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Bissau: "Não há acordo com o FMI se não existe um povo"

14 de novembro de 2022

O Fundo Monetário Internacional está na Guiné-Bissau para avaliar uma retomada de apoio ao país. Mas a sociedade civil guineense alerta: "qualquer sacrifício que o FMI venha a pedir mais é tentar aniquilar a população".

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Straße in Bissau
Foto: DW/F. Tchuma

Tem início, esta segunda-feira (14.11), na Guiné-Bissau mais uma missão do Fundo Monetário Internacional (FMI) para analisar a situação económica do país e as condições para negociar um programa financeiro.

Nas últimas semanas, e com o intuito de responder às exigências deste organismo, o Governo guineense anunciou vários cortes orçamentais, alguns deles em setores-chave do país, como são a saúde e educação.

Chamado a comentar o impacto deste cortes na vida da população, o vice-presidente do Movimento Nacional da Sociedade Civil, Sidi Jaquité, é peremptório ao afirmar que "qualquer sacrifício que o FMI venha a pedir mais é tentar aniquilar a população".

Nesta entrevista à DW, Sidi Jaquité diz que, neste momento, o país "precisa mais de preparar as eleições" e alerta que as greves em curso no país podem resvalar para atos de desobediência civil se se continuarem a pedir mais sacríficos às pessoas.

DW África: Na semana passada, o ministro das Finanças veio dizer que que o país está a fazer "sacrifícios" para conseguir um programa financeiro com o Fundo Monetário Internacional… Quem paga os sacrifícios económicos da Guiné-Bissau?

Sidi Jaquité (SJ):  Nós já estamos a fazer sacrifícios. Então, se o FMI está a pedir mais sacrifícios, isso quer dizer que está agora a tentar aniquilar a população. Os sacrifícios que nós estamos a fazer já são demais.

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Setores como a saúde sofreram com cortes nos últimos mesesFoto: I. Dansó/DW

DW África: Entre as medidas anunciadas pelo Governo estão, por exemplo, a demissão de todos os conselheiros e assessores do PR, mas estão também cortes em setores-chave como são a saúde e a educação. Não haveria outros setores onde se poderiam fazer cortes?

SJ: Eu acho que, para viabilizar este programa, [o FMI] poderia pedir para fazer cortes na segurança e nas áreas que não são áreas sociais. Porque realmente o programa do Fundo Monetário Internacional, mesmo se vier para ajudar o país, deveria começar a ajudar nas áreas sociais. Então, se vem agora anunciar ajudas com a retomada de programas cortando as áreas sociais, não tem lógica.

DW África: Estas negociações com o FMI acontecem numa altura em que ainda não há uma data para as próximas eleições. Será este o momento adequado para este tipo de negociação?

SJ: O FMI veio no momento em que, de facto, o país está mais preocupado com as eleições, porque nós agora já temos uma data que era 18 de dezembro, que já sabemos que não vai se realizar. Tem uma nova data que foi anunciada pelos partidos políticos em conversações com o Governo, que ainda não foi sancionada pelo Presidente da República.

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FMI iniciou as negociações com Bissau desde a semana passada, mas via onlineFoto: picture-alliance/dpa

Eu acho que, neste momento, o país precisa mais de preparar as eleições para que sejam eleições livres, justas e transparentes. Se preparar muito bem o recenseamento dos eleitores, se preparar as campanhas de sensibilização, para que possamos ter eleições numa data pelo menos até ao mês de abril.

DW África: Com várias greves a assolar o país, quais deveriam ser, a vosso ver, as prioridades do Governo?

SJ: Eu acho que as greves que estão a decorrer neste momento têm a ver com os cortes sociais. E essas greves podem desembocar em desobediência civil, em ações que nós não queremos no país. Eu acho que, neste momento, a Guiné-Bissau, no extremo de sacrifícios, já deu o que tinha que dar. Todo o sacrifício que nós pedirmos agora à população vai ser demais.

Estávamos, de facto, com vontade de receber o FMI. Queremos continuar no concerto das nações, mas temos que saber que não há Governo sem povo. E quem vota no Governo é o povo. Não há acordo com o FMI se não existe um povo. Agora, se o Governo tem que assinar alguma coisa que vai pedir mais sacrifícios à população, é demais. Aqui no país muita gente está a dizer que não vai votar, porque não está a ver o resultado do voto. E neste momento de tentarmos cortar mais coisas nas áreas sociais, vamos criar mais problemas para as eleições que se avizinham.

Qual é o impacto das greves na Guiné-Bissau?

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