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Cultura

Veredicto de poeta, boca do inferno

Handke acusa Tribunal de Haia – Festival leva poesia aos palcos de Berlim – Romance de Anne Weber cria uma dicção franco-alemã na literatura

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'Ler é beber letras com os olhos' (Hermann Lahm)

Literaturen Titelcover mit Peter Handke

Literaturen, Julho / Agosto 2005, com Peter Handke na capa

O austríaco Peter Handke prossegue sua série de escritos polêmicos em torno da guerra dos Bálcãs com uma recente contribuição à revista alemã Literaturen. Desta vez, ele retorna ao julgamento do antigo presidente iugoslavo Slobodan Milosevic, acusado de crimes de guerra pelo Tribunal de Haia. Handke, convocado pela defesa – entre mais 1600 nomes – para depor no processo Milosevic, justifica neste recente escrito por que se recusou a comparecer ao banco de testemunhas.

Internationaler Gerichtshof in Den Haag

Interiores da Corte Internacional de Justiça de Haia, Holanda

"Tenho a profunda convicção de que o Tribunal Mundial, que não pára de avaliar (e avaliar), no Auditório Número Um, a antiga Câmara de Economia de Haia, não vale nada – e que esse Tribunal, independente do que seja formalmente de sua alçada, não passa de um erro, do começo ao fim, e continua cometendo erros e continuará cometendo erros – e que ele não vai contribuir em nada para descobrir a verdade – que, apesar da fachada de dignidade ressaltada por todos, ele é um abominável escárnio da idéia de Direito, uma idéia eterna em comparação com outras; ou seja, um TRIBUNAL ERRADO..."

Slobodan Milosevic

Ex-presidente iugoslavo Slobodan Milosevic chegando no Tribunal de Haia, em fevereiro de 2002

"Isso mesmo, e a minha 'profunda convicção' não pára por aí. Não só acho que Slobodan Milosevic está diante do tribunal errado. Embora não o considere 'inocente', considero-o 'inocente no sentido da acusação' e no sentido da organização do processo, de sua conduta e da forma como é conduzido pelos juízes."

Diante do tribunal da mídia

Em um ensaio de 20 páginas, o romancista e dramaturgo austríaco, que estudou Direito em Graz, retoma a questão da legitimidade de um julgamento, cuja sentença já foi pronunciada pela mídia mesmo antes da extradição do réu.

Desde seu relato Eine winterliche Reise zu den Flüssen Donau, Save, Morawa und Drina oder Gerechtigkeit für Serbien" (Uma Viagem de Inverno pelos Rios Danúbio, Sava, Morava e Drina ou Justiça à Sérvia, 1996) até seu depoimento de observador no Tribunal de Haia, Rund um das Grosse Tribunal (Em torno do Grande Tribunal, 2003), Handke publicou outros textos ficcionais e ensaísticos nos quais volta a contrapor a posição de testemunha ocular do poeta viajante à parcialidade anti-sérvia da cobertura jornalística da Guerra dos Bálcãs.

Peter Handke

Peter Handke

Esta nova contribuição de Handke ao fogo eterno da polêmica dos Bálcãs rendeu algumas críticas ferozes – como a acusação de que o escritor já faz parte do "complexo poético-militar" ( taz) – e algumas defesas contidas, por parte da imprensa alemã. Mas nada de muito escandaloso. De duas uma: ou a controvérsia já se desgastou, ou as implicações antiamericanistas da crítica handkeana ganharam mais aceitação nos últimos anos.

Poesia para as massas

Todo ano, o Festival de Poesia de Berlim abre espaço para manifestações poéticas contemporâneas que possam ser traduzidas para outras mídias – voz, dança, ópera, performance, música, teatro – e, conseqüentemente, para o grande público. A idéia é atingir um público mais amplo, para além do reduzido círculo de leitores "profissionais" da arte lírica.

Himmelsblumen am Potsdamer Platz

Potsdamer Platz, em Berlim

A edição deste ano, ocorrida entre 18 e 26 de junho, incluiu em sua programação artistas como Laurie Anderson, com a performance "poético-prosaica" End of the Moon, onde tece associações lunáticas em poemas de amor e relatórios de um experimento artístico com a Nasa, até Eugen Gomringer, o co-iniciador da Poesia Concreta na década de 50, paralelamente ao Grupo Noigandres, de São Paulo.

Em sua conversa com o público, o poeta suíço-boliviano Eugen Gomringer explicou como transferiu as inovações formais da arte concreta para a poesia e batizou o movimento junto com o poeta paulista Décio Pignatari, num encontro em Ulm, no sul da Alemanha. Gomringer, representante de uma vertente do Concretismo literário que joga com "constelações" de palavras avulsas a serem combinadas por permutação, justifica hoje, a posteriori, seu interesse pela materialidade da linguagem. O que sempre o interessou foi a "aura da palavra", algo que transparece com mais nitidez quando cada termo é tomado como objeto isolado.

Uma tradição interessante do Festival de Poesia de Berlim é um evento de tradução de poesia praticamente instantânea. Neste ano, a língua de destaque foi o espanhol. Dezenas de poetas alemães, suíços, austríacos, espanhóis e hispano-americanos se reuniram em pares durante três dias, para traduzir – com ajuda de uma tradução interlinear e do intermédio de um intérprete – poemas de uma língua para outra. O resultado, apresentado em duas noites consecutivas, dá uma mostra bastante diversificada da atual produção poética nas línguas em questão.

O depoimento dos poetas envolvidos no evento e o repertório apresentado ao público revelaram que a grande diferença entre as manifestações poéticas de língua espanhola e de língua alemã é a discrepância do teor metafórico. Na amostra espanhola, as imagens da poesia se alimentam de um significado metafórico, daquilo que ainda está por trás da imagem, enquanto os alemães são mais fixados na função de visualização que a imagem pode desempenhar dentro do poema.

Leia a seguir a resenha do livro Besuch bei Zerberus (Visita a Cérbero), de Anne Weber. >>>

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