Ciclone Idai: Daviz Simango, o homem do terreno e de pouca mediatização | Moçambique | DW | 20.03.2019
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Moçambique

Ciclone Idai: Daviz Simango, o homem do terreno e de pouca mediatização

"Neste momento que estou a falar consigo estou a trabalhar no campo", assegura o edil da Beira. Daviz Simango relata as dificuldades em apoiar os citadinos e diz que está na luta para continuar a obter mais apoios.

Daviz Simango, edil do Município da Beira, Moçambique

Daviz Simango, edil do Município da Beira, Moçambique

Depois de alguns dias sem telecomunicações por causa do ciclone Idai, que atingiu o centro de Moçambique na quinta-feira (14.03.), finalmente já se pode falar por telefone para a região. Os moçambicanos celebram o fim do silêncio porque podem finalmente saber melhor do ponto de situação e sobre os seus familiares nas áreas afetadas. Para a DW África isso facilitou a conversa com o presidente do município mais afetado, a Beira, Daviz Simango.  

DW África: Pode nos descrever a situação na cidade da Beira depois do ciclone Idai?

Daviz Simango (DS): O ciclone foi com ventos extremamente fortes que destruíram a nossa cidade. Tivemos infraestruturas públicas, privadas, escolas, hospitais e casas destruídas. O setor económico ficou bastante afetado, os armazéns, lojas e barracas ficaram destruídos. Ficamos sem comunicação e estamos com carências muito fortes  de água e agora estamos a enfrentar a especulação de preços por parte de alguns vendedores. Portanto, a Beira está às escuras, virou uma cidade fantasma durante a noite, é extremamente penoso. Faltam alimentos para a população e estamos a fazer tudo por tudo para abrir as estradas porque as árvores caíram bloqueando quase todas as estradas da cidade da Beira, os postes de energia caíram, portanto, é um desafio enorme que temos para recuperar e tentarmos voltar à normalidade.

DW África: E quais são as necessidades da população agora?

Mosambik Beira Zyklon Sturm Idai

A maior parte da cidade da Beira ficou destruída

DS: Passa necessariamente por alimentos e coberturas, as populações estão sem teto e precisam de chapas. Precisam de água, de roupas, porque muitas populações têm as suas roupas molhadas ou desapareceram, esses são os grandes desafios. Depois temos muita população, sobretudo idosos e crianças órfãs que ficaram sem casas, não têm onde dormir.

DW África: Desde que o ciclone atingiu Beira, o senhor como edil da cidade encetou alguma ação de apoio aos citadinos e de recuperação de infraestruturas básicas, por exemplo?

DS: Sim, é preciso recuperar infraestruturas básicas, mas isso é um ato extraordinário, é preciso que haja recursos e naturalmente com o orçamento do município é praticamente impossível. Só para ter uma ideia, o próprio edifício do Conselho Municipal sofreu [com o ciclone], as infraestruturas públicas que construímos e a casa mortuária sofreram, portanto, temos de começar do zero.

DW África: E que tipo de apoio o seu município está a prestar?

DS: A situação é crítica e caótica, é preciso que, de facto, o município tenha apoios extraordinários para poder fazer face a esta situação. Neste momento que estou a falar consigo estou a trabalhar no campo, a nossa vida é estar [junto] da população e tentar resolver esses problemas todos.

DW África: Houve gente que esperou de si uma palavra ou um ponto de situação nos últimos dias. Era possível isso ter acontecido nas condições em que se encontravam?

DS: Nós estamos em constante contacto com a população e demos já todas as instruções que são necessárias para garantir a segurança das pessoas.

DW África: Há várias campanhas de mobilização de ajuda em curso no país. O seu município está conectado com essas campanhas?

DS: Vamos  lançar publicações nos próximos dias, amanhã vou reunir-me com embaixadores exatamente para pedirmos  apoio para a nossa cidade.

Ouvir o áudio 06:24

Ciclone Idai: Daviz Simango, o homem do terreno e de pouca mediatização

DW África: E em relação às campanhas internas, feitas pelos cidadãos, vocês estão em coordenação com elas?

DS: O setor privado na Beira está a apoiar-nos diretamente, tive contacto com o representante da embaixada da Índia na Beira, já chegaram três navios de guerra da índia com produtos, medicamentos, água e cinco enfermeiras e duzentas pessoas a bordo juntamente para darem assistência às populações.

DW África: A eclosão de doenças como a cólera é esperada em breve. Os hospitais estão, preparados para fazer face a isso?

DS: Os hospitais não têm energia. Muitas das análises de controle e exames médicos que requerem corrente elétrica não estão a ser feitos agora porque o Hospital Central da Beira, que é o hospital mãe e regional, neste momento não tem energia e por isso não pode fazer diagnósticos. Há muitos doentes que estão a morrer e há doentes que estão a voltar para a casa exatamente porque não se consegue fazer o diagnóstico por falta de energia.

DW África: Depois deste ciclone acredita que a cidade da Beira voltará a ser como antes?

DS: A cidade está destruída, é preciso começar do zero e nós temos de nos preparar para isso. Já aconteceu em muitos países depois de guerras mundiais que se reergueram das cinzas e a Beira tem de se reerguer das cinzas porque a cidade está mesmo destruída.

DW África: Um estudo feito há poucos anos prevê que a cidade da Beira vai desaparecer até 2030. Esta catástrofe terá sido um primeiro golpe forte nessa direção?

DS: Isto foi um ciclone, não se previa um ciclone deste género. Estamos a falar de ventos na ordem dos 240 km/h. Nenhuma infraestrutura resiste a uma velocidade dessas.

DW África: No contexto desta catástrofe aconteceu excecionalmente ontem (19.03.) o Conselho de Ministros na cidade da Beira. Foi convidado a participar?

DS: Não, não fui convidado a participar nessa reunião. Como pode imaginar, não sou membro do Governo e nem do Conselho de Ministros. Em condições normais se quisessem que eu participasse, poder também colaborar e informar ao Conselho de Ministros sobre a situação no terreno, deviam ter feito um convite formal para eu lá estar e isso não foi feito.

Zerstörung durch Zyklon IDAI in Mosambik

Destruição no centro da cidade da Beira

DW África: Há algum trabalho de coordenação entre o Governo central e o Conselho Municipal da Beira?

DS: Recebi uma equipa do INGC (Instituto Nacional de Gestão de Calamidades), mas não temos nenhuma informação, eu oiço dizer que a União Europeia e a Anadarko fizeram doações, mas oficialmente não temos nenhuma informação.

DW África: Não há uma conjugação de esforços?

DS: Não há conjugação de esforços.

DW África: O seu município tem estrutura para recuperar a cidade sozinho?

DS: Nenhum território ou país que passa por uma situação destas recupera sozinho, por isso não vamos falar do município que se vai recuperar sozinho. É esconder a verdade dizer que o município por si só vai sobreviver, é preciso compreender que existem os pactos e acordos internacionais de que todos os apoios vão desaguar no INGC ou no Governo central. Agora, cabe a essas instituições partilhar parte desses apoios com esta população da Beira que precisa.

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