Angola: ″Estado da Utopia″ de João Lourenço aquém das expetativas | Angola | DW | 23.07.2019
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Angola

Angola: "Estado da Utopia" de João Lourenço aquém das expetativas

Cerca de dois anos depois de assumir o poder, o Governo angolano não avançou o suficiente no combate à corrupção, dizem o escritor José Eduardo Agualusa e o ativista Luaty Beirão, num debate em Lisboa.

José Eduardo Agualusa e Luaty Beirão durante o debate, em Lisboa. Ao centro, a deputada portuguesa do Bloco de Esquerda Mariana Mortágua.

José Eduardo Agualusa e Luaty Beirão durante o debate, em Lisboa. Ao centro, a deputada portuguesa do Bloco de Esquerda Mariana Mortágua.

Se o desempenho do chefe de Estado angolano fica aquém das promessas eleitorais, sobretudo no que diz respeito à corrupção, também a oposição tem culpas no cartório: "Não tem sabido explorar as fraquezas do regime", diz o escritor angolano José Eduardo Agualusa, que participou esta segunda-feira (22.07) com o ativista Luaty Beirão num debate em Lisboa sobre o "Estado da Utopia" em Angola.

Para o rapper angolano, há, no entanto, alguns avanços, como as conquistas no que toca ao direito à liberdade de expressão e de manifestação. Ambos consideram que a repressão diminuiu e o medo desapareceu.

Mas a verdade é que "a situação ainda não é perfeita", frisa Agualusa, fazendo uma avaliação crítica do Estado da Nação angolana, cerca de dois anos depois da eleição de João Lourenço, substituto de José Eduardo dos Santos - que ficou 39 anos no poder.

Um dos grandes desafios, diz o escritor angolano, "é o da despartidarização do Estado. Não foi feito nada". Mas não é o único setor estagnado: "A questão das autárquicas também não está a avançar como devia e mesmo na questão da corrupção não tenho a certeza. Acho que ficamos a meio daquilo que foi prometido. Então, estamos aquém".

Mais liberdade, menos medo

A "imprensa ainda é manietada", mas Agualusa considera que "não se está mal" no que toca à liberdade de expressão. O jornalismo ligado ao aparelho de Estado é mais aberto e "há mais liberdade". No entanto, "a justiça ainda é duvidosa e ainda há casos de pessoas presas injustamente. O escritor angolano reforça, entretanto, que o "medo desapareceu ou mudou de lugar, no sentido de que há mais medo agora dentro do próprio MPLA, do que na oposição".

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Angola: "Estado da Utopia" aquém das expetativas

"Os grandes inimigos do atual Presidente não estão na oposição, não estão fora. Estão dentro do partido, disso não há dúvida nenhuma", diz Agualusa. O balanço não é positivo do lado da oposição, sustenta o escritor, porque ela "está dividida, confusa".

Reconhecendo o que melhorou, o ativista angolano, Luaty Beirão aplaude as mudanças e diz que é preciso muita cautela na avaliação desta "nova era" com as mesmas pessoas no poder. Realça, por exemplo, que existe hoje "uma grande abertura" no que toca à liberdade de expressão, de reunião e de manifestação.

"Continuam a ser pouco concorridas, continua a haver pouca gente e agora o que mudou é que, ao invés de serem todas reprimidas como era antigamente, a repressão diminuiu de vários tons. Há um degradé muito grande no nível de repressão que era empregue. Portanto, há coisas que, sinceramente, são diferentes", admite.

Passos atrás na luta contra a corrupção

No entanto, para o rapper angolano, "há um retrocesso" no que toca ao combate à corrupção, considerado a linha de força do Governo de João Lourenço.

"Existe pelo menos um freio muito grande, muito óbvio, muito visível. Houve uma altura ali em que estava toda a gente a ser indiciada, a ser pronunciada ou pelo menos detida e os casos vinham a público de quem estava a ser investigado, sobre que crimes, e há uns meses que isso parou", lamenta o ativista. "Nós temos agora um caso com julgamento em curso, que é o do Augusto Tomás, mas de resto são tudo passos atrás".

Luaty Beirão critica a ausência de acusação contra o empresário suíço-angolano Jean-Claude Bastos de Morais e lamenta a diminuição das medidas de coação sobre José Filomeno dos Santos "Zenu", ex-presidente do Conselho de Administração do Fundo Soberano de Angola (FSDA), que já pode sair do país.

E há ainda o caso do deputado Manuel Vicente, ex-vice presidente de Angola, no qual, lembra "ainda não se tocou e, segundo o ministro das Relações Exteriores [Manuel Augusto], isso é um caso para ser arquivado".

Outro aspeto relevante em Angola, na análise de José Eduardo Agualusa, tem a ver com a sofisticação da sociedade civil, que está agora mais reivindicativa, "porque está descontente com a situação". "O que eu acredito é nesta sociedade civil. Acho que a sociedade civil não pode adormecer", diz o escritor angolano.

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