Julgamento Football Leaks: Crime ou serviço público? | NOTÍCIAS | DW | 04.09.2020

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NOTÍCIAS

Julgamento Football Leaks: Crime ou serviço público?

No julgamento do processo Football Leaks, que começou esta sexta-feira (04.09), em Lisboa, o arguido Rui Pinto disse que foi compelido a atuar para combater a corrupção e frisou não ter feito nada por dinheiro.

Rui Pinto responde por um total de 90 crimes, incluindo acesso indevido a documentos, violação de correspondência, sabotagem informática e tentativa de extorsão. O réu, que será ouvido até dezembro, está também ligado ao caso Luanda Leaks, operação que ajudou a investigar e denunciar os esquemas alegadamente fraudulentos nos negócios da empresária angolana, Isabel dos Santos, filha do ex-Presidente Angola, José Eduardo dos Santos.

O julgamento de Rui Pinto é considerado um dos mais mediáticos dos últimos anos em Portugal, tendo arrancado sob fortes medidas de segurança. Na primeira sessão, que decorre no Tribunal Central de Instrução Criminal, no Campus da Justiça, Pinto fez uma curta declaração inicial para frisar que agiu de boa fé e que nada fez por dinheiro.

Denúncia de atividades ilícitas

Disse que tudo o que revelou foi de interesse público e que o objetivo era denunciar "graves atividades ilícitas”, factos ligados não só ao mundo do futebol, que de outra forma não seriam conhecidos. Quer com isto dizer que justifica os seus crimes com a necessidade de combater a corrupção.

Diante dos juízes e advogados, o criador da Plataforma Football Leaks, que trouxe a público o escândalo Luanda Leaks, assumiu-se como denunciante e não como hacker, tendo-se manifestado indignado com o que descobriu. Por isso, disponibilizou-se a continuar a colaborar com as autoridades judiciais.

Portugal Lissabon Prozess Football Leaks

Os advogados de defesa, William Bourbon (2º à esq) e Francisco Teixeira Mota consideram que o arguido colaborou com a Justiça.

Acusação considera justificação "irrisória"

A defesa de Rui Pinto, representada por William Bourdon e Francisco Teixeira Mota, fugiu aos pedidos de mais esclarecimento dos jornalistas: "Foi uma declaração, ouviram-na, têm acesso ao texto. Podem interpretá-la como entenderem. […] Sobre este caso concreto não falo, já disse várias vezes, não falo. Não comento os casos pendentes em tribunal”, disseram em uníssono.

A estratégia da dupla de advogados é convencer o tribunal que o arguido, que também tem estatuto de testemunha protegida, foi colaborante com a Justiça e não um criminoso.

Mas  a acusação, representada por Tiago Rodrigues Basto, de uma sociedade de advogados (PMLJ), insiste no crime de extorsão à Doyen Sports atribuído a Rui Pinto.

"Vamos ater-nos àquilo que me parece que é o que está em causa nesse julgamento, que é uma tentativa de extorsão, a intromissão ilícita em vários sistemas informáticos e em caixas de correio de pessoas”, disse, qualificando de "um bocadinho irrisória” a tentativa de justificação para essa conduta apresentada por Rui Pinto.