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Alemanha

Tour mostra Berlim a partir da visão de moradores de rua

Projeto tem ex-sem-teto como guia e busca descontruir clichês e preconceitos mostrando um lado da capital alemã geralmente ignorado por turistas.

Trânsito intenso, buzinas, o sacolejar do metrô – a Nollendorfplatz é sempre muito movimentada. Tem, além de um importante centro de tráfego, uma importância histórica. Em uma visita guiada normal, o turista ficaria sabendo que a praça foi projetada pelo arquiteto e paisagista Peter Josef Lenné e leva o mesmo nome do palco de uma batalha do século 19.

Mas no tour organizado por Carsten Voss, esses detalhes são secundários. As atrações reveladas por ele são os bancos nos parques, máquinas para trocar garrafas vazias por dinheiro ou um supermercado aberto 24 horas. Ele viveu um longo tempo nas ruas e descreve a cidade a partir da perspectiva de um sem-teto.

Estima-se que haja cerca de 4 mil moradores de rua em Berlim. Enquanto alguns deles podem ser distinguidos facilmente, outros não são tão claramente fáceis de se reconhecer: têm pouco do clichê do mendigo clássico.

Esse foi um dos motivos que levaram as berlinenses Sally Ollech e Katharina Kühn a dar vida ao projeto "Querstadtein" e, assim como já acontece em Copenhage e Londres, oferecer excursões com a perspectiva do morador de rua. O objetivo é ajudar a desconstruir preconceitos.

Guia Carsten Voss na Viktoria-Luise-Platz Projeto Querstadtein - Moradores de Rua mostram a sua Berlim *** DW, Jennifer Fraczek, 4. August 2013

O guia Carsten Voss: de gerente a morador de rua

Carsten Voss, o guia, teve um papel crucial no planejamento do percurso. Ele mostra principalmente o seu bairro, Schöneberg, que não é tão badalado, mas bastante tolerante. A região concentra muitos moradores de rua, grupo do qual Voss, de 54 anos, fazia parte até pouco tempo atrás.

Experiência pessoal

Durante a excursão, Voss conta a própria história: era gerente em uma empresa de eventos da área de moda em Berlim, até que o estresse se tornou insuportável. "Um caso clássico de síndrome de burnout", afirma o guia, que assume ter cometido muitos erros depois disso. "Eu não queria ouvir nem ver mais nada, não reagia a mais nada."

Ela acabou tendo de fazer tratamento psiquiátrico, perdeu o direito ao seguro-desemprego e não queria receber outros auxílios sociais do Estado. O dinheiro chegou ao fim, e ele terminou indo para a rua. Isso aconteceu há pouco mais de dois anos. Desde então, ele já possui moradia novamente e faz trabalho voluntário em um abrigo para sem-teto. Em breve, iniciará uma especialização em arrecadação de fundos para fins sociais.

Alguns dos pontos no passeio também estão nos guias tradicionais de viagem, como a Winterfeldtplatz, a Viktoria-Luise-Platz, a estação Zoologischer Garten e a Breitscheidplatz, na qual se encontra a igreja Kaiser-Wilhelm-Gedächtniskirche.

Na visita guiada por Carsten Voss, esses locais ganham outro significado. Na estação Zoologischer Garten, por exemplo, ele leva os participantes ao supermercado Ullrich, aberto a semana inteira. As filas em frente à máquina para trocar garrafas vazias por dinheiro são particularmente longas nos fins de semana.

Para conseguir o dinheiro do depósito de cada garrafa, os moradores de rua coletam e devolvem garrafas jogadas fora por outras pessoas. Na Breitscheidplatz, o guia chama a atenção dos turistas para os shopping centers, que servem de refúgio para os moradores de rua especialmente à noite e no inverno.

A igreja Kaiser-Wilhelm-Gedächtniskirche na Breitscheidplatz

A igreja Kaiser-Wilhelm-Gedächtniskirche na Breitscheidplatz: ponto de encontro para moradores de rua

Contato sem medo

Os abrigos para sem-teto são importantes pontos de convergência para os moradores de rua. Neles, é possível encontrar salas para usos comuns, comida, duchas, máquinas de lavar, telefones, internet, jornais, livros e armários. Além disso, moradores de rua podem receber aconselhamento em caso de problemas com órgãos do governo ou situações semelhantes.

Voss não leva os turistas para dentro do abrigo: o passeio, afirma, não foi foi concebido para incentivar o turismo da miséria. Berlim oferece uma boa rede de contatos sociais para os sem-teto, conta o guia. E essa, segundo ele, seria uma das razões que levam muitos moradores de rua de outros estados à capital.

"Há uma atmosfera predominantemente positiva quanto a esse grupo na cidade, seguindo o lema de que cada um deve encontrar a felicidade à sua maneira", diz.

No fim do passeio, Voss coloca em prática a intenção das fundadoras do Querstadtein: desconstruir o medo de estabelecer contato. Agora que os participantes já sabem um pouco mais sobre como alguém pode se tornar morador de rua e como é o dia a dia dessas pessoas, a pergunta que vem em seguida é sobre qual a melhor maneira de lidar com eles.

"Olhem para as pessoas, não desviem o olhar", diz Voss. "Quando alguém olhava para mim, isso já me ajudava. É importante não ser apenas brevemente visto e logo sumir novamente do campo de visão das pessoas."