Camarões: Cinco anos de violência sem fim à vista | Internacional – Alemanha, Europa, África | DW | 01.10.2021

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Internacional

Camarões: Cinco anos de violência sem fim à vista

Agrava-se a espiral de violência separatista que começou, há cinco anos, nas regiões anglófonas dos Camarões. As Nações Unidas alertam para uma catástrofe humanitária previsível. Mas os protagonistas não cedem.

Cinco anos após o início da crise, as duas regiões camaronesas onde se fala inglês transformaram-se numa zona de guerra. As consequências são nefastas: vidas perdidas, propriedade destruída e, segundo o mais recente relatório do Gabinete das Nações Unidas para a Coordenação dos Assuntos Humanitários (OCHA), há um impacto muito negativo na educação: "Muitas escolas fecharam para evitar os ataques frequentes contra as instalações de ensino. Professores e estudantes têm sido atacados, raptados, ameaçados e mortos. Em 2021, mais de 700.000 crianças foram privadas de educação nas regiões do noroeste e sudoeste", alerta a agência da ONU.

A situação é sentida como muito desencorajadora pelo advogado Felix Agbor Nkongho, especializado em direitos humanos, que foi membro do extinto Consórcio da Sociedade Civil Anglófona dos Camarões (CACSC). A organização liderou a primeira vaga de protestos pacíficos contra a marginalização das regiões anglófonas pelo Governo federal em 2016. Mas Agbor Nkongho realça que a violência nunca fez parte da estratégia. "Ninguém tinha uma bola de cristal para ver o futuro", disse o ativista à DW. "Ninguém previu a violência".

Kamerun Präsident Paul Biya

O Presidente Paul Biya, no poder desde 1982, recusa negociar com os separatistas

No princípio era a paz

Inicialmente a ideia era encerrar o comércio e boicotar as escolas por um curto espaço de tempo para pressionar o Governo. Agbor Nkongho culpa Yaoundé de ter empolgado a situação. "Tratava-se apenas de chamar a atenção da comunidade internacional para o que estávamos a sofrer como povo", disse Nkongho. "Antes do nosso grupo ser ilegalizado, estávamos até a planear cancelar o boicote às escolas", acrescentou.

Hoje, a situação nas regiões anglófonas dos Camarões é de insegurança e incerteza. Emmanuel Ndong, chefe-adjunto da Defesa do autoproclamado Conselho de Governo de Ambazónia (AGovC), explica o que levou ao movimento separatista: "Os Camarões do Sul, a que hoje chamamos Ambazónia, tornaram-se independentes do Reino Unido na sequência da Resolução 1608 da ONU de 1 de outubro de 1961". É nesta base que o movimento exige a independência do Governo de Yaoundé, que acusa de representar apenas a maioria francófona do país.

Em vez disso, o Governo do Presidente Paul Biya declarou o 1 de outubro Dia da Unificação dos Camarões. Trata-se do "cúmulo da hipocrisia política", diz Agbor Nkongho, que qualifica a decisão de implementar um feriado nacional nesta data de "verdadeira emboscada”.

Quem sofre são os civis

Os camaroneses diretamente afetados pelo conflito não estão interessados em discutir datas e a história. "O Governo e os separatistas estão a brincar com as vidas da população que dizem proteger", disse à DW o taxista anglófono Nfor Nkfu. "Os dois lados estão a proteger apenas os seus interesses. Não estão a proteger ninguém".

Nigeria Agborkim 2018 | Flüchtlinge aus Kamerun

Cresce o número de refugiados das regiões anglófonas e a ONU adverte contra uma catástrofe humanitária

Também o professor de história Nelson Tum, diz que, tal como muitos outros, o conflito entre os separatistas e o Governo o deixou desconfiado dos dois lados.

"Dizer que me sinto protegido pelas partes no conflito seria absurdo, porque a dado momento qualquer um dos dois lados pode fazer-nos mal", disse Tum.

Paul Nilong, do autoproclamado Governo Interino de Ambazónia, que não tem reconhecimento internacional, afirma que Yaoundé procura tornar "a Ambazónia ingovernável: trata-se de destruir tudo". "O mais grave é a sabotagem económica", acrescenta o político.

Nem sempre reinou o consenso entre os separatistas sobre a estratégia a seguir, especialmente no que diz respeito aos repetidos encerramentos da vida pública, que Ndong reconhece terem prejudicado a causa. "Pensamos que pode ser contraproducente declarar um confinamento de duas semanas do território, que representa dificuldades adicionais para o nosso povo, que já é quem sofre as principais consequências desta guerra", disse.

Mas, para Nilong, a medida era necessária para enviar uma mensagem clara ao Governo central: "A intenção era mostrar a Yaoundé que não controla nada".

Indivíduos de 'má-fé'

Elvis Ngolle Ngolle, membro do partido governamental Movimento Popular Democrático dos Camarões (CPDM) e ex-ministro das Florestas e Fauna, disse à DW que os responsáveis não têm poupado esforços para solucionar a crise.

"O Governo tem boas intenções e faz muito para pôr fim ao conflito armado", realçou.

Kamerun Nationaler Dialog in Yaounde

O "diálogo nacional" convocado em Yaoundé, há dois anos, excluiu os líderes separatistas

Nelson Tum concorda que o Governo tentou restaurar a calma nas regiões anglófonas. Mas diz que os esforços foram insuficientes. "Realizou-se um grande diálogo nacional, mas aqueles que consideramos os líderes das regiões anglófonas não foram incluídos no diálogo com o Governo".

Para Ngolle Ngolle, a falta de progresso por parte do Governo deve-se à "má-fé" de alguns indivíduos que procuram "lucrar com o conflito".

"Aparentemente, há dinheiro a ser distribuído dos dois lados, e parece que há quem beneficie bastante", disse.

Apelo à comunidade internacional

A estratégia dos separatistas almeja chamar a atenção da comunidade internacional para o conflito. "Procuramos desestabilizar o Golfo da Guiné e assegurar que a exploração dos recursos nesta área seja interrompida, até que a comunidade internacional perceba que só ela pode garantir a paz e a estabilidade", disse Emmanuel Ndong, do autoproclamado Conselho de Governo de Ambazónia, à DW.

O especialista em direitos humanos Agbor Nkongho acredita que a solução final exigirá que a comunidade internacional imponha proibições de viagem e congele os bens das partes que estão a alimentar o conflito. Mas, qualquer progresso tem de começar pela honestidade, diz.

Segundo o ativista, "os amigos dos Camarões na comunidade internacional devem ser honestos com Biya e dizer-lhe que não pode ganhar esta guerra".

Mas ninguém pode ser permitido a agir com impunidade, exige. "Os atores não estatais também devem compreender que, se incitarem à violência ou cometerem crimes, serão responsabilizados", disse Nkongho.

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