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Brasil

"Veneno-remédio: O futebol e o Brasil"

José Miguel Wisnik fala em Berlim sobre os resquícios de poesia no futebol, vê as Copas como acerto de contas do país consigo mesmo e reafirma as singularidades de cada cultura no universo globalizado do esporte.

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Wisnik: 'futebol é falha no processo hegemônico'

Ainda escrevendo os últimos capítulos do livro Veneno-remédio: O futebol e o Brasil, que deverá ser lançado no segundo semestre deste ano, o crítico, ensaísta e compositor José Miguel Wisnik lembra a importância do futebol na memória coletiva brasileira, discorre sobre a "gratuidade do riso" no Brasil e cita Gilberto Freyre, ao lembrar que teóricos do último século acreditavam que o futebol e a música poderiam sublimar esteticamente a violência no país.

DW-WORLD: Você veio a Berlim falar sobre a prosa e a poesia do futebol, partindo da referência a um ensaio do cineasta Pier Paolo Pasolini, de 1971. É possível dizer que o futebol brasileiro ainda sobrevive na categoria do poético? Ou o futebol-arte se tornou, em todo o mundo, anacrônico e ultrapassado?

José Miguel Wisnik : O futebol mudou muito desde 1971, quando Pasolini escreveu este texto. Não há mais uma clara distinção entre prosa e poesia como ele viu na Copa de 70. Embora a idéia de um futebol artístico, improvisado, com muitos dribles e gols, que são verdadeiras pinturas, tenha deixado de ser comum.

Atualmente os espaços são muito disputados, e o futebol passou a se parecer mais com uma partida de xadrez, talvez como uma prosa ensaística, à procura da poesia. No futebol brasileiro, temos muitos jogadores que jogam com um estilo poético: o Ronaldinho Gaúcho, no Barcelona, o Robinho. Ao mesmo tempo, o Parreira tem uma concepção prosaica do futebol.

Você fala em uma tendência no Brasil de fazer com que as agruras da realidade passem necessariamente pelo princípio do prazer. Aos olhos de estrangeiros, este comportamento é associado a uma euforia quase infantil. Ri-se, muitas vezes, da própria desgraça. O Ronaldinho, em campo, costuma sorrir após perder uma oportunidade de gol. Quais são as razões histórico-culturais desta "gratuidade do riso", tão comum no Brasil?

Ronaldinho beim FC Barcelona Porträt

Ronaldinho, com camisa do Barcelona

De fato, é uma espécie de riso ambivalente, que não se sabe bem como interpretar – como alguém ri de uma perda? Mas acho que o futebol brasileiro só chegou a ser o que é porque relativizou a idéia do resultado a qualquer preço, do jogo que se destina a chegar a um certo número, que, mesmo mínimo, represente uma vitória.

A cultura de rua no Brasil é baseada no futebol como brinquedo, que se joga independente de qualquer resultado. Toda criança brasileira joga na rua, em praias, campos, como quem se diverte com a bola, ao invés de procurar o gol. Existe uma cultura extensiva desse tipo de prática lúdica.

É possível não tomar o resultado tão a sério. Portanto, no mundo onde se tornou muito difícil a gratuidade, tudo tem um preço, são justamente essas atitudes brasileiras no futebol e na música que provam que as atividades humanas não são todas redutíveis ao resultado, ao efeito final, ao valor de mercado.

Você diz que o futebol é a maneira pela qual a nação ritualiza um "acerto de contas consigo mesma". As Copas do Mundo seriam a cena principal deste acerto. Será que elas não são, antes de tudo, um acerto de contas com o Outro, com a hegemonia dos que ditam regras?

Pier Paolo Pasolini, italienischer Filmregisseur

Pasolini: 'gol cultural das nações periféricas'

Não há dúvida que o futebol representa um desrecalque para um povo periférico, colonizado, que encontra ali uma maneira de afirmar o seu valor. O futebol é a manifestação da cultura que mais deu lugar a isso.

Mesmo nos esportes olímpicos, a lista final das medalhas contempla claramente as maiores economias. Em matéria de esporte coletivo, o futebol é o que mais inverte essa relação. Ou seja, nações poderosas econômica e politicamente nem sempre vencem nações pós-coloniais e periféricas.

O fato de que o futebol tenha esse significado é muito singular, especial. É isso que faz dele um fenômeno tão mundial, pois culturas muito diferentes se expressam e ganham lugar. Onde é que a África, além da música, encontra uma expressão no cenário mundial, como nas Copas do Mundo? O futebol tem esse componente: de afirmação perante nações hegemônicas.

O próprio Pasolini, quando escreveu seu ensaio, dizia que a vitória do futebol-poesia era um gol cultural: um futebol que podia consagrar o Brasil perante a Itália ou a Inglaterra ou a Alemanha.

Na relação do Brasil consigo mesmo, existe uma questão de identidade dos brasileiros na relação com o jogo. Os brasileiros olham sua seleção como se ela fosse completamente vencedora ou inteiramente desvalorizada. É muito comum que passem de um entusiasmo completo para um desprezo total.

Neste sentido é que digo que o Brasil, nas Copas, se defronta consigo mesmo. É quando ele se olha no espelho e vai ver ou não ver a imagem que idealiza. Há uma espécie de ego ideal que o Brasil quer espelhar nas Copas e que, às vezes, é ilusório. Há aí uma luta entre a fantasia de si mesmo e a capacidade de se realizar.

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