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Trump precipita implosão do Partido Republicano

Michael Knigge
13 de outubro de 2016

Com sua desastrada campanha, o candidato à presidência dos EUA não só reduziu as próprias chances de vitória como também abalou os alicerces da legenda, já frágil desde os anos 70 e cuja recuperação é agora improvável.

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Donald Trump durante segundo debate televisivo com oponente Hillary Clinton
Foto: Getty Images/R. Wilking-Pool

Não é inusitado os candidatos presidenciais dos Estados Unidos e seus partidos não estarem sempre em sintonia perfeita. Na realidade, é muito comum haver diferenças políticas entre os políticos indicados e certos segmentos partidários. Em geral, contudo, ambos os lados tentam aplainar as arestas da melhor forma possível, tão logo a poeira das eleições primárias tenha baixado e a campanha eleitoral nacional entre em andamento.

Os correligionários podem ter sérias ressalvas ao candidato – como diversos republicanos a respeito do muito conservador Barry Goldwater em 1964, ou numerosos democratas com o muito progressista George McGovern em 1972 –, mas, mesmo assim, ambos cooperam, pelo menos nominalmente.

Por esse motivo, é um fato inédito a atual desavença e racha público entre o candidato republicano Donald Trump e a cúpula da sua legenda, deixando atônitos os especialistas em política americana.

Racha surpreendente – mas não tanto

Scott Lucas, professor de Estudos Americanos da Universidade de Birmingham, Inglaterra, resume a situação: "Estamos em águas nunca dantes navegadas". Para Nigel Bowles, ex-diretor do Rothermere American Institute, da Universidade de Oxford, a rixa entre Trump e seu partido é "sem precedentes no período do pós-Guerra".

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No entanto, tão fora do comum quanto o racha em si – e a forma muito pública como foi levado a cabo, de tuíte a tuíte, sobretudo pelo próprio magnata do setor imobiliário – é que sua ocorrência não chega como uma grande surpresa para quem estivesse acompanhando a campanha eleitoral nos EUA.

Afinal de contas, Trump e o Partido Republicano estavam em descompasso desde o início da campanha. Assim que foi dada a partida, o bilionário passou a repetidamente ameaçar a legenda de concorrer como candidato independente caso se sentisse tratado injustamente pelo establishment.

Demolição do frágil edifício republicano

Do ponto de vista do partido, toda a campanha de Trump – incluindo seu modo de tratar correligionários como o ex-candidato John McCain – não só causou consternação entre diversos membros: ela até mesmo levou grande parte dos republicanos mais destacados a repudiá-lo publicamente – e isso bem antes da recente divulgação do áudio sexista que levou líderes como McCain e o líder no Congresso, Paul Ryan, a também se distanciarem.

"A gravação foi apenas o grande catalisador que trouxe [a dissidência] a primeiro plano", observa Lucas. E o motivo para a liderança republicana estar agora se dissociando de Trump é simples: medo.

Presidente da Câmara dos Representantes dos EUA, Paul Ryan
Presidente da Câmara Paul Ryan é um dos líderes republicanos que retiraram publicamente apoio a TrumpFoto: picture-alliance/AP Photo/C. Owen

O líder republicano na Câmara dos Representantes, Paul Ryan, e seu colega no Senado, Mitch McConnell, estão profundamente preocupados que a maioria do partido esteja agora em risco, sobretudo no Senado, mas talvez também na Câmara. "Eles estão se concentrando nisso por estarem absolutamente convictos de que Trump perderá a eleição", deduz Bowles. "Muitos senadores e deputados republicanos vão enfrentar disputas apertadas, e eles acham que Trump pode puxá-los para baixo."

Em outras palavras: a liderança partidária desistiu de Trump e passou ao modo de limitação dos estragos. No entanto, também essa poderá se revelar uma causa perdida, já que Trump efetivamente lançou uma bola de demolição contra a frágil construção que é o Partido Republicano.

Um partido, três grupos de interesse

Segundo os especialistas entrevistados pela DW, desde os anos 1970, o que se conhece como Partido Republicano é, na realidade, uma coalizão de três grupos distintos: republicanos abastados, principalmente interessados em questões econômicas e impostos mais baixos; cristãos evangélicos; e cidadãos brancos da classe operária, cujos salários reais vêm, em grande parte, decaindo há décadas.

Presidente dos EUA Ronald Reagan (dir., em foto de 1981)
O que o ícone republicano Ronald Reagan uniu (dir., em foto de 1981), Trump está separandoFoto: picture alliance/AP

Embora esses três grupos tenham alguns pontos de vista em comum, seus interesses costumam divergir. "Não há qualquer razão teórica ou histórica para se supor que essa coalizão vá permanecer estável no longo prazo", afirma Bowles. "O espanto não é ela estar se esfacelando agora, mas que tenha levado tanto tempo para se quebrar."

O professor Lucas, da Universidade de Birminghan, acrescenta que o Partido Republicano tem sido dividido pelas questões econômicas e sociais por mais de uma geração, e "o mérito de Ronald Reagan foi ter conseguido manter a legenda coesa nos anos 80, apesar desse cisma".

Recuperação improvável

O que o ícone republicano Reagan uniu, Trump agora separou. Sua campanha focou unicamente em mobilizar a base, a classe operária branca, enquanto antagonizava tanto os demais setores do partido quanto os eleitores indecisos, destacam os dois estudiosos britânicos.

"Trump é o agressor, um agressor em série. Mas o que o Partido Republicano fez foi permitir a agressão", afirma Lucas. "Eles subestimaram a capacidade dele de mobilizar uma minoria significativa da população."

"Está bem claro quem quebrou o partido: Donald Trump foi o arquiteto da ruptura", diagnostica Bowles, do Rothermere American Institute. "A questão de médio prazo para os republicanos é se o partido poderá ser reconstituído. E isso eu acho um tanto improvável."