APSUSM acusa Governo de mentir sobre crise na morgue
21 de janeiro de 2026
A maior morgue hospitalar de Moçambique não está paralisada por avaria, como garantiu o Município de Maputo, denuncia a Associação dos Profissionais de Saúde Unidos e Solidários de Moçambique (APSUSM). O seu líder, Anselmo Muchave, fala numa "mentira cristalina do Governo" e explica que a paralisação deve-se a um boicote organizado pelos próprios trabalhadores em protesto contra o não pagamento do décimo terceiro salário.
Em entrevista à DW, o líder da APSUSM assegura que há equipas capazes de substituir os grevistas e avisa que a paralisação pode tornar‑se total se as reivindicações continuarem ignoradas. Por agora, diz, os profissionais "apenas cruzaram os braços para mostrar indignação".
DW África: É verdade que a morgue está paralisada devido a uma avaria, como diz o Governo?
Anselmo Muchave (AM): É uma mentira absolutamente cristalina por parte do Governo, que até deveria ter vergonha de afirmar que transferiu os corpos. Como é possível dizer que os corpos foram transferidos, quando a própria comunicação social confirmou que eles continuavam lá? Portanto, trata‑se de uma mentira evidente.
E nós sabemos que este Governo não quer melhorar nem mudar nada. Se quisesse, começaria por assumir a verdade: que os profissionais de saúde estão em greve e que merecem respeito. Mas não o querem fazer. Não há outra explicação. O Governo mente ao tentar negar que a paralisação da morgue resulta da greve. Foi, sim, um ato de greve: parámos e deixámos de atender devido ao não pagamento do décimo terceiro salário.
DW África: Não estamos a falar de atos criminosos?
AM: Não, de todo. Há pessoas disponíveis para substituir quem está em greve - o próprio Governo tem meios e pessoal que pode destacar, inclusive no município. O que seria criminoso seria não existir ninguém para prestar cuidados. Se as pessoas destacadas pelo Governo também não estão a trabalhar, então há algo errado do lado do Governo, não do nosso.
DW África: Há ainda denúncias de boicotes por parte de profissionais de saúde, como a troca de resultados laboratoriais, o que pode colocar vidas em risco. Em momentos de greve, isso seriam retaliações que atingem o alvo errado. Isso não vai contra o vosso juramento e ética?
AM: Não se trata disso. O Governo é que tem de garantir meios. Se hoje o Governo não tem condições, a responsabilidade não pode recair sobre os profissionais de saúde. Jurámos salvar vidas, não jurámos viver a paracetamol, amoxicilina, metronidazol e soro. Também somos pessoas e temos necessidades.
Uma pessoa doente não pode tratar outra pessoa doente. É isso que queremos que o Governo compreenda: estamos perante profissionais sem condições psicológicas, e perante utentes igualmente sem condições. Pedimos apenas que o Governo não minta e que não procure motivos para nos incriminar.
DW África: Caso o décimo terceiro salário não seja pago na totalidade, que medidas pensam adotar que afetem diretamente as autoridades e não a população?
AM: Quanto às medidas futuras, sabendo que o Governo tem a tática de cortar salários: deu orientações a nível nacional para que diretores provinciais, chefias e responsáveis das unidades sanitárias cortem faltas e suspendam salários. Isso, sim, é um ato mais criminoso do que qualquer outro, porque tenta impedir que reivindiquemos um direito.
Assim, ordenámos que os funcionários parassem. Até agora, limitámo‑nos a cruzar os braços para mostrar indignação. Mas, dentro de dias, poderemos avançar com uma medida muito mais dura: o encerramento total. Mesmo que diretores ou o próprio Ministério tentem intervir, não terão acesso às nossas unidades sanitárias. Neste momento, estamos apenas a cruzar os braços para mostrar a nossa posição.