1. Inhalt
  2. Navigation
  3. Weitere Inhalte
  4. Metanavigation
  5. Suche
  6. Choose from 30 Languages

Cultura

Tetralogia de Wagner estreia em Buenos Aires em versão compacta

Projeto abandonado por Katharina Wagner, "Anel do Nibelungo" encurtado de 16 para 7 horas e com referências ao passado ditatorial da Argentina perturba a plateia no tradicional Teatro Colón, mas convence musicalmente.

É... um bebê! As Filhas do Reno cantam o tesouro dos Nibelungos. Mas aqui ele não é de ouro, e sim de carne e osso. Esta é a primeira alusão às muitas crianças desaparecidas durante a ditadura militar argentina, nas décadas de 1970 e 1980, arrancadas de seus genitores, geralmente oposicionistas, e entregues a famílias fiéis ao regime.

Esse é um tema que até hoje move e ocupa a sociedade argentina. No palco do Teatro Colón, é uma ideia ousada, com que a diretora de cena Valentina Carrasco provoca o público logo na primeira parte de O anel do Nibelungo, o prólogo O ouro do Reno.

E não só provoca, mas perturba de forma duradoura: "É estranho, muito estranho", comenta uma jovem durante a primeira pausa. "Eu gosto, mas às vezes é difícil de suportar." Um outro espectador opina: "Está muito abstrato, falta um pouquinho de grandezza. O toque argentino comove, a algumas pessoas ele irrita, para outras é doloroso".

Colon Ring Buenos Aires Rheintöchter und Alberich

Célebre "Cavalgada das Valquírias" traduzida em reminiscências da ditadura e das Malvinas

Sete horas, nada mais

A tetralogia O anel do Nibelungo, de Richard Wagner (1813-1883), é composta por quatro óperas – ou "dramas musicais", como o compositor e libretista preferia denominá-los: O ouro do Reno, A Valquíria, Siegfried e Crepúsculo dos deuses.

No total, a obra dura cerca de 16 horas, sendo normalmente apresentada em quatro noites. Há quem afirme ser este um esforço de concentração quase impossível para o público de hoje. Deste modo, e celebrando o bicentenário do mestre em 2013, o célebre Teatro Colón de Buenos Aires encomendou esta versão – condensada, mas, ainda assim, com alentadas sete horas de duração.

Entre os parceiros do gigantesco projeto está a Deutsche Welle, que registrou num filme documentário os estágios da encenação, desde a concepção até a estreia.

Militar, em vez de mítico

A "argentinização" da homérica obra wagneriana marca toda a apresentação. E atinge um sinistro apogeu na segunda parte, A Valquíria, quando as beligerantes filhas de Wotan, o líder dos deuses, se encontram no Monte das Valquírias para reunir os heróis caídos em batalha.

Por toda parte há cadáveres e cabeças empaladas, cobertas com elmos; entre os despojos, desfilam as Valquírias, de uniforme verde e espada desembainhada. Para o público, uma alusão mais do que óbvia à ditadura militar e à Guerra das Malvinas, os maiores traumas argentinos das últimas décadas.

Österreich Musik Regieassistentin Valentina Carrasco in Wien

Argentina Valentina Carrasco assumiu a direção na última hora

E a argentina Carrasco leva sua concepção até a última consequência, trocando sistematicamente a pompa, a grandiloquência e os mitos wagnerianos por reminiscências da história recente da Argentina. O cenário despojado, originalmente concebido pelo alemão Frank Schlössmann, a apoia nessa tarefa: escadas de metal, torres, barracas, falésias pontiagudas. E um obelisco, como o da Avenida 9 de Julho, o bulevar de luxo da capital.

Inevitavelmente, o tesouro retorna no fim. Mas não como o ouro dos Nibelungos, subtraído ao Rio Reno, e sim na forma das crianças sequestradas, que invadem o palco, numa cena que por pouco não descamba para o teatro de agitação. E o resultado são as vaias encolerizadas da plateia, na tradicional casa de ópera.

O sumiço da bisneta

Valentina Carrasco teve que trabalhar sob enorme pressão de tempo. Afinal, só entrou no projeto seis semanas antes da estreia, depois que a diretora original, a bisneta de Wagner Katharina, abandonou inesperadamente a montagem.

"Comecei do zero", explica Carrasco, "sem a menor ideia do que havia sido planejado anteriormente. Eu só tinha recebido esboços da cenografia de Frank Schlössmann, que, com a permissão dele, pude utilizar e modificar. Não cheguei para dar seguimento a nada".

A diretora defende com veemência a ideia, tão ferrenhamente criticada, de reduzir o Anel a uma versão compacta. "Desse modo, Wagner ficará acessível a mais gente. Assim é mais fácil descobri-lo. Ele está mais aberto, livre de repetições."

Colon Ring Buenos Aires Brünnhilde und Wotan

Linda Watson (dir) foi grande sensação como Brünnhilde, aqui ao lado de Wotan (Jukka Rasilainen)

Vitória da música

As reações do público lhe dão razão – pelo menos no que concerne à música. Quase não se comentou os cortes da obra, mas se falou muito sobre o desempenho dos cantores. As duas orquestras do Colón foram reunidas em dois "conjuntos Wagner", que dividiram com bravura a noite, sob a regência do maestro Roberto Paternostro.

Os solistas, todos aclamados intérpretes wagnerianos, levaram o público ao delírio. Como a Valquíria Brünnhilde, Linda Watson foi aplaudida de pé durante vários minutos. Nas pausas, entre um champanhe e um canapé, a soprano era o tema constante. "Uma maravilha! Um luxo que me enche o coração!", entusiasmava-se uma espectadora. "Que nível! É impressionante!"

Rostos pensativos, pouco antes da meia-noite, após um longo dia operístico, que começara de tarde, no calor do início de verão. A concepção da diretora? No mínimo, ousada. A música de Richard Wagner? Sem a menor dúvida, fantástica!

Há muitos anos os fãs portenhos não tinham oportunidade de assistir a uma encenação wagneriana. Agora, o compositor da Tetralogia está de volta a Buenos Aires. Desse ponto de vista, o Anel compacto não deixou de ser o tão anunciado "evento teatral do ano".

Autoria: Marc Koch (Buenos Aires) / Augusto Valente
Revisão: Alexandre Schossler

Leia mais