Depois do funeral de Savimbi: E o que dizem as famílias perseguidas pelo fundador da UNITA? | NOTÍCIAS | DW | 13.06.2019
  1. Inhalt
  2. Navigation
  3. Weitere Inhalte
  4. Metanavigation
  5. Suche
  6. Choose from 30 Languages

NOTÍCIAS

Depois do funeral de Savimbi: E o que dizem as famílias perseguidas pelo fundador da UNITA?

Os familiares de Tito Tchingunji e Adolfo Sangumba, ouvidos pela DW África, exigem também um esclarecimento sobre as razões que levaram à morte, nas décadas de 80 e 90, daqueles membros da organização.

Parentes de antigos dirigentes da UNITA, mortos alegadamente por ordens de Jonas Savimbi, líder fundador do partido, reivindicam a entrega dos seus restos mortais.

As reclamações surgem dias depois da realização do funeral do antigo presidente e fundador do galo negro, e num período que Isaías Samakuva, presidente da UNITA anuncia a vontade de se resgatar os corpos de outros responsáveis abatidos durante o conflito armado em Angola.

Os familiares de Tito Tchingunji e Adolfo Sangumba, ouvidos pela DW África, exigem também um esclarecimento sobre as razões que levaram à morte daqueles membros da organização.

Angola Dinho Chingunji | Privatarchiv (Privat)

Dinho (esq.) e Tito Chingunji

O maior partido da oposição em Angola, a UNITA, realizou no passado 1 de junho, o funeral do seu líder fundador Jonas Malheiro Savimbi, morto em combate a 22 de fevereiro de 2002.

Restos mortais de outros dirigentes

Depois de cumprir o programa de inumação, a direção da UNITA quer agora resgatar os restos mortais de outros dirigentes mortos em 1992, após a divulgação dos resultados das primeiras eleições gerais no país.

Nomes como o do então vice-presidente e do secretário-geral do Galo Negro, Jeremias Chitunda e Alicerces Mango, respetivamente, bem como o de Elias Salupeto Pena, sobrinho de Savimbi, estão na lista das ossadas que a direção de Isaías Samakuva quer recuperar nos próximos tempos.

Entretanto, parentes de outros dirigentes e militantes da UNITA, mortos em circunstâncias ainda desconhecidas, alegadamente sob ordens de Jonas Savimbi, também questionam se o partido vai dar a oportunidade de realizar uma cerimónia fúnebre condigna.

Pedido de desculpa

Em declarações à DW África, o irmão de Jorge Ornelas Isaac Sangumba, ex-quadro da UNITA e responsável pela campanha de aceitação do partido na Organização da Unidade Africana (OUA), atual União Africa (UA), e o sobrinho de Pedro Ngueve Jonatão Chingunji "Tito", antigo secretário de Relações Exteriores da UNITA, e representante do Galo Negro em Washington, (este último quase a família toda foi assassinada), exigem explicações e pedido de desculpas.

Angola Dinho Chingunji | Privatarchiv (Privat)

Da esquerda para direita: Dinho Chingunji, Jardo Muekalia e Tito Chingunji

As mortes destas figuras é ainda um "fardo” pesado nas costas da segunda maior força política em Angola. O silêncio da direção é o que mais preocupa os familiares das chamadas "vítimas” de Savimbi, como explica Adolfo Sangumba, irmão de Jorge Sangumba, que  desconhece as motivações do assassinato.

 "O que precisamos é saber, a verdadeira história do caso. Queremos essa explicação a partir dos dirigentes da UNITA. É tudo que a família quer.”

Por seu turno, o ex-ministro da Hotelaria e Turismo de Angola, Dinho Chingunji, um dos sobreviventes da família Chingunji, considera "doloroso” o fato de o partido que militou pretender realizar funerais de dirigentes abatidos pelas forças governamentais sem resolver os casos internos que deixam ainda a UNITA "manchada” de sangue.

 "O Savimbi, que eles dizem que merecia um funeral digno, é alguém que não dava aos parentes das pessoas que ele eliminava, o prazer de realizar um funeral digno”, afirmou Dinho Chingunji.

Falta diálogo entre as famílias e a UNITA

As famílias já questionaram a UNITA sobre o caso, mas não há até ao momento uma resposta satisfatória segundo os parentes das vítimas que falaram à Deutsche Welle.

Angola Dinho Chingunji | Privatarchiv (Privat)

Tito e Helena Chingunji na Jamba (base da UNITA) década de 80

Dinho Chingunji afirma que algumas pessoas que participaram na morte dos seus familiares ainda estão em vida, e que as mesmas sabem onde enterraram os corpos.

 "Na UNITA ainda há muitos elementos que participaram diretamente na morte dos nossos familiares. Esses indivíduos conhecem onde depositaram os corpos. É uma questão deles indicarem, porque não precisamos que preparem logísticas tal como o Governo fez. Só queremos a indicação que é aí. Temos peritos que podem nos ajudar na questão dos testes do ADN, para depois fazermos um funeral digno. O nosso até nem vai se tornar num ato político como se fez com o do Savimbi”, frisou o irmão de Tito Chingunji.

No dia 30 de abril deste ano, a família Sangumba reuniu com o presidente da UNITA, Isaías Samakuva. De acordo com Adolfo Sangumba,  Samakuva prometeu dar resposta aos parentes depois do programa de inumação de Jonas Savimbi.

 "O presidente da UNITA nos disse que iria reunir com a direção para que abordassem o caso. E é isso que gostaríamos, que eles chegassem a um consenso, que chamassem as famílias para os devidos esclarecimentos, e que tornassem essa história muito clara. Foi no dia 4 de abril deste ano. Estamos a espera porque ele prometeu que depois da cerimónia do Lopitanga nos daria uma resposta. Continuamos a espera da resposta do senhor Samakuva”.

"Passivo” merecerá discussão interna

Ouvir o áudio 03:21

Depois do funeral de Savimbi: E o que dizem as famílias perseguidas pelo fundador da UNITA?

Falando sobre o assunto à DW, o porta-voz da UNITA, Alcides Sakala, disse que o caso é um "passivo” que deverá ser abordado internamente. Entretanto, o dirigente do partido do Galo Negro garante também que a questão das execuções sumárias que se registaram no seio dos "maninhos", está enquadrada no mesmo programa que visa resgatar os restos mortais dos dirigentes mortos nos anos 90.

 "Há um passivo que o partido assumiu naturalmente, que precisa ser abordado no plano interno. Tudo isso faz parte deste processo que procura encerrar a página do passado para começarmos a olhar para o futuro.”

Questionado sobre o diálogo com as famílias das vítimas, Sakala disse que poderá acontecer a qualquer momento.

 "Penso que a um nível apropriado, terá que ser feito. É só uma questão de tempo. Terá que ser feito para que se encerre este capitulo”, sublinhou o político.

.

 

Leia mais

Áudios e vídeos relacionados