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Mundo

Urnas vazias e desdém pelos donos do poder

A indiferença da população a Estrasburgo e Bruxelas ficou clara após as eleições ao Parlamento Europeu. Na Alemanha, quem foi às urnas encarou o pleito como acerto de contas com os tropeços do governo social-democrata.

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Europeus: parco interesse pelas eleições

As eleições para o Parlamento Europeu, iniciadas na quinta-feira (10) e encerradas no domingo (13), demonstraram que o cidadão do continente unificado está muito mais preocupado com o que acontece a seu redor do que com quaisquer temas "europeus". A maioria da população optou por ficar em casa – tanto nos antigos países-membros quanto nos recém admitidos do Leste Europeu. O alto índice de abstenção refletindo, assim, o desprezo pelas questões européias.

"Bruxelas parece longe demais. Para muitos, trata-se apenas de uma fonte de leite e mel para os próprios parlamentares. Fora isso, um lugar onde são criados obstáculos burocráticos. Na realidade, no entanto, a Europa está muito mais próxima dos cidadãos do que eles pensam. Oitenta por cento das leis despachadas pelo Parlamento alemão (Bundestag) são a mera transposição do Direito europeu para o Direito nacional. Tão longe assim Bruxelas não é, mas os políticos não conseguiram explicar isso para os eleitores", comenta o jornal regional Ostsee Zeitung.

Apoio geral a qualquer oposição

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Pat Cox, atual presidente do Parlamento Europeu

Fato é que a maioria do eleitorado demonstrou não se importar com quem ocupa as cadeiras do Parlamento em Estrasburgo. E os que se deram ao trabalho de ir votar o fizeram como um acerto de contas com seus próprios governos.

Tanto na Alemanha, Itália, França, Dinamarca, Áustria e Portugal, quanto nos recém admitidos Polônia, Estônia, Letônia, Malta, Eslovênia, República Tcheca, Hungria e Chipre, os partidos de oposição venceram em disparada. Curiosamente, Espanha e Grécia foram as duas únicas nações da UE em que os partidos governistas levaram vantagem nas urnas. Estes partidos, note-se, foram eleitos há pouco. Ou seja, é provável que a margem de insatisfação ainda não tenha sido cruzada.

O premiê britânico, o presidente francês, o primeiro-ministro polonês e o chanceler federal alemão foram, por exemplo, explicitamente punidos pelos eleitorados nacionais. "Os alemães continuam a enxergar a Europa única e exclusivamente através dos óculos nacionais", estampou o diário econômico Handelsblatt. Sabe-se que em todos os países foram temas como a guerra do Iraque, o medo do terrorismo ou as reformas sociais os fatores determinantes da escolha.

Assuntos de âmbito continental e com efeitos a longo prazo, como a Constituição Européia, as subvenções agrárias ou a divisão do bolo financeiro da gigante UE, parecem ter sido ignorados pelo eleitor. Ou seja, a ida às urnas está longe de ter sido uma "eleição européia". Muito longe disso, tratou-se de eleições nacionais simultâneas em 25 países.

O irlandês Pat Cox, que se despede da presidência do Parlamento em Estrasburgo, observa os efeitos da advertência do eleitorado aos respectivos governos. "Precisamos encontrar um caminho que envolva mais a Europa nas eleições", resume.

Vantagem para pequenos e radicais

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Daniel Cohn-Bendit, parlamentar verde em Estrasburgo, comemora resultados nas urnas

Os vencedores do pleito foram, em suma, os pequenos partidos e, paradoxalmente, facções avessas à UE – provavelmente os únicos ainda capazes de convencer o eleitor a sair de casa. Entre estas facções minoritárias estão os Verdes, que cresceram sensivelmente e passam a ocupar 39 cadeiras no Parlamento. Na Alemanha, o eleitor legitimou também liberais e neocomunistas (PDS), estes últimos surpreendentemente estáveis após uma série de crises internas nos últimos anos.

"Para Verdes e liberais valeu a pena terem priorizado, ao contrário dos outros grandes partidos, temas europeus", observa o diário suíço Neue Zürcher Zeitung. Ainda assim, 76 parlamentares que representarão seus países em Estrasburgo e Bruxelas são membros de "outros" partidos – um leque que vai desde extremistas de direita a agrupamentos anti-UE.

A grosso modo, os vencedores dessas eleições são os conservadores, que continuam compondo a maioria do Parlamento Europeu. A social-democracia levou, no caso específico alemão, uma bofetada do eleitorado, insatisfeito com os cortes sociais e com o caos que rege nos últimos meses as políticas orçamentária e fiscal.

Pelo que parece, o cidadão perde gradualmente a confiança em um chefe de governo que havia vencido as últimas eleições nacionais graças a fatores "casuais" – leia-se aqui a rejeição à guerra do Iraque e as inundações no Leste do país.

Social-democracia: crônica de uma morte anunciada?

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Premiê Gerhard Schröder (esq.) e Franz Müntefering, presidente do SPD

Para o SPD (Partido Social Democrata) do premiê Schröder, este foi o pior resultado de uma eleição em nível nacional desde o pós-guerra. O desastre já era esperado, mas não sua amplitude. "Na Alemanha, o SPD está à beira do precipício na condição de partido popular", sentencia o semanário Der Spiegel, enquanto o diário Süddeutsche Zeitung defende: O partido "está sendo responsabilizado por tudo o que não dá certo na Alemanha e na Europa, tendo se tornado um bode expiatório".

É inegável que a oposição democrata-cristã tenha saído fortalecida do pleito. Se não por seus próprios méritos, em conseqüência da fragilidade alheia. E, quanto mais o tempo passa, mais previsíveis se tornam os resultados das próximas eleições nacionais, em 2006. "Se Schröder não conseguir reconquistar a confiança do eleitorado, os próximos 12 meses vão ser a crônica da morte anunciada de seu governo", conclui o Süddeutsche Zeitung.

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