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Guiné Equatorial: Governo acusa oposição de tentar golpe

Lusa | EFE | cvt
29 de dezembro de 2017

Esta quinta-feira, autoridades disseram ter travado uma tentativa de golpe de Estado contra o Presidente Obiang. Principal força da oposição nega acusações e denuncia detenção de dezenas de militantes.

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Teodoro Obiang, Presidente da Guiné Equatorial desde 1979Foto: picture-alliance/dpa/S. Lecocq

Fontes oficiais equatorianas revelaram à agência EFE, em Paris, que "o instigador do golpe" é "o número um" do principal partido de oposição na Guiné Equatorial, Cidadãos para a Inovação (CI), Gabriel Nsé Obiang Obono, que terá contado "com a cumplicidade da oposição no exílio" - nomeadamente da Coligação da Oposição para a Restauração de um Estado Democrático na Guiné Equatorial (CORED), cujo líder histórico é Severo Moto.

Segundo as fontes ouvidas pela EFE, as forças do regime terão detido cerca de "cinquenta pessoas", que se presume terem estado implicadas na tentativa frustrada de golpe, tendo sido apreendidas armas, incluindo cinco lançadores de granadas, uma metralhadora e as munições.

Sem citar nomes, as fontes relataram que um general tentou "derrubar" o chefe de Estado com uma operação perto da localidade de Kye-Ossi, na fronteira com os Camarões, mas quando a tentativa falhou, ele fugiu, embora o seu motorista tenha sido detido.
A intenção dos rebeldes seria chegar à localidade de Mongomo, onde se encontrava o Presidente Teodoro Obiang Nguema, que se teria deslocado para Malabo, esta quinta-feira (28.12).

Sempre de acordo com a versão oficial, o general teria recrutado chadianos, centro-africanos e outros estrangeiros para a operação.

As fontes indicaram ainda que Obiang planeia encontrar-se com funcionários militares e membros do seu Governo, esta sexta-feira (29.12).

Äquatorialguinea 2016 Präsidentschaftswahl
Em novembro passado, a Guiné Equatorial realizou eleições parlamentaresFoto: Getty Images/AFP/STR

Relatos da oposição

A agência Lusa noticiou, na tarde desta quinta-feira, que a sede do partido CI, em Malabo, foi cercada por mais de 200 militares, que detiveram militantes nas ruas, uma nformação avançada por um dos coordenadores do partido, que se encontrava dentro do edifício.

Num contacto telefónico com a Lusa, a partir de Malabo, Mariano Ona relatou que a sede do CI foi cercada, por volta das 13 horas locais, por cerca de duas centenas de militares "vestidos com equipamento anti-distúrbios, com a cara coberta e com espingardas automáticas de assalto", apoiados "por viaturas blindadas".

"Cortaram a rua de acesso à sede [do CI] e estão a deter os militantes do partido que encontram pelas ruas", contou Mariano Ona, acrescentando que as tropas governamentais "não indicam a razão" para as detenções, apenas "alegam ter ordens superiores" para fazê-lo.

No total, estimou Ona, terão sido detidos mais de 120 militantes do partido.

A sede do partido é uma vivenda com muros altos na periferia de Malabo, numa zona degradada da capital, à qual se pode aceder apenas por uma rua, agora cortada pelos militares.

No interior da sede do partido - que impugnou as eleições parlamentares de novembro -- estavam vários dos seus dirigentes máximos, incluindo Mariano Ona e o líder do Cidadãos para a Inovação, Gabriel Nse Obiang Obono.

"Temos receio de que eles [os militares] estejam à espera que anoiteça para entrarem na sede e deterem o líder do partido", relatou na altura Ona, não havendo para já informação sobre se Obiang Obono e Mariano Ona foram, entretanto, detidos.

O coordenador do Cidadãos disse ainda que não tem relato de que outros partidos da oposição estejam a ser alvo do mesmo tipo de ações por parte das autoridades.

"Este é o único. Desde que impugnámos as eleições que eles têm vindo a exercer este tipo de pressão", disse.

Äquatorial Guinea - Straße in Malabo
Vista parcial de rua da capital, MalaboFoto: AP

Denúncias de perseguição

Na quarta-feira (27.12), o partido Cidadãos para a Inovação, já havia denunciado que cinquenta militantes do partido estavam detidos e que mais de 100 estariam refugiados há vários dias na sede partidária em Bata, capital económica da Guiné Equatorial.

"Cinquenta dos nossos militantes estão detidos na prisão pública de Evinayong [localizada no centro do país] na Guiné Equatorial", disse, em declarações à agência noticiosa francesa France Presse (AFP), o líder nacional do partido do CI, Gabriel Nse Obiang Obono.

Também em declarações à AFP, outro dirigente da força partidária, Bonifacio Nguema (um dos vice-secretários gerais do CI), acrescentou que "mais de 100 militantes" procuraram refúgio na sede do partido em Bata, porque temiam ser presos "como aconteceu com outros militantes" e para "fugir às detenções noturnas".

A partir de Bata, e em declarações via telefone, Bonifacio Nguema disse também que estes militantes "dormem na sede há mais de quatro semanas".

O líder nacional do CI, Gabriel Nse Obiang Obono, relatou ainda que as autoridades de Malabo "maltratam as mulheres e os jovens" e exigem a entrega do cartão de filiação ao CI.

"É deplorável, é uma perseguição política", acusou Nse Obiang.

Segundo o partido, as detenções noturnas de militantes começaram "pouco depois" das eleições gerais de novembro.

O CI obteve 5,77% dos votos no escrutínio e conseguiu conquistar um assento parlamentar, o único representante da oposição entre os 100 parlamentares que compõe a Assembleia Nacional.

"Eles não cometeram nenhum crime, são perseguidos porque integram as fileiras do partido", reforçou Bonifacio Nguema.

Äquatorialguinea Malabo
Vista parcial da capital, MalaboFoto: Angue Nguema/AFP/Getty Images

Ameaças

Segundo a agência EFE, em comunicado, o CI disse ter sido alertado por uma fonte dos Serviços de Segurança do Estado sobre "os planos do regime de derramar sangue dos membros da CI, até ao próximo dia 15 de janeiro".

Além disso, o partido denunciou que o Governo tem um plano para "a eliminação física" do líder da formação, Gabriel Nsé Obiang Obono.

O CI apontou que as prisões de membros de seu partido são uma provocação para a formação reagir violentamente e ser acusada perante a comunidade internacional.

As autoridades da Guiné Equatorial confirmaram à EFE que "uma dúzia" de membros dessa formação foram detidos nos últimos dias, mas atribuíram o facto à suposta participação dos mesmos em altercações durante a campanha das eleições legislativas de novembro passado.

As fontes apontaram que o Presidente Obiang não queria a investigação desses eventos para levar a detenções durante a campanha, de modo a não alterar o processo eleitoral, mas uma vez que acabou, foram detidos os supostos perpetradores.

O CI não compreende as detenções e apontou que o único movimento recente que realizou foi a apresentação de um recurso para contestar os resultados das eleições legislativas. Fontes do partido em Espanha disseram à EFE que a acusação de golpe de Estado é "uma montagem do ditador" para constituir um argumento para a repressão sangrenta.

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Partido Cidadãos pela Inovação conquistou um assento parlamentar nas eleições de novembro passadoFoto: Getty Images/AFP/STR

Parlamentares

As eleições legislativas de 12 de novembro foram ganhas, sem surpresa, pelo partido atualmente no poder, o Partido Democrático da Guiné-Equatorial, que conquistou 149 dos 150 lugares nas duas câmaras do Congresso. Foi eleito um único deputado entre os partidos da oposição, o parlamentar do Cidadãos pela Inovação.

O Partido Democrático da Guiné-Equatorial é liderado por Teodoro Obiang, Presidente da Guiné Equatorial desde 1979. Obiang, de 75 anos, é um dos chefes de Estado africanos há mais tempo no poder. O seu Governo tem sido acusado por várias organizações da sociedade civil de constantes violações dos direitos humanos e perseguição a políticos da oposição.

Esta antiga colónia espanhola, localizada na África Central, é membro de pleno direito da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) desde julho de 2014.

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