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Brasil

Sucessos e fracassos de Lula

A economista Barbara Fritz, do Instituto Ibero-Americano de Hamburgo, analisa os prós e contras da política econômica do governo Lula e aposta que o segundo ano do presidente pode ser decisivo para os destinos do país.

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Lula: balanço de um ano sob a ótica européia

DW-WORLD – Luiz Inácio Lula da Silva está há um ano no poder. Ele foi bem-sucedido neste período?

Barbara Fritz – Por um lado, muito, por outro, de jeito nenhum. Trata-se de um balanço tanto positivo quanto negativo. Em 2002, o Brasil esteve frente a enormes dificuldades, como a incapacidade de pagar as dívidas. Neste momento Lula assumiu o governo e já logo após as eleições, em novembro, estabeleceu diretrizes a serem seguidas pela política econômica. Um caminho bastante ortodoxo, uma continuação da linha macroeconômica do governo anterior de Fernando Henrique Cardoso.

Neste sentido, a política foi bem-sucedida: os ataques especulativos contra a moeda puderam ser combatidos, o país não caiu na insolvência e continuou recebendo apoio do Fundo Monetário Internacional (FMI). A inflação está sob controle, o câmbio estabilizou-se e há novamente um certo fluxo de capital para o país. Por outro lado, a economia está em crise, os salários mais baixos e o desemprego, que já era alto, cresceu mais ainda. E isso exatamente sob um governo de esquerda, que venceu as eleições com o objetivo de aplainar as desigualdades, é um fiasco.

Quais medidas e decisões levaram ao sucesso?

Um política extrema de juros altos – o Banco Central foi visivalmente conservador e cuidadoso, elevando as taxas básicas de juros até 26,5%. Isso fez com que houvesse um novo fluxo de capitais para o país, pois uma taxa de juros dessa é obviamente atraente. Isso fez com que a inflação caísse, mas também desmoronou o mercado interno. Esse é o cerne da política.

O outro pilar é uma política orçamentária extremamente austera, que tem como objetivo a contenção de gastos. Também nas negociações com o FMI esse aspecto é de suma importância. Em suma, uma política de juros altos e de contenção de despesas formam as bases dessa política econômica ortodoxa, que ganhou a confiança dos mercados financeiros.

Lula fez boas escolhas ao nomear o titular da pasta da Fazenda e o presidente do Banco Central?

Para o Banco Central Lula escolheu um banqueiro brasileiro, que ocupava anteriormente um posto de chefia em um banco norte-americano. Henrique Meirelles é muito bem visto pelos mercados financeiros, ou seja, um bom sinal neste sentido. Para a pasta da Fazenda ele escolheu alguém de seu próprio partido, o PT. Antonio Palocci conduz a política de contenção de despesas com muita força e está cercado por consultores provenientes de círculos econômicos consideravelmente ortodoxos.

Palocci é uma tentativa de levar o PT para este caminho ortodoxo. Há uma discussão antiga sobre a causa da miséria econômica, que é vista pela esquerda no endividamento e por conservadores no déficit orçamentário. E Palocci assumiu agora completamente a função do economista ortodoxo, o que é digno de espanto.

Agora, se as escolhas foram bem feitas depende de que tipo de política se considera correta. Em princípio, eu diria que sim, mas talvez um economista mais moderado do PT teria sido melhor. Meirelles como presidente do Banco Central foi certamente uma boa jogada.

O que está errado na política econômica do país?

Os principais problemas são a ausência de crescimento econômico, a perda de poder aquisitivo e o alto desemprego, que são problemas enormes. Uma das dificuldades básicas é o endividamento, que cresceu um pouco apesar dos altos superávits do orçamento. O Brasil tem uma dívida externa muito grande, além de uma dívida interna altíssima.

Como Lula deveria dar continuidade à política econômica?

A esperança é que, com uma redução gradual das taxas de juros pelo Banco Central e com uma melhoria da conjuntura mundial, as exportações cresçam. Assim o país poderia atingir um crescimento de até 4% em 2004. Isso traria estabilidade e talvez até uma redução dos índices de desemprego e até certos aumentos de salários em determinados setores. Tenta-se também levar a cabo reformas estruturais e fortalecer programas sociais, mas as condições para tal são muito difíceis.

Como a sra. avalia o desempenho de Lula nas políticas interna e externa?

Na política externa ele foi muito bem-sucedido. O Brasil destacou-se, principalmente no que diz respeito às relações comerciais. O país foi uma das nações líderes do G-20, que coordenou as negociações da Organização Mundial do Comércio (OMC) em Cancún e levou a uma posição coletiva dos países em desenvolvimento. A exigência básica desses países foi: antes que os países em desenvolvimento façam maiores concessões nos setores de prestação de serviços, as nações industrializadas têm que abrir seus mercados agrícolas. O Brasil desempenhou neste contexto um papel muito importante.

Lula tem um crédito infindável com o povo brasileiro? Ou quanto tempo ele ainda tem?

Apesar dos fracassos econômicos neste primeiro ano, a popularidade de Lula é ainda muito alta. Uma explicação para isso é o fato de o governo ter sempre dito que recebeu uma herança muito difícil. Neste segundo ano, a paciência dos brasileiros certamente não vai aumentar. Agora o governo precisa dar provas de seu bom desempenho, e um crescimento econômico certamente ajudaria muito. Este ano de 2004 será decisivo para Lula.

Lula já foi comparado com Mahatma Gandhi, Nelson Mandela e Martin Luther King. O que a sra. acha disso?

Lula é uma pessoa extremamente carismática e uma personalidade muito convincente. Ele tem uma credibilidade grande fora do país também por causa de sua história de vida. O Lula é um dos poucos políticos que não vêm do establishment, mas de baixo. Com isso, ele representa também uma possibilidade de democratização das relações, o que é muito promissor.

O perigo é – e isso é apontado também por críticos de esquerda – que ele desperdice o capital de que dispõe sua pessoa e seu partido, ao ceder às pressões para impor essa política ortodoxa. A questão é saber quais são as alternativas, e isso está sendo discutido no Brasil atualmente com veemência.

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