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Brasil

"Tudo o que restou foi a pátria metafísica"

O jornalista Luis Krausz, editor da Revista 18, publicada pelo Centro da Cultura Judaica de São Paulo, fala à DW-WORLD sobre a imigração judaico-alemã no Brasil.

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Judeus alemães fugindo da Alemanha nazista, em 1939

DW-WORLD: Quais foram os principais momentos da imigração judaico-alemã para o Brasil?

Luis Krausz: A grande maioria da imigração judaica de língua alemã veio para o Brasil a partir da ascensão do nazismo. Sempre em números crescentes, até 1937, quando o governo brasileiro baixou uma circular secreta proibindo os diplomatas brasileiros no mundo inteiro de conceder visto de imigrantes para judeus.

Antes da ascensão do nazismo, o número de imigrantes judeus de língua alemã no Brasil era muitíssimo pequeno. Viviam separados da comunidade judaica que existia aqui em São Paulo, por exemplo, formada por imigrantes do Leste Europeu, vindos forçados por perseguição e miséria.

Quando esses imigrantes judeus alemães chegaram aqui (90% ou 95% dos quais a partir da ascensão do nazismo), permaneceram ligados à cultura que traziam da sua terra de origem. Ao contrário dos imigrantes poloneses, russos, romenos, lituanos que já havia aqui, os judeus alemães trouxeram consigo suas bibliotecas e sua língua, criaram uma sinagoga em que se falava alemão, uma biblioteca circulante de livros alemães, continuaram a falar alemão em casa e a ensinar para seus filhos, ou seja, permaneceram de certa forma congelados no tempo.

Isso a gente não vê só no Brasil. O próprio jeito de decorar as casas, a mobília, os livros, a música, o gosto por arte era tudo praticamente igual, aqui, em Londres ou em Tel Aviv. Isso é uma coisa muito destoante do que se vê nas outras famílias aqui no Brasil, tanto famílias judias de outras origens, como famílias brasileiras. Inclusive em relação a outros grupos judaicos, como os sefarditas, vindos da Península Ibérica, eles se isolaram, portanto? Não só com relação aos sefarditas, mas também com relação aos judeus de origem leste européia. Eles se isolaram absolutamente, ou seja, não havia nenhum tipo de proximidade.

Meus avós vieram para o Brasil antes da ascensão do nazismo. Vieram, na verdade, de Viena para cá no começo da década de 20, porque depois do fim da Primeira Guerra Mundial o Império Austro-Húngaro, que era o centro do mundo, fora arruinado, e Viena se tornara a capital de um país miserável, pobre, pequeno.

Meus bisavós perderam o que tinham na guerra, com a inflação. Como eram jovens, resolveram passar alguns anos no Brasil, para juntar dinheiro e depois voltar. Não vieram pensando em se estabelecer aqui. Era uma solução para um problema passageiro. Quando chegaram aqui, além deles havia uma família, a família Klabin, que não era alemã mas sim de origem lituana, e enriquecera muito aqui no fim do século 19.

Naquela época, a melhor educação que havia era a alemã. Então, as filhas desta família, que tinham mais ou menos a idade dos meus avós, foram educadas por governantas alemãs, aprenderam a falar alemão, algumas chegaram a estudar alemão. Os meus avós ficaram muito amigos desta família, pois tinham as mesmas referências, mas não queriam nem saber dos judeus orientais ou do Leste Europeu que viviam no Bom Retiro. Para eles, aquilo não era o seu mundo. Tanto assim que os meus avós se casaram aqui no Brasil, mas só no civil, pois achavam que a sinagoga que havia na época não estava à sua altura. Realmente viviam num mundo à parte. Isso não mudou no decorrer do tempo? A integração entre esses dois universos judaicos só começou a acontecer com o aumento das perseguições na Europa, pois depois começaram a chegar muitos refugiados aqui no Brasil, gente que passava necessidade, tanto da Alemanha como do Leste Europeu, pessoas muito pobres, que chegavam aqui sem nada. Então se estabeleceram instituições beneficentes e de caridade para ajudar. Mas sempre havia esta distância: eles moram lá no Bom Retiro, nós aqui na Vila Mariana; eles têm a sinagoga deles, nós a nossa. Eram mundos separados. O que mais singulariza os imigrantes judeus alemães daquela época? O fato de eles não terem emigrado voluntariamente. A partida motivada pela ascensão do nazismo foi uma coisa muito dolorosa. Tanto assim que uma grande parte da comunidade judaico-alemã relutava em emigrar. Mas eles achavam que tudo ia passar logo; afinal aquilo não tinha cabimento. O próprio rabino que fundou a sinagoga alemã aqui em São Paulo, o rabino Pinkus, formado em Heidelberg, abandonou a Europa em 1936 e criou um grande conflito na comunidade de lá porque a maioria do pessoal queria ficar, queria que ele ficasse e achava que era um louco de estar indo embora.

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