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Brasil

Um rolezinho para "passear, conhecer gente nova e se divertir"

Os rolezinhos que os jovens de periferia estão organizando em shopping centers viraram notícia em todo o Brasil. A Deutsche Welle acompanhou dois deles em São Paulo.

Uma semana depois de repressão policial no Shopping Itaquera, jovens se reúnem em rolezinho no Parque Ibirapuera

Uma semana depois de repressão policial no Shopping Itaquera, jovens se reúnem em rolezinho no Parque Ibirapuera

Ele é conhecido como Alemão, explicam os amigos, por ser "branco, alto e de olhos claros". É também famoso, ou "famosinho", como diriam as fãs, que chegam a chorar quando o veem pessoalmente. O nome real do ídolo é Plínio, um jovem de 17 anos, organizador do rolezinho do sábado (18/01), no Parque do Ibirapuera, em São Paulo.

Adolescentes como Alemão são os protagonistas desse tipo de encontro, marcado geralmente por redes sociais e que pode reunir dezenas ou até milhares de jovens. Os participantes, em grande parte da periferia, reúnem-se comumente em shopping centers, mas também em outros espaços, como parques.

Em alguns casos foram registrados furtos durante os rolezinhos, que passaram a ganhar notoriedade em dezembro, quando foram organizados em alguns shoppings da cidade de São Paulo, e após uma ação policial no início de janeiro, quando um rolezinho no shopping Metrô Itaquera foi impedido com o uso de bombas de gás e balas de borracha contra os participantes.

Nos encontros, os jovens andam em grupos pelos corredores, cantando funk e batendo palmas. Os vendedores e outros frequentadores param para olhar e muitos se afastam, com medo. "Não fiquei assustada, mas não consigo me sentir confortável com isso, principalmente por causa do comportamento", afirma Tarsia Jarcovis, de 27 anos, sobre o rolezinho no Shopping Metrô Tatuapé, no último sábado.

No parque em vez do shopping

Os encontros começaram a ter repercussão nacional em janeiro. A fama foi tão grande que até atraiu novos participantes. Para Alan, de 16 anos, é a primeira vez em um rolezinho. "Vi na TV e decidi vir para saber como é", conta, acompanhado de um amigo mais experiente no assunto. Ambos vieram de Parque do Lago, periferia da zona sul de São Paulo, para o evento.

A repercussão dos rolezinhos aumentou após o encontro no Shopping Metrô Itaquera, quando a Polícia Militar usou bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha para dispersar milhares de jovens. Depois do incidente, diversos centros comerciais conseguiram liminares na Justiça proibindo os eventos, prevendo multa de até R$ 10 mil para quem participasse.

Mesmo assim, dezenas de outros rolezinhos foram marcados, e a programação segue intensa até fevereiro, não só em São Paulo, mas em todo o Brasil. Com as proibições, no entanto, jovens como Alemão tiveram que buscar alternativas para os encontros.

"No shopping está dando muita bagunça, então marcamos no parque", explica. O adolescente afirma que no seu bairro, Capão Redondo, na zona sul da cidade, não há espaços de lazer, como o Parque Ibirapuera. "Tem uma pracinha, mas não dá para ficar lá porque é muita 'noia'", diz, em referência a usuários de drogas no local.

Quórum baixo

A opção no parque parece não ter sido muito popular. Apesar das 3 mil confirmações de presença no Facebook, menos de 50 jovens compareceram. "A minha mãe não me deixa mais ir em rolezinho no shopping, ela está com medo. Mas aqui não é a mesma coisa, não tem lanche nem vitrine", afirma Letícia, de 16 anos. A maioria quer mesmo é ir aos shoppings, diz.

Para Paulo Sérgio, de 17 anos, morador do bairro Fazenda do Carmo, na zona leste de São Paulo, os centros comerciais são ambientes mais seguros. "No parque é perigoso, a gente fica com medo de ser roubado."

Segundo o inspetor da Guarda Civil Ricardo Franco Melo, houve um reforço de 40% do efetivo de segurança do parque. O objetivo era monitorar o encontro, que transcorreu sem incidentes.

A falta de quórum, entretanto, não incomodou as fãs de Alemão, que o cercavam a todo momento. Com os cabelos alisados, shorts curtos e blusas justas, as meninas também marcavam presença com seus perfumes, que logo dominaram o ambiente debaixo da marquise do Ibirapuera. "A gente vem pra conhecer os ídolos, a gente pega carinho por eles", conta Beatriz , de 15 anos.

"Chamar a atenção" é imprescindível

O famoso do dia, o Alemão, tem 4 mil seguidores no Facebook. O jovem posta muitos comentários, como "quando é amor vale a pena mudar a vida" ou "em terra de ciumenta celular desligado é traição", além de muitas fotos de si mesmo. "Ele parece modelo e escreve umas coisas tão bonitas", diz Letícia, explicando os motivos da fama do adolescente.

As razões para realização dos rolezinhos são unanimidade: "passear, conhecer gente nova, se divertir". Na ala masculina, um objetivo é mais recorrente: "se dar bem com as meninas". E funciona? "Graças a Deus, sim!", afirma Júlio Cesar, de 17 anos.

Um dos segredos, segundo ele, são as roupas. Polo Wear, Abercrombie, Hollister, New Era, Oakley, Adidas, Puma, Quicksilver. Os rolezinhos são um desfile de marcas. "Isso chama a atenção das meninas", assegura Júlio. Bonés, correntes, óculos e um sorriso com aparelho colorido completam o visual.

Para os jovens do rolezinho, "chamar a atenção" é imprescindível. "Chego cantando porque quero que olhem para mim", explica um dos participantes do rolezinho no Shopping Metrô Tatuapé, no sábado. O evento, que reuniu cerca de 30 jovens, ocorreu sem tumulto, apesar da liminar conseguida pelo centro comercial impedindo o encontro.

Tênis de R$ 1.000

Chamar a atenção e usar roupas de marca fazem parte de uma lógica de consumo, presente nas letras do funk ostentação. O estilo musical, nascido em São Paulo, tem origens no funk carioca e aborda temas como dinheiro, mulheres, roupas, carros e motos. MC Daleste, assassinado no ano passado, e MC Guimê são alguns dos ídolos dos jovens do rolezinho.

Para os adolescentes, o status custa caro. "O meu tênis é de mil", mostra, orgulhoso, um dos jovens no encontro do Shopping Metrô Tatuapé. Na roda de cerca de cinco participantes, três tinham tênis que ultrapassam os R$ 1.000 cada.

Paulo Sérgio, que também vai aos encontros, trabalha como atendente de telemarketing e ganha um salário de pouco mais de R$ 600. Com o dinheiro, ajuda os pais com cerca R$ 250 por mês – o mesmo valor do tênis que leva no pé.

"As classes C e E são as que mais consomem no Brasil. São as que mais ostentam. Conheço gente que compra bolsa Victor Hugo e parcela em mil vezes", garante Duda Mel, de 22 anos, promoter de funk e frequentador de rolezinhos.

Jovens reclamam de preconceito

Para Duda, a decisão de alguns shoppings de impedir os encontros é motivada pelo preconceito. "A gente serve para comprar. Para passear, não?", reclama o promoter, que pretende ingressar numa faculdade de economia no próximo ano. Como ele, a maioria dos jovens é contra a proibição. "Mesmo quando não estou no rolezinho, sempre tem um que me olha feio, porque é jovem, de cor, da periferia", afirma Alemão.

Alguns, como Paulo Sérgio, já não acreditam em mudança. "É impossível acabar com o preconceito", diz, resignado. O jovem estava presente no rolezinho do Shopping Metrô Itaquera, quando a policia interveio. "Não fiz nada e um deles me empurrou com o cassetete. Fiquei só falando: ‘calma', calma'".

Boa parte dos jovens considera que a reação da polícia foi exagerada. "Acho errado proibir, mas também acho errado ir lá para tumultuar", diz Paulo. Os participantes costumam condenar veementemente os roubos e asseguram que são pessoas de fora que se infiltram para furtar.

A experiência de ser barrado no shopping é marcante para os jovens. "Danos morais, né? Me senti ofendido.Você paga um preço alto, sem ter feito nada", reclama Wesley , de 16 anos, que já foi a três rolezinhos.

Duda afirma que se sentiu "excluído", "fora da sociedade". E protesta, prolongando as palavras para dar ênfase: "Temos o nosso direito de expressão e de consumir muitooooo".

Com as proibições, os jovens admitem que os rolezinhos foram um pouco "esvaziados". Segundo eles, os pais estão impedindo os filhos de irem aos shoppings. Paulo Sérgio se preocupa: "Rolezinho é da hora, espero que nunca acabe".