muito pouco gente, porque muito refugiados políticos ou judeus exilaram-se ali à volta em países democráticos, mas houve um outro que chegou a Portugal naquela altura era muito fácil encontrar emprego e era fácil inclusive ter a nacionalidade ou obter o visto de residência".

A família Arons, que intregra a primeira leva de judeus a chegar a Portugal, morou de início, e simbolicamente, numa pensão da Avenida da Liberdade. "Não sabíamos nada sobre Portugal, só conhecíamos vinho do Porto, cortiça e sardinhas no óleo, nada mais. É claro que não falávamos uma palavra de português", conta Arons.

A Lisboa pacífica, iluminada e impregnada de música recebia os refugiados vindos da Alemanha de maneira cordial. O escritor alemão Alfred Döblin, falecido em 1957, disse na altura da sua chegada a Lisboa: " sim foi com luz, risos e música que Lisboa nos recebeu. A divertida música das ruas durou horas e nós ouvia-mo-la da janela do nosso Hotel. Mas que mundo, mas que mundo. Inacreditável"

Os portugueses eram prestativos e não havia obstáculos de ordem burocrática. Ruth e sua irmã Ellen frequentavam a escola francesa - isso facilitava a adaptação, pois elas já tinham tido aulas de francês em Berlim. As colegas, com quem aprendiam português, eram simpáticas, recorda Ruth Arons. E nem podiam imaginar que, na Alemanha, crianças desta idade poderiam ser perseguidas e discriminadas.

Paraíso triste

Nos anos quarenta Lisboa ficaria cheia de refugiados judeus e perseguidos políticos, entre estes muitos artistas, músicos, escritores e intelectuais. A imagem da cidade mudava a cada dia. E Lisboa transformava-se em uma metrópole em ebulição, permeada por culturas e idiomas estrangeiros. Uma cidade na qual os caminhos se cruzavam e destinos eram definidos; onde refugiados, espiões e a polícia política se encontravam, seja na Pastelaria Suíça ou no Café Nicola, no Bar Famous ou fora da cidade, no Palácio Estoril.

Tradições diferentes e hábitos estranhos acabaram se disseminando pela cidade. Ruth Arons recorda: "Lisboa era uma cidade pequena e, de repente, chegaram todos aqueles refugiados. Eles ficavam sentados na Esplanada, tomando café e comendo tortinhas de creme. As mulheres iam sozinhas aos cafés e fumavam. Isso tudo era para os moradores da cidade uma imagem inusitada".

A vida da maioria dos refugiados em Lisboa e arredores era, a partir de 1940, tudo menos cheia de glamour: a luta pela mera sobrevivência sugava todas as forças. Era preciso organizar moradia e sustento. E Portugal era, para a maioria dos refugiados, apenas uma estação intermediária, uma espécie de sala de espera, pois a maioria dos que chegava até ali queria seguir viagem pelo Atlântico, procurando desesperadamente por passagens de navio, bilhetes e documentos de viagem. A comunidade judaica e o Joint Distribution Committee ajudavam, embora os recursos muitas vezes não fossem suficientes.

De uma ditadura à outra

A partir de 1942, os sucessos da Wehrmacht pareciam trazer a guerra para mais perto: "De todos os lados chegavam informações desencorajadoras", lembra Arons. O rádio ficava ligado ininterruptamente. E as notícias adquiriam um significado existencial: era o medo básico dos refugiados de perderem a oportunidade de sair. O medo de serem triturados pela máquina militar dos nazis ou se tornarem vítimas da Gestapo, que operava também em Portugual.

A família Arons pouco sabia a respeito do que acontecia de factto na Alemanha nazi ou nos países europeus ocupados. Auschwitz e Dachau, com seus crimes hediondos cometidos contra os judeus europeus, eram assuntos que só mais tarde abalariam e indignariam a família. E Ruth Arons nunca quis voltar a viver na Alemanha. Até hoje interroga-se: "Onde estava Deus, quando todo esse horror aconteceu?".

Mais tarde, estudaria na Universidade de Lisboa. Depois da guerra casar-se-ia com um colega de Faculdade e obteve a cidadania portuguesa. Ruth Arons participou no movimento de resistência ao regime de António de Oliveira Salazar, o ditador conservador-autoritário, que praticou durante a Segunda Guerra uma subtil política de neutralidade, sem estar 100% do lado dos aliados, mas também sem se aliar aos nazis alemães.

Ruptura democrática

Em 1973, Portugal era a mais antiga ditadura da Europa. E, de repente, as voltas que a história dá ficavam visíveis: Alberto Arons de Carvalho, filho de Ruth Arons, fundava junto com o político exilado e futuro primeiro-ministro do país, Mário Soares, o Partido Socialista: e isso exatamente em Bad Münstereifel, na Alemanha. Com apoio dos social-democratas alemães, cujo líder na época era o ex-chanceler federal Willy Brandt. Um ano mais tarde, eclodia a Revolução dos Cravos, trazendo a Portugal um processo de democratização. Ruth Arons sempre esteve do lado dos revolucionários e democratas.

E em breve ela viria a ocupar também um cargo: a de primeira presidente da Junta eleita de São Mamede, um bairro de Lisboa.

Hoje ela vê a Alemanha com sentimentos ambíguos: uma Alemanha que para ela se tornou estranha. "Portugal é meu país. Amo Lisboa e gosto muito de viver aqui. Moro nesta rua há 50 anos, conheço todo mundo", diz ela. A Alemanha faz parte de um passado há muito deixado para trás.

Autora: Helena Ferro de Gouveia
Edição: António Rocha