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Cultura

Wenders: América revisitada por um europeu

Wim Wenders fala à imprensa alemã sobre a relação com seu país de nascença, a Alemanha, e seu país de escolha, os EUA, tema de seu último filme, "Land of Plenty".

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'Land of Plenty': o que foi feito da América utópica?

Wim Wenders

Wim Wenders

Em seu mais recente filme, Land of Plenty, o cineasta alemão Wim Wenders (59) retrata os Estados Unidos de forma mais crua do que em filmes anteriores. Os EUA pós-11 de setembro, sob o governo Bush, já não representam mais a tela de projeção para o American dream de um europeu, como em Paris, Texas, por exemplo. Desta vez, Wenders mostra o outro lado da moeda, destacando não só a pobreza entre a população, mas também a crise da identidade norte-americana.

América após caubói George W.

Land of Plenty representa uma reação de Wenders ao desaparecimento da sua América utópica, conforme o cineasta declarou em entrevista ao jornal Die Zeit: "Eu teria insistido o maior tempo possível na utopia política por trás deste mito, na idéia americana de democracia e liberdade que eu sempre vi neste país e gostaria de continuar vendo".

"Eu acharia fácil demais afirmar que tudo está indo por água abaixo e o país mais poderoso é governado apenas por algumas corporations, cujas rédeas ainda estão de certa forma nas mãos de Dick Cheney, enquanto o caubói chamado George W. se encarrega de meter a espora. O que eu queria com Land of Plenty era repudiar de alguma forma esta traição. Inclusive pessoalmente, pela traição a tudo o que restou do mito da minha infância."

Pode ser o fim de uma longa amizade

Filmszene Land of Plenty von Wim Wenders

'Land of Plenty', Michelle Williams no papel de Lana

Residente na Califórnia desde 1996, Wenders considera Land of Plenty, protagonizado por uma americana retornada do Oriente Médio e pelo tio veterano do Vietnã, o último filme em que ele ainda expressa alguma confiança nos Estados Unidos: "Estou me preparando para a despedida. Afinal, se este país realmente se tornar o que ameaça no momento, não tenho mais nada a perder".

"Após Land of Plenty, rodei um outro filme nos EUA – Don't Come Knockin' –, escrito junto com Sam Shepard. Uma história que se passa em Montana, Nevada e Utah, ou seja, paisagens que ainda mantêm uma certa 'inocência' e resistem a qualquer inversão. É a tentativa de uma história de família americana mais apolítica possível, mas com uma postura política na narrativa, como exige Godard. Talvez este já seja o filme de despedida. Mas Land of Plenty ainda não. Trata-se de um filme que ainda insiste em lutar, na esperança de que não precise haver esta despedida."

A despedida incipiente dos EUA se manifesta até no retorno consciente a técnicas mais artesanais do cinema de autor europeu, o reverso de Hollywood: "Em certas cenas, nos aproximamos do estilo dos vídeos amadores, rodando quase sem cortes e com todo o caos em volta. Certas cenas ficaram parecendo um documentário, justamente o que eu queria. Não queria que a morte tivesse um efeito heróico. No cinema, a violência infelizmente parece atraente demais", declarou Wenders em entrevista ao diário Berliner Zeitung.

Alemanha redescoberta

O mito América marcou a trajetória do cineasta nascido em Düsseldorf no último ano da guerra. O papel dos Estados Unidos como país libertador do nazismo gerou entre a primeira geração do pós-guerra alemão um mito específico da América, segundo explica Wenders: "Nasci num monte de ruínas, num mundo de adultos onde ninguém era culpado e não existia nenhuma forma do passado, só do presente e futuro. Quando criança, sentia que alguma coisa estava errada e num dado momento me pareceu útil ter um outro mundo. Para mim, ainda criança, este mundo era a América. Crescemos com a nostalgia e a prontidão de incorporar uma outra coisa".

Wim Wenders Film Land of Plenty

'Land of Plenty', dirigido por Wim Wenders

Não só a escalada do conservadorismo militarista nos EUA leva Wenders a criar uma distância em relação ao seu país de escolha. De certa forma, conforme confessa, o cineasta redescobriu o seu vínculo com a Alemanha: "Só com a idade, as coisas mudaram. Inconscientemente eu sempre quis me tornar um americano e fazer filmes americanos. Mas houve uma hora em que ficou claro que eu tinha que permanecer um alemão no coração e que isso era o que eu queria no final das contas. Mas isso durou quase 50 anos. Tive que percorrer um caminho tortuoso para aceitar em paz a alma alemã".

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