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Alemanha

Tabu da privacidade

No Brasil, a imprensa e a sociedade tratam a vida privada dos políticos também como pública. Na Alemanha, não. Desta vez, o chanceler federal vai à Justiça contra notícias de "crise" em seu quarto casamento.

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Schröder e a esposa Doris

Mais uma vez, a Alemanha debate os limites do jornalismo ao tratar da vida particular de personalidades, em especial de políticos. E de novo é o chanceler federal o pivô da polêmica. Tal como em abril do ano passado por causa da cor de seu cabelo, Gerhard Schröder queixa-se à Justiça de "falsas notícias" sobre sua vida privada. Como da outra vez, o chefe de governo poderá ganhar uma indenização e garantir que o tema sairá da pauta da imprensa, mas não impedirá que continue circulando nas conversas país afora.

Foi no domingo que surgiu o primeiro artigo a irritar Schröder. Não na Alemanha, mas na Inglaterra. Um diário sensacionalista londrino noticiou haver aparentemente problemas no quarto casamento do social-democrata. Ele teria até mesmo um caso com uma jornalista da tevê – a atual esposa também é jornalista. O jornal não revelou suas fontes, nem citou provas.

O estilo sensacionalista da imprensa inglesa é famoso e não surpreende. O notável está na repercussão da notícia pelas redações alemãs, tradicionalmente cautelosa. Vários jornais do país exploraram o assunto na segunda-feira e não tiveram meias-palavras para dar nomes aos bois.

Fofoqueiros viram réus

A reação de Schröder foi imediata. Seu advogado declarou inverídicas todas as afirmações e anunciou que o chanceler iria às barras dos tribunais para impedir que o boato ganhasse maiores proporções. A jornalista de tevê envolvida na fofoca promete igualmente seguir o caminho jurídico.

A ameaça deve ser levada a sério. Para o próximo dia 21, por exemplo, já está marcada uma audiência no Tribunal Estadual de Berlim entre Schröder e o jornal Märkische Oderzeitung, de Frankfurt do Oder, que teria noticiado barulhentas brigas na casa do chanceler federal em Hanôver.

Nesta quarta-feira, o diário Westdeusche Allgemeine Zeitung, de Essen, demonstrou publicamente seu arrependimento em ter embarcado na onda dos colegas londrinos. Em sua primeira página, o WAZ desculpou-se por ter se intrometido, através de artigo, na vida pessoal do chanceler. Antes o presidente federal Johannes Rau reclamou da violação do ambiente privado do chanceler. Para o chefe de Estado, o que havia lido a respeito nos jornais era assolador.

A iniciativa do WAZ não espelha, porém, a conduta da grande maioria da imprensa alemã. No mesmo dia da declaração de arrependimento do diário de Essen, muitos outros mantiveram o tema em suas páginas, embora à primeira vista num tom mais sério. Um jornal sensacionalista, por exemplo, relatou a ira de Schröder e apresentou detalhadamente, mais uma vez, o suposto caso extraconjugal do chanceler, sem porém citar o nome da jornalista. Já o geralmente sério Frankfurter Rundschau escorregou neste quesito em seu discreto registro da polêmica.

Tabu em extinção lenta e gradual

Até poucos anos atrás, falar da vida pessoal de políticos era tabu na imprensa alemã. Mas o tema vem ganhando gradualmente maior freqüência nas páginas dos periódicos. Deverão as autoridades acostumar-se com a tendência de não terem mais assegurada a privacidade da família? Terá perdido a validade a norma implícita do jornalismo alemão de não se meter em assuntos pessoais dos políticos? Será esta mudança efeito da transferência do governo de Bonn para Berlim, onde os costumes são menos recatados?

Esta última tese parece, a princípio, ter pouco fundamento, afinal a cautela em extinção limita-se somente aos políticos. Há muito, esportistas, artistas, princesas e cidadãos normais não têm mais a garantia de que suas vidas íntimas não se transformarão em parte do noticiário.

A justificativa mais plausível para a mudança de comportamento da mídia alemã recai na cada vez mais acirrada concorrência entre os veículos. De qualquer forma, não se vê espaço na Alemanha para que a vida particular de um político seja detalhada em pormenores e explorada durante semanas como a sexual do ex-presidente americano Bill Clinton.

Presidente da Federação Alemã dos Jornalistas (DJV), Rolf Lautenbach não vê problema em se noticiar a vida particular de personalidades, inclusive de políticos, desde que seja de interesse público e com "a devida cautela".

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