Usina de Busher é mais uma etapa na conflituosa relação Irã-Rússia | Notícias e análises internacionais mais importantes do dia | DW | 21.08.2010
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Mundo

Usina de Busher é mais uma etapa na conflituosa relação Irã-Rússia

Prevista inicialmente para estar concluída em 1999, a primeira usina nuclear iraniana ficou pronta somente em 2010 e é um exemplo das relações conflituosas e instáveis entre a Rússia e o Irã.

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Construção da usina de Busher começou nos anos 1970

O Irã precisou de 35 anos para conseguir inaugurar sua primeira usina nuclear. Os trabalhos de construção do reator de mil megawatts começaram em meados dos anos 1970, sob responsabilidade da empresa alemã Siemens. Com a Revolução Islâmica, em 1979, os alemães abandonaram o projeto, que só seria retomado em 1995, pelos russos.

Neste sábado (21/08), a usina localizada na cidade portuária de Busher, a 1.200 quilômetros ao sul de Teerã, começou a ser carregada com combustível fornecido pela Rússia, sob os olhares céticos do Ocidente. Críticos acusam o Irã de ter objetivos militares com o seu programa nuclear.

No caso da usina de Busher, a Rússia se comprometeu a recolher o material nucler após a utilização, o que afastaria o risco de ele ser usado para fins militares. Durante a inauguração, o responsável pelo programa nuclear iraniano, Ali Akbar Salehi, que estava ao lado do presidente da empresa russa Rosatom, Serguei Kirijenko, reiterou a importância da parceria.

"Confiamos no acordo com os russos, como já ficou comprovado durante a construção do reator. Além disso, temos um acordo de dez anos no qual os russos se comprometem a fornecer combustível para o reator. A vida útil de Busher é de 40 a 60 anos."

Histórico de divergências e conflitos

A usina é um sinal de que Moscou valoriza as boas relações com o Irã, historicamente marcadas pela incerteza. Há um ano, tudo parecia correr bem. Na época, auge dos protestos oposicionistas contra o resultado das eleições presidenciais, o presidente Mahmud Ahmadinejad viajou para a cidade russa de Ecaterimburgo para a chamada Conferência de Xangai.

Lá foi recebido de braços abertos pelo presidente russo, Dmitri Medvedev, e, apesar do polêmico resultado das urnas, recebeu os parabéns pela reeleição. A atitude de Medvedev causou irritação em vários países e também entre os oposicionistas iranianos.

"Morte à Rússia!", gritavam manifestantes oposicionistas nas ruas de Teerã, mostrando insatisfação com o apoio de Moscou ao governo de Ahmadinejad. Um dos manifestantes declarou a uma emissora alemã que os iranianos já tiveram várias experiências ruins com os russos, ao longo da história.

"Antes da Revolução de Outubro, e após várias guerras, a Rússia anexou grande parte do território iraniano. Durante a era soviética, a União Soviética exerceu grande influência sobre a política interna iraniana por meio de um partido-marionete. Agora, muitos iranianos acreditam que a Rússia quer jogar com as cartas da República Islâmica no cenário político internacional. Esses são alguns dos motivos para se ter cautela", afirmou o militante oposicionista.

Atrasos constantes em Busher

A manutenção de boas relações traz vantagens aos dois governos. Moscou sabe, por exemplo, que a prorrogação do debate sobre o programa nuclear iraniano desvia as atenções dos Estados Unidos da política externa russa.

Para Teerã, a parceria é importante porque a Rússia possui um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas e pode, assim, bloquear novas sanções contra o Irã. "Na verdade, estamos sentados no colo dos russos", disse então o militante oposicionista iraniano.

O quão delicada é essa relação ficou claro com os constantes atrasos durante a construção da usina nuclear de Busher. O prazo inicial para que a usina ficasse pronta era 1999, mas a data foi sendo seguidamente adiada. Teerã repetidamente acusava os russos de estarem agindo com tática, mas evitava maiores críticas.

A paciência dos iranianos se esgotou no final do ano passado, quando o ministro russo da Energia, Serguei Shmatko, anunciou que a usina poderia ser inaugurada, na melhor das hipóteses, no início de 2010. "Os russos estão brincando conosco, e já há 20 anos", afirmou o porta-voz da Comissão de Segurança do Parlamento, Mahmud Ahmadi-Biqash. "Dez anos de atraso não bastam?", perguntou o jornal Etemad .

A irritação era compreensível. Ahmadinejad espera bem mais do seu programa nuclear do que os mil megawatts de Busher. "Estamos dispostos a expandir nossas plantas nucleares em todo o país para 20 mil megawatts", afirmou recentemente.

Sanções contra Teerã

A relação voltou a esquentar no início de 2010, quando Ahmadinejad acusou a Rússia de defender posições dos Estados Unidos no debate sobre novas sanções contra o Irã. Deputados populistas defenderam no Parlamento iraniano que o Irã saísse em defesa dos muçulmanos da Tchetchênia, que estariam sendo oprimidos pelos russos. A Rússia, por sua vez, acusou o Irã de estar fazendo "agitação política" e aprovou as sanções.

A entrada em funcionamento da usina nuclear de Busher não deverá ser suficiente para normalizar de vez a conflituosa relação entre os dois países. Há mais um ponto de discordância entre eles: a Rússia hesita em enviar ao Irã o seu moderno sistema de defesa antiaéreo com mísseis S-300, apesar de já existir um acordo para isso.

Autor: Ulrich Pick (as)

Revisão: Soraia Vilela

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