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Cultura

Um surdo escuta Schönberg com minúcia

Diretor norte-americano Robert Wilson encena monodrama "Erwartung", de Arnold Schönberg, na Staatsoper de Berlim.

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Cantora Anja Silja contracena com Bob Wilson na performance 'Prologue Deafman Glance', Staatsoper, Berlim

Uma mulher vê-se abandonada por seu amante. Dividida entre amor e ódio, ela vaga de madrugada em torno da casa em que suspeita encontrá-lo com sua nova amante. Não só a escuridão, mas seu desespero a desorientam, levam-na a confundir o real e o imaginado. A espera é vã, termina como começou: uma mulher sente falta de seu único amado.

O monodrama Erwartung, do compositor vienense Arnold Schönberg (1874–1951), surgiu de um acaso. No verão de 1909, ele conheceu Marie Pappenheim, uma estudante de Medicina com aspirações literárias, e a desafiou a escrever um libreto de ópera para ele. Três semanas depois, ela lhe entregaria um monodrama de uma mulher ensandecida pela ausência do amante.

Ambigüidade da expressão

O texto altamente dramático e entrecortado, que alterna os mais diversos estados psíquicos com extrema rapidez, foi uma deixa propícia para o compositor aprofundar ainda mais a música de intensa expressividade que caracteriza este seu período de criação.

Erwartung faz parte de uma das fases mais produtivas de Schönberg, entre 1907 e 1909, uma transição entre suas primeiras composições influenciadas pelo romantismo tardio e a fase posterior da música atonal, um intervalo geralmente identificado com a estética expressionista.

A expressividade de Erwartung ("expectativa", uma palavra que evoca "espera" e "esperança") se deve à ambigüidade dos sentimentos da mulher, indecisa entre a vingança pela pretensa traição do amante e o lamento por sua perda. Será que ele está realmente morto, ou o cadáver que ela afirma achar numa floresta é apenas projeção da morte de seu amor? As nuances textuais e musicais deixam o espectador/ouvinte indeciso.

Vanguardas em sobreposição

Robert Wilson Direktor der Oper in New York

O diretor Robert Wilson

É justamente essa ambigüidade de Erwartung que parece ter servido de ponto de partida para a encenação de Bob Wilson, apresentada na Staatsoper de Berlim (sob regência de Daniel Barenboim) juntamente com a performance muda Prologue Deafman Glance.

Utilizando-se, como sempre, de seu repertório fixo de imagens e figurinos estilizados em poucas cores e formas, Wilson deixa amplo espaço de atuação para a cantora Anja Silja, interferindo somente com mínimos jogos de luzes e alterações de pano de fundo.

A complexidade de Erwartung ganha novas nuances sob o efeito do minidrama mudo que Wilson antepõe à peça de Schönberg. Ele mesmo atua, juntamente com Anja Silja e quatro crianças figurantes, na performance que corresponde ao prólogo do quarto ato de Deafman Glance (Olhar de Surdo), uma peça muda de sete horas que o tornou internacionalmente conhecido como diretor em 1970.

Lentidão e suspense

O prólogo mostra, lado a lado, a mesma cena: um adulto leva a um menino, sentado num banco lendo, um copo de leite, para retornar logo depois com uma faca e matá-lo. O mesmo se repete logo depois com uma menina que está deitada dormindo. Tudo isso dura cerca de 45 minutos, pois os gestos são executados com extrema lentidão.

O ato de ir até o console, encher o copo de leite ou limpar a faca com um lenço, e se dirigir à criança é praticamente o mesmo do ponto de vista gestual. A desaceleração das ações torna a ambigüidade ainda mais intensa.

Para o espectador que procura continuamente adivinhar o que está para acontecer, os movimentos lentos dão margem a inúmeras interpretações sobre a intenção de quem os executa. A suspensão temporal leva ao suspense dramático.

Ópera silenciosa

Quando Deafman Glance estreou nos EUA, o crítico de dança Edwin Denby denominou a obra uma "ópera silenciosa". De fato, como confirma Bob Wilson, a peça é estruturada através do ritmo de ações rápidas ou lentas. A forma de lidar com tempo, espaço, ritmo e repetições também é claramente musical.

Deafman Glance surgiu da intensa convivência de Bob Wilson com um menino surdo-mudo, incorporando seu imaginário.

Apesar de criticado por vir repetindo a mesma linguagem formal desenvolvida nos anos 70, com seu repertório gestual pré-codificado e sua conhecida estética de designer, Bob Wilson mostra que ainda tem muito a dizer.

Apesar da repetição, ele sempre consegue descobrir muita coisa sobre as peças que encena, sobretudo através de seu poder de abstração, reflexão conceitual e associações formais – coisas bastante raras, pelo menos no teatro alemão.

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