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Brasil

Voto dos pobres deu vantagem a Lula no primeiro turno

Presidente não conseguiu garantir reeleição em 1º de outubro, mas sua votação é espetacular diante dos escândalos de corrupção que marcaram seu governo. O jornalista Johannes Beck analisa os motivos.

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Quem recapitular tudo o que aconteceu nos últimos quatro anos terá que esfregar os olhos para acreditar no que está vendo: quase a metade dos brasileiros votou em Lula. E tal surpresa é justificada, se levarmos em conta os inúmeros escândalos que marcaram seu governo.

O PT financiou ilegalmente campanhas eleitorais e subornou parlamentares. Quase todo o primeiro escalão do partido teve de renunciar: do tesoureiro ao presidente, passando pelo chefe da Casa Civil do governo.

Depois do que aconteceu, eu não teria votado em Lula. Até porque o PT sempre se apresentou como garantia de ética na política. Mas o fato de tantos brasileiros terem novamente depositado suas esperanças nele pode ser explicado por três motivos.

Corrupção é tolerada

Primeiro: dois terços dos brasileiros estão convencidos de que todos os políticos são mesmo corruptos. Foi o que mostrou uma sondagem do instituto de pesquisas Ipsos.

Apesar dos avanços obtidos nos últimos anos, muitos brasileiros continuam sendo tolerantes no que se refere à corrupção. Se não fosse assim, não seria possível explicar como mestres da corrupção, entre eles Fernando Collor de Mello, Paulo Maluf e Joaquim Roriz, foram eleitos para o cargo de senador ou de deputado.

Com tanta tolerância à corrupção, a campanha do oposicionista Geraldo Alckmin caiu, ao menos em parte, no vazio. Ele se apresentou aos eleitores como um político destacadamente ético.

Mas não sem alguns problemas de credibilidade: governos do PSDB, como o de Fernando Henrique Cardoso, não estiveram livres de escândalos. E o partido aliado de Geraldo Alckmin, o PFL, cobriu durante décadas todo o Estado da Bahia com uma rede de nepotismo.

Políticas econômica e social

O segundo motivo para a reeleição de Lula é sua política econômica, basicamente uma continuação da implementada pelo seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso.

O orçamento público permanece sob controle, as dívidas são pagas e a inflação é mantida num nível baixo. Isso para a alegria de muitos brasileiros, ainda traumatizados pela hiperinflação do início dos anos 90.

Terceiro motivo: a política social de Lula. No seu governo, muitos pobres passaram a ter, pela primeira vez, auxílio social. Isso atenuou a má distribuição de renda e a pobreza no país. E ajudou Lula a superar, principalmente no Nordeste, o pouco carismático Geraldo Alckmin.

Os nordestinos vêem Lula como um deles, como o primeiro "presidente pobre do Brasil". Para isso colabora a história de vida do presidente: sua família fugiu da pobreza do Nordeste para São Paulo quando ele era criança. Resultado: no Nordeste, dois terços dos eleitores votaram em Lula.

Segundo turno

No Sul, onde estão os Estados mais ricos, Lula não foi bem nessas eleições. Com os escândalos dos últimos anos, principalmente a classe média, decepcionada, se afastou dele. Assim, pouca coisa sobrou do antigo baluarte petista que era o Rio Grande do Sul.

Que a eleição não tenha se decidido no primeiro turno é culpa do próprio Lula. Na quinta-feira passada (28/09), ele cancelou em cima da hora a participação num debate na televisão. As imagens de sua cadeira vazia lhe custaram votos que seriam decisivos.

Agora, Lula terá de enfrentar Alckmin no segundo turno. E, caso queira mesmo vencer a eleição, o presidente terá que evitar que surjam novos escândalos e não poderá mais cancelar sua participação em debates televisivos.

Johannes Beck

Johannes Beck é chefe da redação de Português para a África da Deutsche Welle. Ele está em São Paulo para a cobertura das eleições no Brasil.

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