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Ex-guerrilheiras da RENAMO reclamam apoios ao governo

Arcénio Sebastião
5 de outubro de 2022

Antigas combatentes da RENAMO estão insatisfeitas com o incumprimento das promessas feitas pelo governo moçambicano e parceiros no âmbito do DDR, o processo de desarmamento, desmobilização e reintegração.

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Foto: DW/M. Mueia

"Quando fomos desmobilizadas, prometeram-nos subsídios durante um ano e iam iniciar uma pensão automática, mas até agora não está a acontecer", queixa-se uma antiga combatente.

Um grupo de ex-combatentes manifestou o seu desagrado na Beira, durante a Conferência das Mulheres sobre Paz e Segurança.

As antigas guerrilheiras fazem parte de um grupo de mais de 250 desmobilizadas, que já regressaram à vida civil há mais de dois anos.

Segundo relatam, apenas receberam a primeira tranche avaliada em dez mil meticais (cerca de 158 euros), material de construção e alguns utensílios básicos, no dia em que saíram das bases para seguir a vida civil. Uma vida sem armas e com projetos de rentabilidade, previstos no fundo doado pelos parceiros internacionais enquadrados no pacote do DDR.

Futuro sem respostas

Antonieta Gonzaga, por exemplo, submeteu um projeto, mas até hoje não teve resposta. Tinha esperança de ver os filhos a estudar, com base nas bolsas financiadas pelo DDR.

"Prometeram-nos projetos e aqueles que tem filhos, iriam receber bolsas de estudo, mas não há nenhum projeto que eu tenha visto aqui na cidade", conta.

Secretário-geral da RENAMO diz que DDR está no bom caminho

O processo de pacificação de Moçambique conheceu um novo rumo em junho de 2020. Até ao momento, 70% dos mais de cinco mil combatentes já foram desmobilizados e seguem já a vida civil. Mas nem todas estão satisfeitas. Em nome de várias mulheres, Virgínia Tauzene relata que a falta de apoio afeta tanto as mulheres como os homens.

"O primeiro grupo já está a fazer dois anos, há outros grupos que estão a fazer um ano e alguns meses", explica. A ex-combatente afirma ainda que os "homens da RENAMO" que estão a ser "reintegrados e desmobilizados" não estão a receber nada após o término do subsídio.

Virgínia Tauzene lembra que, durante o processo militar, foi-lhe garantida que após o fim dos subsídios, receberiam apoios para projetos, ajuda que está por chegar. "Esperamos até hoje. Eu, por exemplo, estou a completar um ano e seis meses depois da desmobilização sem nada", diz.

Mulheres e homens sem apoios

Segundo a ex-combatente, alguns homens desmobilizados são líderes de famílias e tiveram de vender uma parte dos seus bens para pagar a renda de casa, na expectativa de compensar com valores a receber nos meses subsequentes.

Ex-guerrilheiras da RENAMO reclamam apoios
Ex-guerrilheiras da RENAMO reclamam apoios Foto: DW/Marcelino Mueia

"Os bens que eles receberam do DDR no campo, acabaram por vender, porque não há como, não tinham um lugar para viver, casa de aluguer sem dinheiro", explica.

Virgínia Tauzene deixa ainda no ar que os homens que estão a deixar a vida militar são deixados ao abandono a nível de apoios.

"Sem dinheiro, sem alojamento, como é que vai viver, que vida vai levar? És visto como ninguém, mesmo os homens que estão a sair das bases não estão a ser respeitados, porque não têm nada", relata.

Mulheres continuam a ser excluídas

Quem ouviu de perto as reclamações das mulheres que estão de costas voltadas com o Executivo moçambicano foi a embaixadora da Suécia, Mette Sunnergren, que considera que a exclusão das mulheres no processo de DDR pode comprometer a ambição da paz douradora no país.

A diplomata falou da necessidade de se encerrar as últimas três bases da RENAMO e da igualdade de género essencial para o alcance de todos os objetivos do Governo, como paz, segurança e desenvolvimento sustentável.

"Estamos cientes de que não é possível alcançar a paz duradoura enquanto as mulheres, que são a maioria, forem excluídas no processoʺ, destaca a diplomata sueca.

No mês de agosto, durante o encerramento da antiga base da RENAMO em Montepuez, província de Cabo Delgado, o enviado especial do secretário-geral da ONU, Mirko Manzoni, revelou que o processo de DDR já havia atingido cerca de 77% dos beneficiários. No entanto, nem todos os referidos beneficiários estão satisfeitos.

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