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Cultura

Sybille Berg e a sátira mordaz

Obra de autora nascida na Alemanha comunista e emigrada para a capitalista é considerada cruel e sarcástica. Mas a brutalidade é do mundo e entre os dois sistemas, só parece haver uma terceira alternativa: o apocalipse.

Nascida em Weimar em 1962, na então República Democrática Alemã (RDA), Sybille Berg tornou-se uma das escritoras mais conhecidas e controversas da Alemanha reunificada, desde a publicação, em 1997, de seu primeiro romance, intitulado Ein paar Leute suchen das Glück und lachen sich tot (Algumas pessoas buscam a felicidade e morrem de rir).

Desde o título desse primeiro trabalho, a autora deixa claro a que veio e a que tradição da literatura alemã pertence: a sátira. Mas não a do entretenimento róseo da comédia, que dá ao leitor, no mais das vezes, apenas uma distração de sua vida infeliz e vazia. O objetivo de Sybille Berg parece ser, justamente, impedir que seus leitores se esqueçam, ao menos durante a leitura de seus livros, de como é infeliz e vazia a vida contemporânea.

Mas ela não pretende sugerir respostas ou soluções. Após crescer na Alemanha comunista e emigrar para a capitalista em 1984, não há em seu trabalho nem Ostalgie (neologismo criado no início do século 21 para descrever a nostalgia pela Alemanha Oriental – Ost = leste), nem celebração daquilo em que o país reunificado se tornou.

Numa entrevista ao jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung, Berg definiu esse conflito entre as duas Alemanhas da seguinte maneira: "Ambos os sistemas fracassaram lindamente. Talvez esteja acima da capacidade mental humana criar algo novo. Ou talvez não se queira nada novo, o que significaria: ambos os sistemas foram criados por seres humanos com capacidade limitada de aprendizagem".

"Capitalismo canibal"

Buch Buchcover Sibylle Berg Ein paar Leute suchen das Glück und lachen sich tot

Capa de "Algumas pessoas buscam a felicidade e morrem de rir", 1997.

Nessa declaração vê-se o que se convencionou chamar de crueldade, ironia mordaz e brutalidade no trabalho da autora. Mas, para Sybille Berg, a crueldade não é dela, e sim do mundo em que vivemos, no sistema que ela chama de "capitalismo canibal". É neste mundo que suas personagens circulam, onde toda relação humana se resume a uma troca e balança de poder, e no qual o mais forte sempre devorará o mais fraco. Como na expressão brasileira: o mundo é uma selva de pedra, e a lei que impera nele é a do ferro e do fogo.

Seu primeiro livro – no qual um rol de personagens passa os dias expelindo rancor destrutivo a si mesmos e a seus "próximos", aqueles que foram ensinados a amar como a si mesmos – só foi lançado depois de dezenas de rejeições por editoras. A obra vendeu milhares de cópias, fazendo de Sybille Berg uma das autoras mais concorridas para artigos e colunas em jornais e revistas como Neue Zürcher Zeitung, Die Zeitou Der Spiegel, na qual mantém a coluna "Pergunte à Senhora Berg" desde 2011.

Nos 15 anos desde sua estreia, Sybille Berg lançou os romances Ende gut (Acaba bem, 2004 – um jogo com o provérbio "Ende gut, alles gut": "Tudo está bem se acaba bem"), Die Fahrt (A viagem, 2007), Der Mann schläft (O homem dorme, 2009), peças teatrais, contos e adaptações.

Brutalidade contra a brutalidade

Seu romance mais recente chama-se Vielen Dank für das Leben (Muito obrigada pela vida, 2012), no qual a personagem principal, chamada Toto, após nascer recebendo insultos já da parteira, abandonada pela mãe alcoólatra, abusada por pais adotivos, move-se por um mundo em que o apocalipse já aconteceu, sem que se saiba exatamente como. E apenas nesse mundo destruído a autora parece insinuar a possibilidade de algum tipo de felicidade. Talvez justamente por não ser mais este em que vivemos.

Com frases curtas e cortantes, ela não busca apenas imitar a linguagem contemporânea da propaganda e dos contatos virtuais. Os pensamentos de seus personagens são entrecortados, sem continuidade, como suas vidas.

Em sua sátira à sociedade dos nossos tempos, Sybille Berg une-se a alguns poucos intelectuais do pós-guerra, como Thomas Bernhard, Elfriede Jelinek, Michael Haneke ou Ulrich Seidl, que fizeram da brutalidade artística o único antídoto contra a brutalidade que presenciavam ao redor. A um leitor brasileiro, essa mordacidade pode lembrar ou dialogar com de certos contos de João do Rio, Dalton Trevisan ou, entre os autores mais recentes, de Veronica Stigger.

Apocalipse, a terceira via

Controversa em suas declarações públicas, não são poucos os críticos que torcem o nariz para o trabalho de Sybille Berg, que hoje vive em Zurique. Mas também não são poucos os seus admiradores, entre leitores e críticos, mesmo que não pareçam saber às vezes onde enquadrá-la ou o que fazer com seu sarcasmo.

27.03.2010 DW-TV kultur.21 Sybille Berg

Sátira de Sybille Berg não é cômica, mas sim mordaz e brutal

O resenhista de seu último trabalho, escrevendo para o Frankfurter Allgemeine Zeitung,chamou-o de "a história mais bizarra deste verão literário". Traçando paralelos entre a vida da personagem Toto e da autora, descreve como a ironia mordaz da autora começa já pelo título, "Muito obrigada pela vida", quando nada no livro, segundo ele, "apresenta qualquer saída, qualquer 'plano B', e mesmo qualquer esperança pelo futuro é mostrada como ilusão".

Esta última personagem criada por Sybille Berg, que segue pelo mundo com uma compreensão inexplicável por todos aqueles que cospem nela, lembra por vezes a Macabéa de Clarice Lispector, naquele que é um dos mais mordazes livros da literatura brasileira do pós-guerra, A hora da estrela.

Todos esses autores parecem dizer, como no verso do português Fernando Assis Pacheco: "Peçam grandiloquência a outros / Acho-a pulha no estado actual da economia". Nesse ambiente, Sybille Berg insinua que a terceira via que muitos buscam, entre o capitalismo e o socialismo, parece ser o apocalipse.

Autor: Ricardo Domeneck
Revisão: Augusto Valente

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