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Cultura

TV paquistanesa lança série em que heroína veste burca

Desenho animado gera polêmica ao vestir protagonista com véu islâmico, que para muitos é símbolo de opressão. Criador diz que objetivo do programa, que não tem violência, é abordar temas como direitos das minorias.

A super-heroína paquistanesa Jiya tem o rosto e o corpo cobertos por um véu negro, que deixa à mostra apenas os olhos e os dedos das mãos. Mas a protagonista da série de animação Burka Avenger usa essa vestimenta apenas nas cenas de combate, em que luta com seus superpoderes contra o mal no Paquistão. Suas armas são livros e canetas.

A ideia é sinalizar que a força desses objetos é maior que a da espada, explica o criador da série, Haroon Rashid. "Queremos mostrar ao espectador que a educação pode resolver muitos problemas", diz, em entrevista à DW.

A série, com 13 episódios de 22 minutos cada, estreou no último domingo (28/07) no Paquistão. Ela conta a história da super-heroína e professora Jiya e também de três crianças da cidade imaginária Hawalpur.

Véu como disfarce

A protagonista veste na verdade um niqab – véu islâmico que, diferentemente da burca, deixa os olhos à mostra. E a decisão de vesti-la assim esbarrou em resistência tanto dentro quanto fora do Paquistão. O véu é tido por muitos como um símbolo da opressão às mulheres.

"No Ocidente, a burca tem um caráter simbólico muito forte e, por isso, costuma assustar", explica Sabine Schiffer, do Instituto de Responsabilidade da Mídia, localizado na Alemanha. "Mas a super-heroína não corresponde ao clichê: ela luta habilidosamente contra a desigualdade."

Em Burka Avenger, o véu remete à roupa de um ninja. "Ela serve apenas para esconder a identidade, como fazem também outros super-heróis", justifica Rashid. Além disso, a ideia era dar à série um toque da cultura local.

O criador optou propositalmente contra uma vestimenta que remetesse às usadas por personagens como Mulher-Gato e Mulher-Maravilha. Para ele, muitas das super-heroínas ocidentais mostram demais o corpo, transformando as mulheres em objetos sexuais.

Pakistan Zeichentrickserie Burka Avenger

Com 13 episódios, Burka Avenger utiliza linguagem voltada ao público infantil

Burka Avenger aborda assuntos que vão da proteção do meio ambiente até os direitos das minorias. Embora contenha críticas à sociedade paquistanesa, utiliza também uma linguagem divertida e adequada ao universo infantil. Cenas de combate envolvendo brutalidade dão lugar a diálogos leves.

Em um dos capítulos, por exemplo, um mágico constrói um robô que deve dominar o mundo. Os planos eram enviar o robô a uma viagem pelo planeta, mas o mágico não consegue um visto de entrada na União Europeia para ele.

O primeiro capítulo mostra os conflitos em torno de uma escola, localizada em um povoado, prestes a ser fechada. A heroína de burca, porém, pode evitar que isso aconteça. Trata-se de uma situação familiar entre os paquistaneses. Por serem contra a educação das mulheres, os talibãs fecharam centenas de escolas no país.

A história lembra sobretudo o caso de Malala Yousafzai. Em outubro de 2012, extremistas tentaram matar a jovem quando ela voltava da escola para casa. A jovem havia criticado abertamente os talibãs e se engajado em prol da educação das mulheres no país.

Público paquistanês como alvo

Com a série, Rashid pretende alcançar principalmente o público paquistanês. No momento, a animação está sendo transmitida por um canal de TV privado em urdu, a língua oficial do Paquistão. Planeja-se transmiti-la também em pachto, um dos idiomas oficiais do Afeganistão e falado também no noroeste paquistanês.

Pakistan Pop Sänger Aaron Haroon Rashid

Ex-membro de uma banda, criador Haroon Rashid também interpreta músicas da série

Rashid desenvolveu também um aplicativo para celulares para acompanhar a série. "Pois foi assim que tudo começou ", conta ele sobre a origem da animação. Há três anos, Rashid e um especialista em TI desenvolveram um aplicativo sobre uma mulher que lutava de burca. Para divulgar o aplicativo, criaram uma animação. O sucesso foi tamanho que Rashid resolveu transformá-la em série de TV.

A maior parte da série foi financiada pelo próprio criador. A trilha sonora também foi criada por ele, pois Rashid já foi membro de uma banda relativamente popular no Paquistão. Cada capítulo apresenta canções escritas e interpretadas por ele ou por algum astro do rock paquistanês.

Segundo o criador de Burka Avenger, o principal objetivo da série é fazer com que as pessoas riam, ou seja, divertir o público e disseminar mensagens sociais positivas à juventude. Entre elas estão as de que não há diferença entre as pessoas e a educação contribui para melhorar as condições de vida.

"A mensagem da série de que é possível conseguir tudo através da educação não corresponde à realidade do Paquistão", diz Schiffer. Infelizmente, afirma a especialista alemã, livrar-se das amarras do sistema social de classes não é tão fácil assim.

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