Guiné-Bissau: ″Atores políticos estão a brincar com o desespero do povo″ | Guiné-Bissau | DW | 10.12.2018
  1. Inhalt
  2. Navigation
  3. Weitere Inhalte
  4. Metanavigation
  5. Suche
  6. Choose from 30 Languages

Guiné-Bissau

Guiné-Bissau: "Atores políticos estão a brincar com o desespero do povo"

Na Guiné-Bissau o cenário político continua de mal a pior sem que as autoridades apresentem uma solução para a profunda crise política que dividiu o país. Reina a incerteza sobre o desbloqueio da crise.

Guinea-Bissau und der Premier Minister (DW/B. Darame)

Presidente da Guiné-Bissau, José Mário Vaz (dir) e primeiro-ministro Aristides Gomes

A crise guineense é caraterizada pela incerteza e profundas divergências entre os atores políticos. O país está sem aulas nas escolas públicas desde setembro, o Ministério do Interior está sem o titular da pasta, o recenseamento eleitoral foi suspenso e as eleições legislativas ainda sem data marcada para a sua realização. Há mais de duas semanas que grupos de estudantes das escolas públicas se barricaram-se em frente do Ministério da Educação nacional exigindo a reabertura das aulas.

Nesta segunda-feira (10.12.) esteve agendada a assinatura de um memorando de entendimento entre o Governo e os três sindicatos dos professores com vista a pôr termo à paralisação nas escolas do Estado, o que não aconteceu porque o sindicato alegou que uma das sedes foi assaltada por desconhecidos. Para o presidente da Rede Nacional das Associações Juvenis (RENAJ), Guerri Gomes Lopes a situação não é só muito lamentável como também complicada.

Sindicado deve ceder um pouco

"O Governo é responsável e tem que resolver este problema, contudo, os sindicatos devem ponderar, fazer o máximo para compreender a conjuntura. A dívida é enorme porque os professores foram sempre marginalizados, mas estamos numa situação muito complicada... vamos para eleições e temos um Governo (de consenso). Houve já uma proposta por parte do Governo, bem como sua aceitação pelos sindicatos, restava apenas a assinatura deste pacto hoje (10.12.), mas infelizmente não aconteceu com o justificativo de que a sede do sindicato foi assaltada”, disse à DW África o líder juvenil.

De acordo com Guerri, o facto de a sede ter sido assaltada não justificava a ausência do sindicato na assinatura do acordo que visa acabar com a greve nas escolas do Estado, tendo afirmado que "exigimos do Governo que faça um esforço e agora também exigimos aos sindicatos que façam ainda mais”.

Studenten Demonstration in Bissao (Marcelo N'canha)

Estudantes impedidos de protestar contra a crise

Para o analista político, Dautarin da Costa, o problema da Educação na Guiné-Bissau tem a ver com a politização do setor que afeta todos as áreas de atividade.

Educação novo campo de batalha política

"Também a Educação agora é arena de disputa política e não propriamente uma arena que visa a qualidade e a emancipação dos jovens pela via da educação. O que está a acontecer aqui é que na verdade estão a brincar com o fogo e não só amputar o nosso futuro como também estamos a semear situações de confusão social para os quais não teremos capacidade de resposta institucional se continuarmos neste registo” considera o também sociólogo guineense.

Da educação para a política o país caminha de mal a pior. O analista, não tem dúvidas que existem segmentos políticos que não querem a realização de eleições e que estão a instrumentalizar o aparelho judiciário no sentido de impedir o pleito eleitoral. Dautarin refere-se ao Ministério Público que suspendeu há uma semana o recenseamento eleitoral por um período indeterminado. 

"O que estamos a ver é provavelmente uma nova forma de golpe de Estado. Porque se instrumentalizamos as instituições do Estado no sentido de impedir aquilo que deve ser a obrigação do Estado, que é realização de eleições, estamos a assistir uma amputação da democracia. E quando fazemos isso, quer dizer, que estamos a interromper a normalidade das instituições que se enquadra perfeitamente na definição de um golpe de Estado”, declara Dautarin da Costa.

Guinea-Bissau - Minister für territoriale Verwaltung von Guinea-Bissau (DW/B. Darame)

Responsáveis pela organização das eleições legislativas

CNE preocupada com suspensão de recenseamento

A Comissão Nacional de Eleições  manifestou esta segunda-feira (10.12.) preocupação com a decisão do Ministério Público de suspender o recenseamento de eleitores no país e advertiu que as consequências podem pôr em causa o próprio processo eleitoral. No comunicado, a CNE sublinha que o "sucesso de uma eleição depende do seu caráter legítimo que se consubstancia no estrito cumprimento dos procedimentos legais” e que o recenseamento eleitoral está regulado, incluindo as matérias relativas ao contencioso e infrações.

À DW África, Dautarin da Costa alega que neste momento, se assiste a uma tentativa de subversão nas instituições no sentido de impedir que as pessoas votem e que os precedentes democráticos até então criados possam ter continuidade, ponto em causa a existência do Estado.

Também, o líder juvenil, Guerri Gomes descreve um cenário preocupante em que não se sabe para onde caminha o país e pede que a comunidade internacional dê uma atenção especial à situação de desespero que se vive na Guiné-Bissau.

"O país está numa situação de crise em que ninguém sabe para onde vamos. Os sonhos dos cidadãos estão cada vez mais frustrados. Com a suspensão do processo de recenseamento estamos agora a viver uma situação muito preocupante. Por isso, apelamos à comunidade internacional que dedique uma atenção especial a este assunto. Não podemos ir para as eleições com posições extremadas”, disse o líder da RENAJ.

Funcionários públicos sem salários para natal  

Ouvir o áudio 03:05
Ao vivo agora
03:05 min

Guiné-Bissau: Atores políticos estão a brincar com o desespero do povo

Entretanto, a União Nacional dos Trabalhadores da Guiné-Bissau UNTG, que reuniu a sua direção na tarde desta segunda-feira, acusou o Governo de esbanjar os poucos recursos financeiros do país em viagens enquanto os funcionários correm o risco de não receber os seus salários nesta quadra festiva. Júlio Mendonça, secretário-geral da UNTG disse à DW África que se os salários não forem pagos aos trabalhadores do Estado nos próximos dez dias, o país ficará totalmente paralisado com greves e protestos de rua.

"Não é justo o Governo não dignou a pagar os salários, o que é lamentável já que estamos na quadra festiva. Os trabalhadores também têm o direito de pelo menos manifestar com os familiares aquilo que ganham, que não é grande coisa, mas já dá para ajudar em casa. Essa situação só traz constrangimentos enormes para os servidores públicos”, disse Júlio Mendonça ao acrescentar  que o executivo tem gasto milhões de francos cfa em viagens.

Recorde-se que, as eleições legislativas na Guiné-Bissau estavam inicialmente marcadas para dia 18 de novembro, mas dificuldades na preparação do processo, nomeadamente atrasos no recenseamento eleitoral, levaram ao adiamento do escrutínio, ainda sem data definida.

Leia mais

Áudios e vídeos relacionados