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"Você gostaria de participar de uma experiência artística?"

Em entrevista à DW-WORLD.DE, artista brasileiro Ricardo Basbaum fala do projeto que desenvolve junto à "documenta" de Kassel e discorre sobre a importância de um espaço para o "pensamento coletivo" durante a mostra.

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NBP de Basbaum em Kassel, 2006

Ricardo Basbaum consta da lista mínima, até agora divulgada, de artistas que terão suas obras na documenta 12. Seu projeto Você gostaria de participar de uma experiência artística? vem sendo desenvolvido desde 1994, em várias cidades de diversos continentes.

No website do projeto, Basbaum, como "propositor", convida quem se habilitar a fazer uso do objeto NBP (Novas Bases para a Personalidade), uma peça de aço pintado, de 80 x 125 x 18 cm. O indivíduo, grupo ou coletivo interessado em participar tem que estar apto a "levar para casa" o objeto, que pode ser visualizado no site.

Hoje, em colaboração com a documenta 12, há 20 objetos em circulação no Brasil, América Latina, Europa e África. Cada experiência é cadastrada no site, que além de registro e banco de dados, funciona como uma plataforma de reflexão sobre a própria obra e temas afins.

Leia abaixo a entrevista de Ricardo Basbaum à DW-WORLD.DE, em que o artista defende o NBP como portador "de elementos híbridos de várias procedências" e explica sua idéia de produzir, com seu projeto, "uma relação dialógica de questionamentos e provocações mútuas, com a finalidade de uma conversa infinita".

DW-WORLD.DE: De início, você partiu de um único objeto físico NBP, embora já tenha dito que novos ou vários pudessem surgir. Hoje, já há 20 novos objetos produzidos circulando em três continentes. Por que essa opção pela reprodutibilidade da obra, o que implica um não à singularidade (autenticidade?) deste como objeto único?

Ricardo Basbaum: Nunca parti de um "único objeto físico": o projeto já se iniciou com o objeto concebido como "múltiplo em tiragem aberta", ou seja, podendo ser construídos quantos objetos se fizerem necessários a cada momento (inicialmente, foram planejados 10 objetos).

O fato de haver apenas um objeto em circulação no período de 1994 a 2005 se deveu apenas a fatores econômicos, pois apesar de ter buscado recursos, no Brasil (em 1995 e 1998), junto a dois fundos de financiamento de projetos, tive os pedidos negados e nunca consegui o financiamento necessário. Somente agora, em colaboração com a documenta 12, consegui apoio para esta expansão do projeto.

Neste projeto especificamente não interessa o objeto único, pois este seria imediatamente fetichizado como "original", envolto em uma "aura de autenticidade" da qual o projeto quer se distanciar. Enquanto múltiplo, é possível afirmar que os participantes têm em mãos rigorosamente o mesmo objeto para desenvolverem suas experiências, sem as marcas da falsa singularidade do objeto único. Assim, o projeto é de certo modo sempre reiniciado, carregando apenas as marcas da memória construída a partir de documentos e registros.

Além disso, afinal de contas, o objeto não é o elemento mais importante de todo o projeto, mas apenas aquele que deflagra o processo: a cada experiência ou evento realizado o objeto passa para um segundo plano, trazendo para o primeiro plano as redes de relações produzidas pelos eventos e situações propostas.

Sua proposta artística parte do princípio de uma "autoria compartilhada". Você chegou a ter "más experiências"? Lamentou, em alguma ocasião, ter abandonado a certeza de uma obra concluída? Desconfia ocasionalmente do Outro, quando ele se apropria de um NBP?

Veja bem, a relação que procuro desenvolver em reação às respostas dos participantes e suas propostas também é um dos elementos envolvidos no projeto: procuro positivar qualquer resposta, portanto não há o que você chama de "má experiência" – digo isso partindo do pressuposto de que o participante está assumindo a responsabilidade por suas ações.

Quando entrego o objeto para um participante, solicito apenas duas coisas: que assuma a responsabilidade das ações realizadas; e que se comprometa a tornar estas ações públicas, enviando documentação para o website do projeto – no guia com instruções aos participantes, escrevo: "Você pode fazer o que quiser com ele [o objeto]. Use-o como quiser, da maneira que achar melhor".

Would you like to participate in an artistic experience? Großbild

'Você gostaria de participar de uma experiência artística?', 1994-????

Mas esta total "disponibilização" sem restrições não significa que eu "concorde" com todas as proposições realizadas. Um dos traços que mais me interessa no projeto é a produção desta assimetria entre propositor e participante: os papéis nunca coincidem e assim é produzida uma relação dialógica de questionamentos e provocações mútuas, com a finalidade de uma "conversa infinita".

Inclusive, há uma interessante inversão de papéis: se inicialmente eu me coloco como propositor, que oferece o objeto a um participante, provocando-o, quando recebo a documentação da experiência realizada é o participante que se torna propositor, enquanto procuro processar a experiência realizada enquanto participante que aceita ser provocado.

Você reafirma que, por ser um work in progress, o projeto "Você gostaria de participar de uma experiência artística?" pode (ou deve?) persistir para além "do tempo de vida do autor". Até que ponto o objeto é, de fato, autônomo o suficiente para mover-se sem autoria, sobrevivendo apenas graças à própria história?

A possibilidade de uma sobrevida para além "do tempo de vida do autor" se coloca para qualquer obra de arte – há o tempo próprio do poema, em todo o seu mistério, com seus segredos e revelações: trata-se de uma modalidade de produção de pensamento de consumo lento e complexo, que se projeta para além do tempo apressado da pressão econômica da vida cotidiana. Todas as obras de arte, filmes, livros, músicas interessantes e provocadoras têm – felizmente – sobrevivido ao (curto, porém intenso) tempo de vida de seus autores.

No caso do projeto Você gostaria de participar de uma experiência artística? há ainda uma peculiaridade: o fato de partir de um objeto múltiplo de edição ilimitada indica que sempre um novo objeto pode ser produzido, a qualquer tempo, isto é, tanto aqui e agora como "além do tempo de vida do autor". Entretanto, não há qualquer garantia desta sobrevida – trata-se de algo que somente ocorrerá se, como você diz, a própria história do projeto assim indicar...

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