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Especial: onde a educação funciona

Uma escola particular para quem não pode pagar

Em Itapecerica da Serra, na Grande São Paulo, colégio filantrópico é tido como exceção em meio ao caos. Ele atua em parceria com a prefeitura e tem ajuda de doações para atender quase 500 crianças carentes.

Colegio Mao Amiga (DW/L. Frey)

Alunos chegam ao Mão Amiga: colégio foi fundado há dez anos por grupo de padres e um médico americano

Michele Thamara Alves tem 14 anos e sonha em um dia trabalhar na Bolsa de Valores ou como arqueóloga. Depois de ajudar na faxina, ela estuda todas as tardes para alcançar esse objetivo. Numa rua de asfalto mal-acabado na periferia de Itapecerica da Serra, na Grande São Paulo, a jovem divide uma casa de três cômodos com a avó e os dois irmãos menores. E a escola que lhe plantou o sonho profissional fica a 20 minutos a pé dali, incrustada em casas de fachada coloridas e laterais de blocos à vista.

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O Colégio Mão Amiga foi fundado há dez anos no bairro Jardim Santa Julia, uma região dormitório de São Paulo. No início, a ONG tinha apenas 48 alunos de quatro anos de idade, que não pagavam nada pelo estudo. Foi-se ampliando uma série a cada ano, e hoje são 490 alunos, todos com bolsa – integral ou parcial.

Michele estudou desde pequena ali e hoje está no oitavo ano. Criada pela avó, a doméstica Pedralina da Silva, a jovem tem bolsa integral. Para frequentar a escola, os alunos têm que comprovar renda familiar per capita de no máximo um salário mínimo e meio por mês.

"Ter meus netos aqui é um privilégio. Eu trabalhava em casa de família e via as crianças em escola particular. Nunca imaginei que meus netos pudessem ter uma oportunidade assim”, diz Pedralina, que está desempregada. "Antes eu pagava uma parte, mas foi ficando difícil e recebi bolsa para que não tirasse a Michele daqui.”

Cercada por criminalidade

Com paredes bem pintadas e mesas e carteiras em perfeito estado, o colégio fica a 12 quilômetros do centro de Itapecerica da Serra. A cidade, com quase 170 mil habitantes, já ocupou manchetes devido a seus altos índices de violência. Segundo dados do IBGE, mais da metade da população do município é considerada pobre.

Sandra de Oliveira, diretora pedagógica do Mão Amiga, afirma que pais relatam haver muita droga na região. "Temos alunos cujo pai está preso ou fugido do PCC ou da polícia. Ou cujo irmão está envolvido com drogas”, conta. A comunidade é grande – são 15,3 mil habitantes na região onde o colégio está inserido –, e, apesar do envolvimento da escola com as famílias, não é possível conhecer todos os casos, afirma a diretora.

Para Michele, o colégio contribui para que os alunos não se envolvam com criminalidade. "Quem tem um intuito na vida não perde tempo com esse tipo de coisa”, diz. Quando se formar no Mão Amiga, que por enquanto só oferece ensino fundamental, ela pretende ir para uma escola técnica estadual (Etec) e depois para a faculdade.

Para alunos do Mão Amiga e seus pais, a diferença entre o colégio e escolas públicas é gritante. "Tenho muitos amigos que estudam em escola pública. Eles quase não têm aula, não se esforçam, não têm respeito. A média lá é cinco, e aqui é sete”, diz Michele.

Aula no Colégio Mão Amiga

Professora e alunos durante uma aula no Mão Amiga: no início, eram 48 crianças e adolescentes; hoje, são 490

"Tenho um neto de 15 anos que está na escola pública e não aprendeu nada. A Michele só tem nota dez. Acho que se ela estivesse em escola pública, talvez nem estivesse estudando”, diz Pedralina.

Além da grade curricular obrigatória, aprovada pela Diretoria Municipal de Ensino, a escola oferece atividades complementares, como aula de percussão aos sábados. A disciplina de formação católica também faz parte do currículo, mas as famílias não têm que seguir a religião para terem os filhos aceitos no colégio.

Parceria público-privada

A iniciativa de fundar o Colégio Mão Amiga partiu de um grupo de padres e de um médico americano que queria investir num projeto social no Brasil. O terreno foi doado pela prefeitura de Itapecerica da Serra, que hoje garante a alimentação dos alunos – dois lanches e almoço.

A prefeitura também está envolvida nas doações à escola, com o Fundo Municipal da Criança e do Adolescente (Fumcad). Quem quer deduzir a doação do imposto de renda faz isso por meio do fundo, que repassa, então, a verba à entidade escolhida pelo doador.

Além disso, a escola é financiada em grande parte por empresas e pessoas que apadrinham as crianças. Hoje 139 padrinhos apoiam os alunos do Mão Amiga com doações mensais a partir de 12 reais, que representam 31% das receitas da escola.

Sem fins lucrativos, o colégio é gerido pela ONG internacional Vis Foundation. "É uma escola filantrópica, mas costumo dizer que é uma escola particular para quem não pode pagar”, define Juliana Malheiro, diretora-geral do Colégio Mão Amiga.

Michele Thamara Alves (DW/L. Frey)

Michele, de 14 anos, estuda todas as tardes, para um dia realizar sonho de trabalhar na Bolsa ou como arqueóloga

Protegida pela comunidade

Malheiro destaca que, apesar de ser difícil para muitas famílias pagar uma parte da mensalidade, isso foi necessário para que a escola pudesse sobreviver e agregou valor a ela. Por o ensino não ser de graça, os pais cobram os alunos e os professores. A maioria das famílias banca entre 10% e 40% do custo mensal do aluno, o que significa uma contribuição entre 50 reais e 200 reais por mês.

"Aos poucos estamos colocando na vida dessas pessoas a importância de investir na educação dos filhos e essa esperança de que as crianças possam ter um futuro diferente do deles, com mais opções”, diz Malheiro. "Queremos quebrar o ciclo da pobreza.”

No início, o colégio era visto como a escola dos privilegiados e foi até alvo de roubos e depredações. Mas aos poucos, foi conquistando a comunidade. "Hoje os pais cuidam da escola, fazem questão de falar bem”, diz Malheiro, que é especialista em terceiro setor.

"A minha maior angústia é pensar na escala. São cerca de 500 crianças que vivem num oásis no meio do caos”, afirma a diretora-geral. "Tem muitas ONGs que poderiam fazer o que estamos fazendo com a ajuda do Estado. Esse sistema híbrido seria maravilhoso. Seria uma revolução para a educação”, conclui.

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