Coronavírus: Ajuda para as economias de África tardará a chegar | NOTÍCIAS | DW | 26.03.2020
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Coronavírus: Ajuda para as economias de África tardará a chegar

Por causa da pandemia, o mundo prepara-se para uma recessão económica de proporções épicas. Também a África procura diminuir o impacto. Mas muito dependerá da vontade internacional de ajudar o continente mais vulnerável.

O primeiro-ministro etíope Abiy Ahmed exortou, esta semana, os líderes do grupo das 20 nações mais desenvolvidas (G20) a ajudar a África a enfrentar a crise do coronavírus. Abiz propõe um alívio da dívida e 105 mil milhões de euros em financiamento de emergência. Uma declaração emitida em Adis Abeba diz que a pandemia "representa uma ameaça existencial para as economias dos países africanos."

O velho ditado "quando o Ocidente espirra, a África apanha uma pneumonia" ganhou novo significado com a rápida propagação do novo coronavírus no continente. Para já não é possível avaliar a dimensão exata das consequências que a pandemia vai ter na economia africana. "Há uma série de variáveis muito importantes sobre as quais não temos controle", disse à DW Jakkie Cilliers, do think-tank sul-africano Institute for Security Studies (ISS). Para uma avaliação mais precisa é necessário aguardar o "impacto da aproximação do inverno e das diferentes condições climáticas" no continente, disse.

A dependência externa das economias africanas

Não se sabe ainda como a crise vai afetar a população mais vulnerável, como os moradores dos musseques e, nalguns países, o elevado número de pessoas que sofrem de SIDA e tuberculose. Tanto mais num continente onde grande parte do emprego ocorre no setor informal. O que pode ser dito com certeza absoluta, de acordo com Cilliers, "é que a África vai ser profundamente atingida pelas consequências da quebra do crescimento global", já prevista.Muitos países já hoje sofrem por causa da suspensão quase total do comércio com a China. Além disso, a economia do continente é muito dependente de investimentos diretos estrangeiros e da exportações de matérias primas.

(Getty Images/AFP/P. Utomi Ekpei)

A Nigéria e Angola dependem das receitas de exportaç]ao de petróleo para sobreviver

A Comissão Económica das Nações Unidas para África (ECA) alerta que a crise pode prejudicar seriamente o crescimento já estagnado da África. O Produto Interno Bruto (PIB) do continente poderá cair para metade, com um recuo do crescimento de 3,2% para cerca de 2%. As nações exportadoras de petróleo, como Angola e a Nigéria, arriscam-se a perder até 65 mil milhões de dólares em receitas, se os preços do crude continuarem a cair, o que parece provável.

Apelo à solidariedade vai cair em ouvidos moucos?

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, apelou à solidariedade mundial, dizendo que "a recuperação não se deve fazer à custa dos mais pobres - nem não podemos criar uma nova legião de pobres". Mas Jakkie Cilliers duvida que a ajuda ao continente africano constitua uma prioridade para os países preocupados com a sua própria situação. "A dimensão do desafio e da ajuda de que a África precisaria é de tal magnitude, que há uma quantidade limitada de apoio que a comunidade internacional seria capaz de fornecer com rapidez suficiente", disse o analista.

Em entrevista exclusiva à DW, Carlos Lopes, Alto Representante da União Africana na Europa, sublinhou que a economia em África já estava em dificuldades "antes do início da pandemia". Agora, a situação está prestes a piorar. "Devido ao impacto do coronavírus, nós temos não só uma diminuição considerável de atividade de tudo o que é logística, transportes, uma diminuição drástica da produção manufatureira e do comércio a nível mundial, mas também do turismo, que cria muitos empregos, embora não seja ainda uma área com grande importância no PIB de muitos países africanos, em alguns é fundamental", disse Lopes. Estas circunstâncias permitem prever uma quebra da procura interna, "que tem sido responsável por dois terços do crescimento de África", acrescentou.

Perdão da dívida poderia ser uma solução

 (AP/DW)

Os analistas temem que os países ricos em crise não considerem África uma prioridade

Um desenvolvimento previsível é a perda de mais empregos e rendimentos. Considerando o pesado fardo da dívida de muitas nações africanas, a sua capacidade de responder a um choque económico de grandes dimensões quando, ao mesmo tempo, têm que amortizar dívidas, é praticamente inexistente. O primeiro-ministro etíope Abiy propõe, portanto, que sejam perdoadas as dívidas "aos países de baixo rendimento". Na passada segunda-feira (23/03), os ministros das finanças africanos já tinham pedido à comunidade internacional 100 mil milhões de dólares em "estímulos económicos de emergência".

Entretanto, a África deve agir imediatamente para evitar o pior, diz o representante da UA, Carlos Lopes. "Todos os países com meios estão a pedir aos seus bancos centrais para injetar programas de estímulo à economia. Não é, de facto, algo que a África esteja normalmente autorizada a fazer pelo FMI [Fundo Monetário Internacional], mas neste contexto pode fazê-lo", salientou. Muito dificilmente, responde Jakkie Cilliers: "A nossa capacidade é bastante limitada. Muitos países africanos já se encontram em dificuldades económicas. Não temos recursos para empreender os programas de estímulo que vemos a acontecer noutras partes do mundo".

 

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