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Cultura

Textos do provocador Peter Handke chegam ao Rio de Janeiro

Quase desconhecidas no Brasil, peças do polêmico escritor austríaco questionam papel do teatro e sua relação com personagens e público.

O provocador Peter Handke não é apenas um dos mais polêmicos escritores contemporâneos de língua alemã, mas também um pensador da linguagem escrita e da literatura em diversas formas – não só através de sua prosa e poesia, mas também em trabalhos para o cinema e o teatro.

Pouco conhecidas do público brasileiro, as peças escritas durante toda a carreira do escritor são uma reflexão profunda sobre a linguagem e o papel do teatro. O ciclo literário Handke em 4 atos, realizado a partir da quarta-feira (12/03) no Rio de Janeiro, é uma oportunidade para o grande público de entrar em contato com quatro importantes peças do autor austríaco.

"Há muito tempo tenho uma predileção pelo Handke. Sou apaixonada pelos textos dele porque eles são muito diferentes. Esse quatro textos que selecionamos são chamados de peças de discurso. Elas são narrativas puras e não têm diálogos ou personagens. A peça e a criação do espetáculo ficam a cargo do diretor", diz Alexandra Marinho, diretora das leituras que compõem Handke em 4 atos.

Pensar o teatro e sua função de existir e refletir o homem em sua solidão num mundo dominado por exigências de comportamento exemplar são algumas das propostas da dramaturgia de Handke, que radicaliza de forma áspera e perturbadora a inquietude diante da passividade do homem moderno.

As peças selecionadas para o ciclo – Afronta ao Público, Autoacusação, Gaspar e Grito de Socorro – são revolucionárias em suas propostas e apontam para novos rumos do teatro.

O metateatro como mote

O contato de Marinho com o trabalho de Handke veio através de seus estudos da dramaturgia de Bertolt Brecht. No final de seu mestrado, ela tinha que montar um espetáculo paralelo à escrita da dissertação. O texto escolhido foi Autoacusação, de Handke.

Peter Handke-Lesung im Midrash Centro Cultural, Rio de Janeiro

Depois de 20 anos estudando Brecht, Alexandra Marinho dirige leituras dos textos de Handke

"Foi o meu primeiro contato como diretora com o autor. Além de ser visível em seus textos, ele tem um discurso onde percebemos que a obra inteira dele é baseada no teatro épico de Brecht. É uma relação bastante evidente, que cria um teatro anticatártico e anti-ilusão", explica.

Uma característica marcante das peças teatrais de Handke é tratar e refletir sobre o próprio teatro e os papéis do diretor, do dramaturgo e do público.

"O próprio conteúdo da peça é um metateatro completo. Afronta ao Público começa falando para os espectadores que eles não são espectadores, que eles não estão ali para assistir uma peça, que aquela luz não quer criar ilusão, que aquela maquiagem não deve criar uma história. Ele rebate todas as questões que as pessoas esperam do teatro", afirma a diretora.

Outro texto que também questiona os papéis do teatro é Autoacusação. De maneira quase autobiográfica, o autor descreve feitos de sua vida para, no último parágrafo, revelar à plateia que ele foi ao teatro e escreveu aquela peça.

"São dois textos que falam de teatro, os outros dois [Gaspar e Grito de Socorro] nem tanto. Assim, podemos seguir uma linha da encenação, que usa sempre o metateatro como mote. Essa comunicação com a plateia é muito interessante. O público em geral vai ao teatro buscando a catarse, a identificação e a ilusão. Quando ele encontra o oposto disso, é um choque. É nesse choque com o publico que vamos trabalhar", completou Marinho.

Texto aberto

As peças de discurso de Handke foram escolhidas para as leituras no Rio de Janeiro. Nessas peças, os textos são narrativos, e o autor não constrói diálogos ou cria personagens. Os textos são corridos, divididos apenas por frases e parágrafos.

"Não há divisão de personagens. Em Afronta ao Público, ele apenas sugere o número de atores, o diretor que vai escolher o número de personagens. O primeiro desafio do diretor é decidir qual o número de personagens e de atores que vão representá-los", conta a diretora.

Peter Handke-Lesung im Midrash Centro Cultural, Rio de Janeiro

Ciclo de leitura funciona como um laboratório para futuras montagens

Outra questão é a divisão do texto. Quando se decide por mais de um personagem, o diálogo é criado, mas não há indicações de onde um personagem começa ou quando termina sua fala. Não há divisões de perguntas ou respostas. Tudo deve ser criado a partir de um texto corrido e narrativo.

Essa abertura tão grande no texto cria inúmeras possibilidades. "Eu acredito que a obra de Handke depende absolutamente do trabalho do diretor. Ela pode ser montada de uma forma inusitada, relendo toda a teoria de Brecht, ou de uma maneira totalmente tradicional. O texto é tão aberto, que o resultado depende muito da encenação. Não acredito que os textos são tão inovadores, mas ele é inovador porque abre espaço para o trabalho do diretor", diz Marinho.

O ciclo de leituras que acontece nas próximas quatro semanas tem como intuito testar esses textos com o público: um laboratório que deve resultar na montagem dos textos de Handke. Para as leituras, a diretora optou por uma encenação mais simplificada, mas com elementos que realçam a força dos textos. Em Afronta ao Público, por exemplo, os atores entram em cena com figurinos e maquiagem de uma montagem de A Tempestade, de William Shakespeare, para irem se despindo durante a leitura.

"É um desafio muito grande montar esses textos. É um teatro bastante diferenciado. Na época do mestrado, houve atores que não conseguiram se encaixar nesse perfil de personagens tão abstratos. Vamos testar essa questão dos atores e direção nas leituras", afirma a diretora.

Marinho também ressaltou a importância da linguagem e da comunicação nos textos de Handke. "Ele tem um grande interesse na linguagem e na gramática. Em Afronta ao Público, ele utiliza o passado, presente, futuro e subjuntivo para determinar os blocos da peça. Não há nenhuma divisão clara, você só percebe lendo o texto. Ele utiliza a gramática como ferramenta de escrita", conclui.

Handke em 4 atosacontece todas as quarta-feiras, até 02/04, no Midrash Centro Cultural no Rio de Janeiro.

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