Bolo confeitado, labirinto 'publicitário' e divãs de todos os tipos: Museu Judaico de Berlim aposta em formato pop para reconstruir vida e obra de Sigmund Freud.
Em nome de Freud: bolo confeitado e labirinto pop
Priorizar o acústico em vez do visual é uma das premissas da psicanálise. Deitado no divã, o paciente não vê seu terapeuta, enquanto este está ali principalmente para ouvir.
Fora isso, Freud, em vida, se recusou a receber a soma (para a época considerável) de cem mil dólares pelos direitos de adaptação para o cinema da história de seus pacientes. A película em questão era Segredos de uma alma, de G.W. Pabst (1926). "Não quero ligação direta com nenhuma espécie de filme", determinou o pensador sem meias palavras.
Em função deste desprezo ou quase rejeição pela imagem, o "desejo" do espectador frente a uma exposição como PSYCHOanalyse (PSICanálise), inaugurada nesta sexta-feira (7/4), no Museu Judaico de Berlim, seria encontrar uma economia de signos visuais. Mesmo porque, no caso, se esbarra muito rapidamente nos limites de representatibilidade do discurso psicanalítico.
Estações biográficas
A dramaturgia da mostra no museu berlinense, porém, parece não se ater a tal espécie de pudor. Para celebrar os 150 anos de nascimento de Freud, está exposto um bolo de isopor, confeitado e imenso, com três andares e quatro metros de diâmetro, dividido em 24 fatias. Sobre estas estão dispostos vários Freuds em miniatura, sempre ao lado de seus pais, mulher, pacientes ou convivas.
O BOLO ("primeiro ato") divide em diversas estações a biografia do pensador para o visitante, que ao mesmo tempo ouve detalhes sobre a infância, o casamento, a família, a doença e o exílio de Freud. Para a curadora Nicola Lepp, o parâmetro estético que guia a mostra se atém a uma "disposição espartana, que rejeita objetos históricos, expostos tradicionalmente em museus".
O que o visitante pode se perguntar ao adentrar o LABIRINTO ("segundo ato") é o que, afinal, há aí de espartano ou econômico. Um espaço no qual os conceitos freudianos são reproduzidos em luminosos coloridos, em formato que remete nitidamente à estética publicitária dos anos 60 ou 70. Liqüidação do discurso psicanalítico, em todos os sentidos do termo?
Estética pop
Cartaz da mostra: superego
Tudo em nome de um deciframento do discurso psicanalítico para um público "maior e mais amplo", defende Daniel Tyradellis, um dos pesquisadores responsáveis pela exposição. Empacotar Freud em embalagem pop e assumir o kitsch para vender tudo em um supermercado de terminologias?
O argumento de facilitar o "acesso a Freud através da cultura pop" é o de que "todos conhecem" conceitos como complexo de Édipo ou pulsão de morte, embora poucos saibam exatamente como Freud os definiu.
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