Caminho de ferro: O ″parente pobre″ dos transportes em África? | Internacional – Alemanha, Europa, África | DW | 26.09.2019
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Internacional

Caminho de ferro: O "parente pobre" dos transportes em África?

Os acidentes com comboios são frequentes em países como a RDC, onde os problemas da rede ferroviária vão desde as linhas degradadas aos comboios obsoletos. Especialistas apontam o dedo ao Governo e doadores.

Foto de arquivo (1999): Comboio na África do Sul

Foto de arquivo (1999): Comboio na África do Sul

Na República Democrática do Congo, não é fácil ir de uma cidade para a outra. Não há muito por onde escolher no que toca aos sistemas de transporte e, para muitas pessoas, a solução é viajar clandestinamente num comboio de mercadorias.

Na manhã de quinta-feira, 13 de setembro, a viagem terminou da pior maneira para um grupo de passageiros clandestinos: o comboio descarrilou na província de Tanganyika e várias pessoas morreram. O balanço das vítimas não é totalmente claro. Primeiro, falava-se em 50 mortos. Depois, alguns meios de comunicação apontaram para 100. Agora, o Governo fala em 15 mortos e 30 feridos.

Apesar das divergências nos números, uma coisa é clara para o ministro dos Assuntos Humanitários Steve Mbikayi - a causa do acidente:"Este descarrilamento ocorreu devido ao excesso de carga", afirmou em entrevista à DW.

"Era um comboio de mercadorias, mas também transportava pessoas. Os passageiros clandestinos eram, sem dúvida, imigrantes ilegais, que por vezes combinam com alguns trabalhadores e deslocam-se desta forma", acrescentou o ministro.

Ouvir o áudio 04:10

Caminho de ferro: O "parente pobre" dos transportes em África?

Sistema obsoleto

A rede ferroviária e os comboios da República Democrática do Congo estão completamente obsoletos. Helmut Asche, professor de Estudos Africanos na Universidade de Mainz, diz que, "basicamente, é um milagre que ainda haja linhas ferroviárias em funcionamento na RDC. E é claro que também são usadas para a circulação de passageiros".

Sem outros meios de transporte, muitos congoleses acabam por recorrer aos comboios de mercadorias para se deslocarem. Para o jornalista Marcel Ngoy, é urgente o Governo tomar medidas para evitar mais acidentes, até porque, sublinha, "o próprio primeiro-ministro, Sylvestre Ilunga Ilunkamba, presidiu à Sociedade Nacional dos Caminhos de Ferro do Congo e conhece o estado dos equipamentos".

"É responsabilidade do Governo reparar as linhas antigas, remontam ao tempo colonial. Temos de ter muito cuidado com o início da época das chuvas ou os acidentes ferroviários continuarão a aumentar", alerta Ngoy.

Das ex-colónias ao desinteresse dos doadores

Em março, 34 pessoas morreram na província de Kasai, quando um comboio de mercadorias com passageiros clandestinos a bordo descarrilou numa ponte sobre o rio Luembe. O comboio tinha 52 anos e não podia transportar passageiros.

Acidentes deste tipo não são exclusivos da RDC: nos Camarões, por exemplo, muitos lembram-se do acidente ferroviário de Éséka, que matou 80 pessoas em outubro de 2016.

O problema, diz o especialista Helmut Asche, é que os caminhos de ferro foram sempre o "parente pobre" dos sistemas de transporte do continente africano. As linhas ferroviárias remontam aos tempos coloniais e nem nessa altura eram "particularmente úteis, porque foram desenhadas para trazer matérias-primas do interior das antigas colónias para os portos".

"Os sistemas ferroviários degradaram-se sobretudo no período pós-independência", acrescenta, sublinhando que "mais importante é o facto de os doadores ocidentais - começando pelo Banco Mundial - nunca quererem investir em novos sistemas ferroviários ou na manutenção dos antigos, porque, basicamente, nunca confiaram nos governos africanos para gerirem qualquer sistema de transporte público".

Tazara Railway Sambia

Comboio junto à fronteira entre a Zâmbia e o Zimbabué, numa linha ferroviária construída pela China

Caminho de ferro VS estrada

A China é o grande investidor no transporte ferroviário em África. Já no final da década de 60, início de 70, financiou a rede ferroviária da Tanzânia - que vai desde Dar es Salaam à capital da Zâmbia, Lusaka.

Os doadores ocidentais, por sua vez, apostaram na construção de estradas. E isto também impediu a construção de outras linhas ferroviárias. Um exemplo, diz Helmut Asche, é o Burkina Faso: na década de 80, o então Presidente Thomas Sankara queria aumentar a linha ferroviária que ligava Abidjan, na Costa do Marfim, a Ouagadougou, no Burkina Faso, para o Níger. E ainda hoje o projeto não se materializou, devido à resistência dos doadores ocidentais, segundo o investigador.

Entre os investimentos recentes da China contam-se a linha inaugurada em 2018 entre a capital etíope, Addis Abeba, e o Djibuti e a nova ferrovia que atravessa o Quénia, com os comboios a fazerem a ligação Mombasa-Nairobi desde 2017. Dentro de alguns anos deverão chegar a Malaba, no Uganda.

Mas estes investimentos continuam a ser apenas pontuais, diz Helmut Asche: "A RDC é um símbolo da total ausência de uma ligação terrestre leste-oeste, ou vice-versa, em África. Não se chega a lado nenhum em África - nem à RDC, no centro do continente - com qualquer meio de transporte plausível, de leste para oeste. Esses corredores existem na África Austral, mas não nesta faixa central".

"Claro que teria de haver um compromisso de investir uns milhares de milhões de dólares num projeto. Mas não vejo isso em debate, atualmente", conclui.

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