Investigador moçambicano vence Prémio de Inovação em Aquacultura | Moçambique | DW | 09.11.2020

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Moçambique

Investigador moçambicano vence Prémio de Inovação em Aquacultura

Simão Zacarias, distinguido com o Prémio Global de Inovação em Aquacultura 2020, pede um maior investimento na investigação em Moçambique. Em entrevista à DW, defende políticas e estratégias mais claras para o setor.

Simão Zacarias é o primeiro moçambicano e africano a vencer este prémio

Simão Zacarias é o primeiro moçambicano e africano a vencer este prémio

O pesquisador moçambicano Simão Zacarias, do Instituto de Aquacultura da Universidade de Stirling, na Escócia, venceu o Prémio Global de Inovação em Aquacultura 2020, atribuído pela Global Aquaculture Alliance (GAA), uma organização não-governamental com sede nos Estados Unidos.

Aos 31 anos de idade, Simão Zacarias é o primeiro moçambicano e africano a vencer este prémio. O académico foi escolhido num universo de 30 concorrentes, oriundos de 17 países, nomeadamente Bélgica, Canadá, Chile, Dinamarca, Índia, Indonésia, Israel, Malásia, México, Holanda, Noruega, Panamá, Espanha, Reino Unido, Estados Unidos, Tanzânia e Tailândia.

Nascido no Bairro da Manga, arredores da cidade da Beira, Simão Zacarias é licenciado em Biologia Marinha pela Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo, e mestre em Aquacultura pela Universidade de Santa Catarina, no Brasil. Concorreu ao prémio da Universidade de Stirling com o estudo "A robustez/resistência do camarão a enfermidades melhora sem uso da ablação ocular".

Em entrevista à DW África, o investigador diz sentir-se orgulhoso pelo galardão, porque é fruto do esforço que tem vindo a fazer desde a infância, "principalmente quando se vem de uma família humilde", destaca. Zacarias apela ao Governo moçambicano para que aposte seriamente na investigação no setor de aquacultura.

DW África: O que é que esta distinção representa para si?

Simão Zacarias (SZ): Este prémio representa um dos maiores sonhos que já alcancei na vida e é também o resultado do esforço que tenho feito desde a minha infância. Principalmente quando você sai de uma família humilde e tem de lutar pela vida. E para o país é o primeiro africano e moçambicano a ganhar este prémio. Então, devo estar muito orgulhoso disso, mostrando que no país existe gente que se, existirem condições apropriadas para promover a investigação e inovação, é possível se alcançar este tipo de prémios.

DW África: O facto de ter sido eleito num universo de mais de 30 candidatos representa um grande desafio ou não?

SZ: Realmente, representa. Esse é um prémio muito concorrido. Geralmente concorrem a este prémio empresas e/ou organizações. E raramente pessoas singulares conseguem ser selecionadas entre os três finalistas. Então, é um desafio enorme. No princípio parecia ser impossível, mas no final, quando você consegue apresentar algo inovador e que responde às questões atuais ou modernas na indústria de aquacultura, acaba vencendo o prémio, assim como eu fiz.

DW África: E quais são os próximos projetos que está a preparar para o sector de aqualcutura?

SZ: Esse prémio é algo que vem daquilo que fiz durante as minhas pesquisas de doutoramento, nas quais estive muito preocupado na melhoria das boas práticas no bem-estar do cultivo [produção em tanques] do camarão. Nas várias pesquisas que fiz, uma delas aborda a sanidade, porque na aquacultura, principalmente na indústria do camarão, o grande problema tem a ver com as enfermidades. E a minha pesquisa foi selecionada exatamente por causa das soluções que apresentei para ajudar no combate das doenças na indústria do camarão. Depois deste prémio, a ideia é continuar a trabalhar nas questões de inovações na aquacultura, trazendo outras soluções para o setor, porque o setor ainda tem muito desafios.

DW África: Qual é a "varinha mágica" em termos de soluções para combater as enfermidades na produção do camarão em Moçambique?

SZ: Na verdade, o que devemos fazer é nos adaptar e saber conviver com as enfermidades. É o que a indústria do camarão está a fazer o nível mundial. Sei que em Moçambique o setor do camarão está a apostar em sistemas de maior biossegurança, que em principio é um sistema fechado. Esta técnica também está a ser usada a nível mundial.

DW África: Olhando para Moçambique, como é que se pode tornar o setor de aquacultura mais sustentável?

SZ: Primeiro temos de tornar as políticas e estratégias do setor mais claras, que permitam ou impulsionem o desenvolvimento da aquacultura. O país tem as potencialidades que tem, então temos que deixar claro quais são as espécies que precisamos para impulsionar o setor. Outra das questões importantes tem a ver com os investimentos. Ainda não temos no país [um local] onde os produtores que queiram apostar no desenvolvimento da aquacultura possam se dirigir para buscar financiamento.

DW África: Acredita que a forma que o país tem estado a olhar para a aquacultura pode dar bons resultados? Ou é preciso fazer um pouco mais?

SZ: Não é preciso fazer um pouco mais, é preciso fazer muito mais. É preciso que o país invista muito na investigação porque isso vai ajudar Moçambique a encontrar soluções locais.