Angola: Ex-líder da IURD negou obrigatoriedade da vasectomia | Angola | DW | 19.11.2021

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Angola

Angola: Ex-líder da IURD negou obrigatoriedade da vasectomia

O ex-líder espiritual da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) de Angola, negou hoje em tribunal a obrigatoriedade da vasectomia, salientando não ter registo do facto por parte de algum pastor no seu mandato.

Honorilton Gonçalves é acusado, com mais quatro coarguidos, dos crimes de associação criminosa, branqueamento de capitais, burla por defraudação e violência doméstica.

A segunda sessão de julgamento de bispos e pastores da IURD Angola, nesta sexta-feira (19.11), ficou marcada pela leitura da acusação pelo Ministério Público e pelo início da audição do arguido Honorilton Gonçalves, que terminou na instância do tribunal, prosseguindo em 25 de novembro.

Na leitura da acusação, a procuradora Ludmila da Purificação disse que os arguidos "fazem parte de uma organização criminosa de cariz internacional, que se dedica fundamentalmente à arrecadação fraudulenta dos dinheiros dos fiéis da igreja em sua benesse e retirada clandestina para a República federativa do Brasil e não só".

De acordo com a acusação, os arguidos ordenavam aos pastores de todo o país que influenciassem os fiéis a contribuírem e doarem o máximo de valores monetários e bens, transmitindo a ideia de que Jesus Cristo apenas olha para os que contribuem para a igreja. 

Ludmila da Purificação frisou ainda, na leitura da acusação, que aquela ideia era fortemente difundida pela TV Record, "que é um elemento fundamental da organização".

"Tanto é que o coarguido Fernando Teixeira, sendo pastor veio a Angola para exercer a função de diretor executivo do canal televisivo", acrescentou.

Sitz der Sender Record TV Afrika in Luanda

Edíficio da TV Record em Luanda, canal agora encerrado em Angola

As supostas práticas

Além de Honorilton Gonçalves, são coarguidos no processo o bispo angolano António Ferraz, o pastor brasileiro Fernando Teixeira e o angolano Belo Kifua, bem como o pastor brasileiro Rodrigo do Carmo, ausente do país, expulso pelas autoridades angolanas.

A acusação refere ainda que, explorando a fé dos fiéis, através da "fogueira santa", todos os valores arrecadados nos templos de todo o país eram transferidos para a sede em Luanda, na central do Maculusso, e no escritório da igreja no Condomínio Laranjeiras, onde eram convertidos em divisas e na sequência expatriados sorrateiramente para o Brasil.

"Era prática corrente a conversão dos kwanzas arrecadados em divisas geralmente no mercado informal, no Mártires de Kifangondo", sublinhou a procuradora.

Honorilton Gonçalves negou obrigatoridade vasectomia

Na contestação, a defesa pediu em vários momentos o arquivamento dos autos, bem como a absolvição dos arguidos, expressando também "um manifesto desnorte" do Ministério Público. 

A acusação sublinha que desde a chegada da IURD em Angola, em 1992, a liderança da igreja procurou inicialmente influenciar os pastores angolanos a submeterem-se à cirurgia de vasectomia, argumentando que a procriação impedia o exercício pleno da atividade pastoral, por ser exercida em diversos lugares.

Os visados alegadamente eram coagidos a aceitar, através de pressões psicológicas, despromoção, transferência compulsiva para províncias do interior e para países sem condições condignas de sobrevivência, incluindo em conflito armado, redução de salário e impedimento para contrair matrimónio na igreja ou expulsão.

Angola Anwalt David Mendes

David Mendes, advogado

Na fase de audição, Honorilton Gonçalves negou que a vasectomia fosse obrigatória e que durante a vigência do seu mandato, de 22 de julho de 2019 até março deste ano, quando foi destituído do cargo, por conta do conflito interno, nunca registou a informação da intenção de qualquer pastor em realizar o procedimento cirúrgico.

"Durante o julgamento vai haver surpresas"

Em declarações à imprensa, o advogado dos ofendidos, David Mendes, disse que a defesa tem o direito de contrapor, considerando "normal" a contestação, embora muito longa, e as questões que levantaram.

"No desenrolar do julgamento vamos rebater estas coisas, porque começámos e é ainda muito cedo para ver se eles têm razão", afirmou Mendes, considerando "impossível" o pedido de arquivamento, por se encontrar já em fase de julgamento, podendo levantar esta questão em recurso.

Instado a comentar a contestação da defesa, de que muitos dos factos nos autos se realizaram antes do mandato do arguido, David Mendes respondeu que "durante o julgamento vai haver surpresas".

No que se refere à audição do arguido, o advogado protestou o facto de o tribunal demonstrar "alguma inclinação", garantindo que "isso não vai acontecer até ao final".

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