1. Inhalt
  2. Navigation
  3. Weitere Inhalte
  4. Metanavigation
  5. Suche
  6. Choose from 30 Languages

Ciência e Saúde

Vazamento da BP ainda paralisa vidas no Golfo do México

Justiça da Louisiana começa a julgar processo contra a companhia britânica pela catástrofe, ocorrida há quase três anos, mas que continua a afetar moradores da costa do estado norte-americano.

"Nossas ostras estão todas mortas. Não pescamos há tempos", conta o pescador Byron Encalade em um de seus dois barcos, que há quase três anos já não desancoram. Eles estão enferrujando no porto de Pointe à la Hachevor, uma pequena localidade ao sul de Nova Orleans, onde o Mississippi deságua no Golfo do México – e onde, durante quase três meses no ano de 2010, ocorreu um vazamento de petróleo após a explosão da plataforma Deepwater Horizon. Foram mais de 4 milhões de barris despejados ao longo de 7 mil quilômetros de costa nos Estados Unidos, sendo o estado da Louisiana o mais afetado.

Como seu pai, Byron Encalade tirou o sustento durante a vida inteira da pesca de ostra. Sua família mora há gerações a leste do Mississippi, que ele descreve como "provavelmente a maior e mais rica fonte de ostras do mundo". Mas nas águas em que ele e outros pescadores sempre encontraram fartura, há quase três anos não há mais praticamente qualquer ostra.

Ostras não reproduzem mais

As ostras foram mortas não pelo petróleo que vazou, mas pela água doce usada para tentar manter o vazamento longe da costa. Quando há pouco sal na água, explica o biólogo Ed Cake, "elas incham, há falência de seus órgãos e elas estouram". O especialista trabalha para a Secretaria de Recursos Naturais da Louisiana. Mas, enquanto a causa do desaparecimento das ostras parece uma certeza, ainda não se sabe o porquê de elas não terem voltado a reproduzir na costa.

BP Deepwater Horizon Austernfischer

Pesca de ostras era única fonte de renda para muitos em Pointe à la Hache

Para o professor de biologia Thomas Soniar, da Universidade de Nova Orleans, trata-se de um ciclo normal. "Mesmo antes da catástrofe a quantidade de ostras era relativamente pequena", explica o especialista, que diz que 2000 foi o último bom ano para a pesca desses moluscos.

Já Ed Cake tem outra teoria. Ele explica que, quando surgem, as ostras precisam de algo para se agarrar, como, por exemplo, a casca de outras ostras. "Uma camada bem fina de sedimento já seria suficiente, já que elas não podem se firmar no solo", diz. Sedimentos como o que foi removido pelo despejo de água doce no mar.

Acordo com a BP 

Além disso, segundo Cake, o fato de toda a região ter sido exposta ao vazamento pode ter sido a razão para as ostras não encontrarem mais ambiente para crescerem. As ostras, ressalta ele, alimentam-se de micropartículas da água, que, por sua vez, ainda contêm petróleo altamente tóxico.

De acordo com a Secretaria de Caça e Pesca da Louisiana, mais de 1 milhão de barris ainda não foram recolhidos. "Se o petróleo entrar no aparelho digestivo, acontecem ferimentos, e os animais morrem", diz Ed Cake. 

Byron Encalade, presidente da Associação de Pescadores de Ostras, culpa o despejo de água doce. "Mas agora", afirma, "é um crime que a BP não assuma sua responsabilidade e cuide dos pequenos locais de pesca."

O pescador conta que, fora uma quantia inicial de 80 mil dólares, não recebeu mais nada da companhia. Todas as outras ofertas, explica, foram recusadas por serem baixas demais. Ele diz que só para substituir seus dois barcos por novos seriam necessários 200 mil dólares. Encalade vendeu sua empresa de caminhões para, pelo menos, fazer frente às despesas. Procurada pela DW, a BP não se pronunciou sobre o caso. 

Estudos sob sigilo

O advogado Joel Waltzer, que representa os interesses de alguns pescadores, diz que os acordos alcançados até aqui não foram totalmente desvantajosos para todos. Pois, segundo ele, os cálculos de compensação foram fixados com base numa perda de 30% da pesca.

BP Deepwater Horizon Austernfischer

Porto de Pointe à la Hache: praticamente paralisado desde o acidente da BP

Quem teve poucas perdas, como alguns pescadores de ostra a oeste do Mississippi, abriu um negócio. Mas para quem, como Byron Encalade e outros pescadores de Pointe à la Hache, perdeu tudo, os acordos não foram suficientes.

Outro problema, segundo Waltzer, é que os pescadores tiveram que tomar uma decisão num momento em que os efeitos de longo prazo ainda não estavam claros. Quem, no entanto, chegou a um acordo muito cedo, não pode mais fazer qualquer revindicação.

Waltzer espera agora uma decisão correta em prol das partes afetadas, já que, como afirma, ninguém sabe quando as ostras poderão ser pescadas novamente. Um estudo do governo é mantido sob sigilo. E, segundo o advogado, o objetivo do Estado é usá-lo como trunfo no processo contra a BP, que começa nesta segunda-feira (25/02), na Louisiana. "O governo deve sustentar o seguinte ponto de vista: ‘Enfraquecemos um pouco nossa posição quando divulgamos dados, mas o público tem o direito de saber", afirma.

Até lá, os moradores de Pointe à la Hache ficam às escuras. "Essa incerteza é o pior", diz Don Beshel, dono de um atracadouro na região. Até dois anos atrás, conta o norte-americano de 55 anos, a empresa gerava lucros. Pescadores comerciais e esportivos, assim como com petroleiras, compravam dela gelo, combustíveis e provisões e descarregavam ali suas ostras, peixes e camarões. Desde 2010, as vendas caíram 65%, e Beshel não sabe quanto tempo conseguirá manter o negócio aberto.

Perspectivas incertas

Billy Nungesser é líder da comunidade de Plaquemines, que pertence a Pointe à la Hache. Ele se prepara para um longo período de escassez. "Acho que pode durar dez ou 20 anos até que todo o petróleo desapareça, e isso significa que as pessoas não comerão mais frutos do mar daqui, mesmo se forem considerados saudáveis". Pois, completa Nungesser, enquanto permanecer uma camada de petróleo, significa que ainda há alguma coisa ali".

BP Deepwater Horizon Austernfischer

Billy Nungesser: risco de perder o negócio devido à catástrofe

Neste ínterim, os moradores de Pointe à la Hache tentam tocar a vida. E para Byron Encalade, aos 58 anos, isso significa morar novamente com o pai. "Meu pai paga a conta de luz, compra comida e tudo mais, o que eu não conseguiria”, conta. Toda a região, segundo ele, está vivendo da pensão dos idosos.

Cerca de cem pescadores ainda devem viver na região, mas Byron diz ser difícil de contar quem sai ou fica. Mas se as ostras não voltarem, será difícil para os pescadores continuarem ali, onde sempre moraram e ganharam a vida.

Autoria: Christina Bergmann, de Louisiana, EUA (rpr)
Revisão: Soraia Vilela

Leia mais