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Urbanização de favelas é obra de arte na "documenta" 12

A arte subiu o morro na "documenta" 12. DW-WORLD.DE entrevistou o arquiteto carioca Jorge Mario Jáuregui, convidado pela "documenta" deste ano para expor seu trabalho de urbanização de favelas no Rio de Janeiro.

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Jorge Mario Jáuregui em Kassel: o traço de Lúcio Costa e o perfil do Rio

A obra do carioca Jorge Mario Jáuregui é uma das poucas obras de arquitetura presentes na "documenta" deste ano. Em Kassel, DW-WORLD.DE conversou com o arquiteto sobre seu trabalho de urbanização de favelas no Rio de Janeiro, considerado obra de arte pelos curadores da "documenta" 12.

DW-WORLD: Como você está participando da documenta 12?

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Urbanização de favelas na 'documenta' 12

Jorge Mario Jáuregui: Eu participo, aqui, com este espaço em que apresento registros do processo de concepção de como se gera uma idéia em termos espaciais, urbanos principalmente, mas também arquitetônicos. Depois participo, juntamente com a Faculdade de Arquitetura de Kassel, de um workshop. Aí vai se definir um grupo de estudantes que participará da construção do meu objeto, que é o terceiro momento da minha participação na "documenta". Vamos construir um objeto no parque do Castelo Wilhelmshöhe.

O que este objeto tem a ver com seu trabalho nas favelas do Rio?

É um ambiente de 3 por 5 metros, com altura de 2,26m, que eu "li" há alguns anos atrás em uma favela do Rio, o Vidigal, quando um jovem casal me convidou, à sua casa, para me mostrar um vídeo que fizeram sobre a vida na favela. Nesse espaço, eu me senti muito bem. Íamos subindo a escadaria do Vidigal e ele abriu uma porta, a única abertura do ambiente, e disse "É aqui".

Ele me falou que havia construído isso embaixo da casa da tia. Lá havia uma cama, como que japonesa, móveis baixinhos, e, em um cantinho, um módulo de 1x1m onde estava o banheiro. Com a porta de sua vizinha aberta do outro lado, ele falava, sentado na cama, comigo e com a vizinha. Era um espaço contínuo, o público e o privado fluindo facilmente. Eu comecei a pensar na questão de que tamanho não é fundamental, mas como se faz a percepção do espaço de forma racional e corporal, ou seja, como você interage com o espaço.

E a relação do objeto com a documenta?

Comecei a pensar nos temas da documenta: A Migração da Forma, a Relação com a Modernidade e a questão "O que é a 'mera vida'"? – temas que eu interpreto da minha maneira. O espaço que me interessa é o espaço que não tem nem interior nem exterior, mas um contínuo.

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Na favela, cada edifício público é um monumento

A construção tem a ver com a Migração da Forma, e minha relação com a modernidade é através da busca do essencial, que vi naquele loft da favela que tinha tudo o que precisava na sua essência. A terceira questão, "O que é a mera vida?", tem a ver com a vulnerabilidade com a vida na favela. A carência da saúde, da segurança, a vulnerabilidade no espaço físico. É difícil andar pelas escadarias com suas diferentes alturas de degraus.

Como um projeto urbanístico pode restaurar as condições de convivência na favela?

A vida na favela é de alta insegurança, provocada, primeiramente, pela arbitrariedade da polícia, depois, pela do traficante. Tudo isso fruto da ausência e negligência, durante várias décadas, do poder público, que deu no que deu, ou seja, o surgimento de uma autoridade paralela por falta da autoridade real do poder público. Para restaurar as condições de convivência na favela é necessário instaurar a trégua social.

Um projeto urbanístico funciona como um instrumento para a trégua, para depor as armas, através de uma atitude muito mais inteligente de negociar o conflito entre o público e o privado, o comunitário e o individual.

Mas isso não lembra a idéia de Le Corbusier Arquitetura ou Revolução, ou seja, de que a arquitetura poderia modificar o social, hoje muito contestada?

Hoje, somos bem menos pretensiosos em relação à idéia que tinha Le Corbusier. Não se trata mais de Arquitetura ou Revolução, mas da transformação do que existe. A revolução não há mais. O que hoje podemos é recompor as diferenças, criar uma condição de diálogo dentro da hibridação cultural, estética, econômica, ideológica que o campo contemporâneo determina.

Até que ponto os habitantes da favela aceitam sua condição urbanística. Será que eles não prefeririam os padrões do urbanismo oficial – a rua, a praça, a casinha com jardim?

A questão não é somente a favela. A questão é da sociedade contemporânea, tanto para um habitante do Leblon ou Ipanema, como para um da Rocinha ou do Complexo do Alemão. A questão é de que forma se pode sair do modelo mercenário imposto pela especulação imobiliária que controla aquela desgraça que se chama Barra da Tijuca, por exemplo, com um mar de carros dividindo o espaço entre os edifícios.

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Projeto é fruto da hibridação cultural, estética, econômica, ideológica

No diálogo instaurado por um projeto urbano, temos que permitir que os modelos que se trazem carregados na memória de cada sujeito possam ser modificados. Entre a favela e a Barra da Tijuca, temos que ser capazes de construir um espaço que permita uma nova idéia de habitabilidade no planeta, em particular em um local ainda mítico como o Rio de Janeiro, onde ainda se pode viver dentro da natureza, porque sempre o perfil da natureza ainda está por cima daquilo que o homem é capaz de construir.

Parece que o símbolo de sua exposição, aqui na documenta , é Brasília e Rio juntos. É o traço de Lúcio Costa com a paisagem do Rio de Janeiro. O que você quer dizer com isto?

Lúcio falava de massa verde e massa construída, de que tinha-se que buscar a relação entre as duas. A minha leitura disto é que o Rio continua sendo um modelo "ideal", onde ainda é possível construir lugares, onde se possa viver em uma relação inteligente, não predatória, com a natureza.

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