Angola: ″Operação Resgate″ gera onda de contestação nas redes sociais | Angola | DW | 03.11.2018
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Angola

Angola: "Operação Resgate" gera onda de contestação nas redes sociais

Cidadãos, entre figuras públicas e anónimos, reprovam a medida que visa combater a venda desordenada na cidades angolanas. Feminista, ativistas e juristas mostram-se indignados. Marcha em protesto prevista para dezembro.

Luanda Leben in Sao Paulo Verkäuferinnen (DW/C. Vieira Teixeira)

Zungueiras em Luanda

A "Operação Resgate" pretende acabar com a venda ambulante de bens e serviços nas cidades angolanas, foi anunciada pelo Governo angolano no passado dia 24 de outubro.

Em reação à medida, o angolano Damião Cosme Spencer postou fotos na sua conta do Facebook.  

“Triste! Será que estamos a combater o povo?”, pergunta o internauta.

Já Mandume de Carvalho usou o Twitter para criticar a "Operação Resgate" e exigir organização a parte do Governo angolano:

Por seu torno, Nelson Domingos escreve na sua conta no Facebook onde acredita que deveria começar o combate à venda desordenada nas cidades: 

"O 'resgate' do Estado deve ser feito contra aqueles que se enriqueceram ilicitamente com o dinheiro público ou contra o povo empobrecido que apenas procura sobreviver?" critica

Figuras conhecidas também contestam

Não são apenas os chamados cidadãos anónimos que se manifestaram contra a medida nas redes sociais. José Patrocínio, coordenador da ONG OMUNGA, com sede na província angolana de Benguela, também fez a sua crítica.

Rui Ferreira (DW/Sul d'Angola)

José Patrocínio

"Vamos iniciar o "resgate" nas instituições públicas, como a polícia", critica no Facebook.

Numa outra publicação na mesma rede social, escreve em defesa das comerciantes ambulantes, conhecidas como zungueiras:

"Se as zungueiras esão desorganizadas, é porque o Estado está desorganizado," afirma.

Eva Rap Diva, uma das rappers femininas mais respeitadas em Angola, também não ficou indiferente. Sua publicação no Facebook repercutiu, tendo sido compartilhada mais de uma centena de vezes.

"Querem acabar com a venda ambulante, querem acabar com as zungueiras e zungueiros na rua, querem acabar com o mercado informal. Ok! Mas criem políticas sérias, arranjem alternativas e soluções, porque a zunga não foi criada ao acaso por pessoas que decidiram ir vender em locais impróprios com o objetivo de infringir a lei", escreve.

José Gomes Hata, conhecido ativista do caso "15+2", mostrou-se também incrédulo com o que Governo chama de "resgate da autoridade do Estado":

"Sinceramente, nunca me passou pela cabeça que o Estado angolano assumisse publicamente que perdeu autoridade, mas ainda assim continua a governar," critica tambüem no Facebook.

Luanda Leben in Sao Paulo Verkäuferinnen (DW/C. Vieira Teixeira)

Comércio informal em Luanda

"Operação resgate: problema ou solução?"

Segundo Orlando Bernardo, diretor do Gabinete de Comunicação Institucional e Imprensa do Comando Geral da Polícia, a "Operação Resgate", visa combater, entre outros, a venda "desordenada", fora dos mercados, de bens e serviços nas cidades angolanas, que "atrapalha, e de que maneira, a circulação automóvel ao nível das cidades”. Vai também fiscalizar a venda de telemóveis, cartões de recargas telefónicas, venda de acessórios de viaturas e o garimpo da água em locais impróprios.

Na sua conta do Facebook, o jovem jurista Serrote Simão, se propõe a responder à pergunta: "Resgate é um problema ou uma solução?":

"O Estado deveria facilitar a regulamentação das zungueiras assim como aqueles estrangeiros que exercem actividades económicas no nosso país de forma ilegal de modo a aumentar as receitas do Estado por via de impostos e das taxas", defende ao final de um longo texto.

Angola Alexandre Solombe (DW/Nelson Sul D'Angola)

Alexandre Solombe

Para responder também a essa questão, a DW África ouviu o jornalista e analista Alexandre Neto Solombe.

"Olha, o que está acontecer é que 'a corda da diversão' já não dá mais espaço de manobra, para quem quis passar a imagem daquilo que não é realmente: democracia," explica Solombe.

Solombe acrescenta: "Aos poucos, o circo do Presidente fecha-se e ele vai estando menos disponível, optando por ditar as regras a partir da Sodoma dele".

"Já imaginou o estado de tensão que está a gerar o anúncio de tal operação e os perigos que daí decorrem?" questiona o também economista.

Alexandre Neto Solombe desconfia que "vão revistar, vão invadir quintais. Sabe, estas ações fazem-me recordar as ações populares de assalto que eram realizadas no âmbito do poder popular".

Mas em declarações à imprensa, a Polícia angolana garantiu que não haverá excessos na "Operação Resgate".

Assistir ao vídeo 02:43

A vida das vendedoras de rua em Moçambique

Macha contra o desemprego à vista

O anuncio da "Operação Resgate" já provocou o encerramento de cantinas e outros postos de trabalho, num mercado já precário devido à crise económica e financeira resultante da baixa do preço do petróleo no mercado internacional que assola o país desde 2015.

Segundo um estudo realizado em 2016 pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), 20% da população em idade ativa está desempregada. Os jovens são os mais afetados - 46% não tem emprego.

Durante a campanha eleitoral, em 2017, O MPLA, partido no poder, através do seu candidato, João Lourenço, atual Presidente da República, prometeu a criação de cerca de 500 mil postos de trabalho. A não concretização da metade da promessa, até, pelo menos, julho de 2018, levou um grupo de jovens a realizar uma marcha nacional. Na altura, centenas de jovens gritaram nas ruas de Luanda: "O Desemprego não é escolha, é má Governação".

O mesmo grupo convocou para 8 de dezembro próximo, uma marcha nacional contra o desemprego. A DW África conversou com o ativista Arante Kivuvu, um dos organizadores da manifestação:

"O objetivo é pressionar o Governo com vista à criação de políticas urgentes para que a juventude possa ter emprego, escasseado pela crise económica. Não vemos vontade política por parte do Governo para resolver o problema. A marcha será na metade do país. Já temos algumas províncias confirmadas como Benguela, Zaire, Malanje e Uige," garante. 

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