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Alemanha

Turíngia terá primeiro governador esquerdista da Alemanha

Bodo Ramelow obtém maioria apertada para governar o estado nos próximos cinco anos. Escolha é encarada com desconfiança no meio político, pois partido A Esquerda tem origem no SED, que regia a antiga Alemanha comunista.

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Bodo Ramelow, novo governador turíngio

A Alemanha elegeu nesta sexta-feira (05/12) seu primeiro governo estadual sob o comando do partido A Esquerda: Bodo Ramelow, de 58 anos, foi escolhido para reger o estado da Turíngia, no leste da Alemanha, pelos próximos cinco anos. A coalizão formada pela Esquerda e os partidos Social-Democrata (SPD) e Verde garantiu a Ramelow 46 votos, uma maioria absoluta apertada na assembleia estadual composta por 90 parlamentares.

Além de marcar o fim de 24 anos de domínio da conservadora União Democrata Cristã (CDU) na Turíngia, a troca do comando no estado por um esquerdista também chama a atenção devido às origens de seu partido. O A Esquerda é o sucessor do Partido do Socialismo da Alemanha (PDS), constituído em 1989 a partir do Partido Socialista Unitário da Alemanha (SED), que governou com mão de ferro a extinta República Democrática Alemã (RDA).

Uma parte dos políticos alemães – entre eles a chanceler federal Angela Merkel e o presidente Joachim Gauck – recebeu a escolha com reservas. Ramelow, no entanto, garantiu aos opositores da CDU e da Alternativa para Alemanha (AfD), populista de direita, que todos trabalharão em conjunto, apesar das diferenças ideológicas.

Abbau Berliner Denkmal 1990

Funcionários do governo retiram estátua de Lênin de Berlim, em 1990

Sombra da Stasi

A aliança de governo entre esquerdistas, socialistas e verdes na Turíngia apresentou seu programa de coalizão 15 dias atrás, dois meses depois de o A Esquerda conquistar 28% de votos nas eleições estaduais. Quanto mais a data para escolha do futuro governador se aproximava, maiores as desconfianças no meio político alemão sobre a legenda, ainda percebida comosombra do Stasi, a polícia secreta da comunista RDA.

"O partido que vai apresentar o governador está realmente distante da ideia de repressão que tinha o antigo SED, para que possamos confiar nele?", chegou a questionar Gauck.

A presidente esquerdista, Katja Kipping, rebate as suspeitas, afirmando que sua legenda merece confiança. Ela ressalta que ainda no início dos anos 1990 o então PDS já havia determinado que seus integrantes com mandato parlamentar ou governamental teriam que revelar eventuais atividades de cooperação com o Stasi.

Lidar com o passado

As principais críticas aos esquerdistas são disparadas pela CDU da premiê Merkel, que desde a queda do Muro de Berlim tinha atritos com o PDS – embora os democrata-cristãos tenham se mantido firmes ao lado da SED até 1989. À medida que a eleição do governador turíngio se aproximavam, os conservadores cristãos intensificaram seus ataques.

Deutschland Parteien Katja Kipping Landesparteitag Die Linke Berlin

Katja Kipping, presidente do partido A Esquerda

"Só porque hoje não são mais de esquerda, eles estão livres de qualquer dúvida sobre o que fizeram no passado?", reclama Kipping, ressaltando que há anos seu partido vem tentando lidar com o estigma, que afeta também a nova geração de políticos.

Questionada se não seria mais fácil ter extinto o SED em 1989 e fundado uma nova legenda, a líder esquerdista rebate que "um quarto de século depois, sempre dá para dizer coisas inteligentes". "Mas acredito que na época a motivação foi não se esquivar do legado e assumir a responsabilidade", resume.

Em dezembro de 1989, o SED anunciou numa convenção o rompimento com o stalinismo, excluiu seus antigos líderes e se desculpou à população pelos desmandos. O número de filiados caiu de 2,3 milhões para 220 mil. Hoje, passados 25 da queda do Muro, o partido conta 64 mil membros, um terço dos quais nos estados do oeste.

MSB/dw/dpa/rtr

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