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Brasil

No centro de disputa política, haitianos vivem incerteza em São Paulo

Só em abril, cerca de 800 imigrantes chegaram à cidade, a maioria vinda do Acre. Mas sem abrigo, dinheiro, documentos e apoio do Estado, eles têm que lidar com preconceito e contar com caridade para construir nova vida.

Fila para tirar carteira de trabalho na paróquia Nossa Senhora da Paz, no centro de São Paulo

Foram três dias de viagem para chegar a São Paulo. Para o haitiano Ronald Balame, de 25 anos, o trajeto de ônibus junto com outros 40 conterrâneos foi um suplício. “Passei muito mal, não me deram nada para comer e eu não tinha dinheiro para comprar alimentos”, diz ele, enquanto aguarda na fila para retirar sua carteira de trabalho, na paróquia Nossa Senhora da Paz, na região central da cidade.

Ronald afirma que a viagem foi realizada em um ônibus fretado pelo governo do Acre, relato confirmado por assistentes sociais e padres da paróquia. “A gente supõe que, quando se freta um ônibus, se paga também alimentação, pelo amor de Deus. Muitos chegaram dizendo que passaram fome”, diz Paolo Parise, um dos padres da paróquia, parte da Missão Paz de São Paulo.

O secretário de estado de Comunicação do Acre, Leonildo Rosas Rodrigues, nega que veículos tenham sido fretados com esse fim: “Não é verdade que haja ônibus do governo. Alguns haitianos, que têm dinheiro, compram a sua própria passagem. Outros já saem empregados e as empresas vêm buscá-los. Para os que não têm a mínima condição, o governo compra passagens. Mas quem decide o destino são eles”.

As condições precárias impressionam os haitianos, que ficam decepcionados com o que encontram no Brasil. “Nada é organizado. Eu me sinto tratado como um animal”, diz Josue Michel, de 25 anos. Em São Paulo há dois dias, ele está hospedado com amigos e familiares haitianos. Após um dia inteiro na fila, Josue não conseguiu tirar a carteira de trabalho.

Assim como ele, centenas de haitianos buscam a Missão Paz para pedir orientação. “Eles já saem de Porto Príncipe com o nosso endereço, passado por amigos e parentes”, conta Parise. O padre estima que, desde o feriado de Páscoa, no mínimo 500 haitianos passaram pela Missão, a grande maioria vinda do Acre.

Mais de 40 chegaram na madrugada desta segunda-feira (28/04) e centenas ainda estão previstos até o fim da semana. Segundo a prefeitura, cerca de 800 haitianos chegaram a São Paulo em abril.

Na rua

Só no salão da igreja, cerca de 200 pessoas estão abrigadas. “Estamos no limite. Estão dormindo encostados um no outro no chão do auditório. Foi um jeito extremo para não deixá-los na rua. Para mim estava péssimo, mas eles diziam para eu não me preocupar, porque ‘estava melhor do que Brasileia'”, afirma Parise.

O abrigo na pequena cidade no Acre, próximo à fronteira com a Bolívia e o Peru, foi fechado em abril. Centenas de imigrantes viviam no local em situação degradante, com esgoto a céu aberto. Com o fechamento do abrigo e o fim das cheias que isolaram o estado no início do ano, o fluxo migratório se intensificou. De acordo com o governo do Acre, dos 2.500 haitianos que viviam em Brasileia, 2.300 receberam ajuda para deixar o estado.

A notícia de que mais imigrantes chegarão a São Paulo preocupa Parise: “Nunca recusei gente na minha vida. Mas não tem mais espaço. Se chegar mais ônibus, penso em sair com todos eles e dormir na rua. Se alguém ficar fora, nós, padres, vamos dormir junto deles”.

Além do abrigo, uma das grandes preocupações dos haitianos é obter a carteira de trabalho. Nas sexta-feira passada e nesta terça-feira, o Ministério do Trabalho realizou um mutirão na paróquia, entregando 193 documentos. Ainda assim, cerca de 60 pessoas aguardam na fila.

A maioria dos haitianos vindos em abril, segundo Parise, receberam o visto humanitário no Acre. Em São Paulo, o documento pode levar mais de um ano para ficar pronto, devido à grande quantidade de pedidos. “Os que vieram direto de outros países têm que fazer o agendamento na Polícia Federal e só há vaga em novembro”, reclama o padre.

Preconceito

Mesmo para quem obteve a carteira de trabalho e um emprego, a vida no Brasil é difícil. Apesar da formação como técnico de informática, Schaueck Flis, de 32 anos, só conseguiu trabalho como pedreiro. Na semana passada, entretanto, ele foi dispensado.

Padre Parise: "Muitos contam que passaram fome"

“O chefe disse que não queria haitianos na obra. Eu era muito discriminado lá. Se soubesse da situação, não tinha vindo”, diz Schaueck, que agora busca outro emprego.

Para chegar ao Brasil, Schaueck pagou 2 mil dólares para obter o visto humanitário já em Porto Príncipe, no Haiti. Segundo ele, há muita corrupção para conseguir o documento.

Uma vez aqui, Schaueck tem dificuldade em sustentar a família – a esposa está grávida de uma menina. “Trabalho muitas horas e ganho pouco, sou tratado como um escravo”, afirma.

Parise conta que empresários entraram em contato com a paróquia para oferecer trabalho ilegal para os haitianos. “Ligam dizendo que têm uma fazenda e podem pagar 300 reais, sem carteira de trabalho. Eu respondo que a escravidão acabou”, afirma o padre.

Jacke Odil, de 31 anos, acredita que o preconceito é o pior aspecto do Brasil. No país há três anos, ele já acolheu diversos companheiros haitianos em sua casa. Nesta terça-feira, estava na paróquia para ajudar mais um amigo a se estabelecer. “Aqui há trabalho, mas também muito racismo”, explica.

O padre da paróquia, acostumado a trabalhar com estrangeiros, confirma as dificuldades enfrentadas pelos haitianos. Segundo ele, muitos brasileiros rejeitam os imigrantes ou consideram-nos “coitados”.

“O Brasil é acolhedor, mas isso também é um pouco mito. Os imigrantes não são coitados. Vários são formados. Tem engenheiro que trabalha como operário. Sim, eles acabam de chegar e estão num momento fragilizado, mas não são pobrezinhos”, argumenta.

Disputa política

A chegada dos haitianos a São Paulo desencadeou uma disputa política. O governador Geraldo Alckmin (PSDB) acusou o Acre de “irresponsável” por não avisar sobre o envio de haitianos. Já o governador do Acre, Tião Viana (PT), afirmou em diversas ocasiões que a “elite paulista” promovia o “racismo” e a “higienização”.

“Após mais de três anos da nossa ajuda humanitária, com apoio de alguns ministérios, quando 200 tiveram dificuldades ao passar em SP, o preconceito aparece”, publicou o governador no Facebook.

Jacke e Schauveck, imigrantes haitianos que moram em São Paulo, reclamam do preconceito e racismo

Nesta terça-feira, Alckmin afirmou que o governo do Acre “despejou” os haitianos em São Paulo. O prefeito Fernando Haddad (PT) também pediu mais diálogo. "A única coisa que pedimos é que nós possamos nos organizar, tendo previsibilidade, para não onerar as ONGs que trabalham com o acolhimento”, disse.

Por outro lado, o governo do Acre diz que não tem a “obrigação” de comunicar São Paulo sobre o envio dos imigrantes. “Quando os haitianos vêm aqui, eles não avisam que estão chegando”, disse o secretário de estado de Comunicação do Acre, Leonildo Rosas Rodrigues.

Emergência humanitária

Enquanto as autoridades trocam farpas, a situação humanitária se deteriora. “Os governos estão mais preocupados em apontar o dedo uns para os outros do que resolver uma questão emergencial”, opina a coordenadora de Política Externa da ONG Conectas, Camila Asano.

Para ela, o fechamento do abrigo no Acre foi um erro, pois cerca de 40 imigrantes continuam chegando todos os dias a Brasileia: “A rota migratória já se consolidou e o governo simplesmente fechou o abrigo, deixando a cidade sem qualquer estrutura”. Ela ressalta que o governo criou um espaço provisório em Rio Branco, quando há a necessidade de se construir um local permanente.

A reivindicação, entretanto, não deve ser atendida, segundo o secretário de Comunicação do Acre: “Não vamos construir abrigo permanente. Vamos continuar improvisando, porque o estado já tem um custo alto com isso. Se começarmos a dispensar os nossos recursos humanos e materiais só com os estrangeiros, vamos ter dificuldades com a nossa população”.

Para Asano, a responsabilidade pelo assunto é, sobretudo, do governo federal. “Cobramos uma posição mais ativa, que não seja apenas o repasse de verbas. Até porque questões migratórias extrapolam as competências de um governo estadual, como o do Acre.”

Em São Paulo, o padre Parise também reivindica um abrigo público. “As casas de acolhimento da prefeitura são feitas para um tipo de público, para moradores de rua. O imigrante não se adapta. Eles têm suas malas e dinheiro roubados”, conta.

A prefeitura de São Paulo diz que busca vagas em instituições. “Estamos procurando alternativas para abrigá-los. Estamos nos preparando para os próximos que vão chegar”, explica o secretário de Direitos Humanos e Cidadania, Rogério Sottili.

Para o padre Parise, falta interesse dos poderes públicos em acolher os haitianos: “No século passado havia a Hospedaria do Imigrante. Mesmo com falhas, havia uma estrutura organizada pelo Estado. Hoje não há.”

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