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Brasil

Solidariedade foi fundamental para exilados brasileiros na Alemanha

Exilados no país europeu durante a ditadura militar, brasileiros criaram rede de apoio e de denúncias sobre a repressão. Além de reavivar memórias, relatório da CNV cobra responsabilidades, defendem.

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Depoimento de Clemens Schrage em um jornal alemão: "Eu tinha que dar choques elétricos em mim mesmo"

12 de maio de 1974, bairro Steglitz, em Berlim Ocidental. Na sala de parto, Britta von Lutzöw, funcionária da Anistia Internacional, segura a mão da brasileira Maria América Ungaretti, ex-exilada no Chile. "A Britta ficou muito comovida e chorava. Foi aí que ela resolveu ter um filho. Era um domingo, Dia das Mães."

Ungaretti chegara à Alemanha grávida de sete meses. Membro do Partido Comunista e de organizações políticas como o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR8), a economista havia se refugiado no Chile para evitar uma prisão no Brasil, mas, como muitos outros brasileiros, teve de deixar o país em 1973, com o golpe militar do general Augusto Pinochet.

Assim como ela, centenas de exilados políticos brasileiros fugiram para a Alemanha durante a ditadura. E, entre eles, foi criada uma rede de solidariedade e de divulgação de denúncias sobre a repressão.

Sem documentos e ameaçados por policiais e funcionários de consulados simpáticos aos militares, eles contaram com a ajuda das Igrejas Católica e luterana, além da Anistia Internacional, para permanecer na Alemanha.

"Era muito difícil conseguir visto e asilo político. A política externa alemã não foi favorável ao recebimento de boa parte dos exilados. Graças a esses grupos de solidariedade, nós conseguimos ficar", lembra o professor aposentado Victor Hugo Klagsbrunn, da Universidade Federal Fluminense.

Preso por mais de um ano na Base Naval de Ilha das Flores, em São Gonçalo (RJ), centro de tortura da Marinha, o economista estava no grupo de refugiados brasileiros que teve que deixar o Chile. Morou por 11 anos na Alemanha.

O país passou a acelerar os processos de pedido de asilo depois do suicídio da brasileira Maria Auxiliadora Lara Barcellos, em 1976. Integrante da luta armada no Brasil, ela não conseguiu suportar o trauma da tortura. A médica de Minas Gerais se jogou na frente de um trem na estação Charlottenburg, em Berlim Ocidental.

Conhecida como Dora, a ex-militante foi banida do Brasil após dois anos presa, na troca pelo embaixador suíço Giovani Enrico Bucher, sequestrado por organizações de esquerda. "A vítima cometeu suicídio em decorrência de trauma resultante da tortura, da prisão e da atuação de agentes do Estado brasileiro nas graves violações de direitos humanos", diz o relatório da Comissão Nacional da Verdade (CNV), entregue na quarta-feira (10/12) à presidente Dilma Rousseff.

Asilados

Os primeiros brasileiros que chegaram à Alemanha logo depois do golpe de 1964 eram, na maioria, estudantes e intelectuais. Ida Schrage, de 72 anos, passou por Bélgica e Israel antes de reencontrar o ex-marido, Clemens Schrage, em Colônia, na Alemanha, em 1968.

No Brasil, eles viveram separados por uma parede no Batalhão de Osasco, onde passavam por sessões de tortura. Os dois tinham sido presos por fazer parte do movimento Ação Popular, que promovia panfletagens contra a ditadura em fábricas de Osasco, na Grande São Paulo.

Assistir ao vídeo 05:14

Depoimento de Ida Schrage

"É difícil falar porque vêm cenas. Eu tive sorte por ter recebido apenas choques elétricos. Clemens foi massacrado. Ele passou pelo pau de arara e tem sequelas físicas até hoje", lembra.

Com duas filhas, o casal não vivia como uma família comum. Junto com brasileiros que moravam na França, na Suíça, na Suécia e na Argélia, eles criaram a Frente Brasileira de Informações, um espaço para denunciar mortes, desaparecimentos e a tortura no Brasil. Vários veículos de comunicação alemães publicaram reportagens sobre as atrocidades da ditadura com base em relatos.

"Nossa casa era um arquivo. Não tínhamos a vida de uma família, estávamos destruídos. Mas era importante fazer isso, porque havia muitas famílias que não tinham nenhum direito respeitado no Brasil", conta Schrage, que hoje é terapeuta familiar.

Jornalista da DW, Luzia Griethe fez parte da rede de solidariedade entre brasileiros e alemães. "Quase todas as pessoas que vieram para a Alemanha fugindo da ditadura passaram pelas nossas mãos. Eles chegavam perdidos. Lamentavelmente, essa rede não foi suficiente para salvar a vida de muitas pessoas, mas tentou-se divulgar o que ocorria no Brasil", conta.

Griethe diz que a história que mais a comoveu foi a de Ida Schrage. "O que fere a alma não tem como sarar. Vejo as pessoas que ficaram por aqui, estudaram, foram para outros países, voltaram para a Alemanha, mas você ainda sente o sofrimento. Sai pelos olhos, pelos poros. É duro, mas pelo menos eles sobreviveram", diz a jornalista que ainda vive na Alemanha.

Verdade

Para os exilados na Alemanha durante a ditadura, o relatório da CNV é um passo decisivo. Klagsbrunn reclama do posicionamento das Forças Armadas. "Não deram praticamente informação nenhuma para a comissão e ainda não reconheceram o que foi feito pelos comandos", comenta. "Os currículos das escolas militares continuam os mesmos."

Marijane Lisboa, professora da PUC-SP, ressalta que o relatório mostra com detalhes os abusos cometidos contra indígenas. "Aldeias foram massacradas para a construção de grandes obras e pouco se sabia sobre isso", conta a socióloga, que estava entre os brasileiros refugiados no Chile e também se asilou na Alemanha.

Para ela, o principal êxito da CNV é a reconstrução da cadeia de comando envolvida na repressão, "do torturador na cela do batalhão do Exército ao chefe daquela unidade, ao chefe do serviço secreto de informações, ao presidente da República. A Justiça está sendo provocada a reagir, e os militares devem reconhecer suas responsabilidades."

Schrage acredita que o relatório traz uma mensagem importante para os jovens. "É importante que eles reflitam sobre o que aconteceu durante a ditadura", diz. Em 2012, ela foi homenageada pela Caravana da Anistia. Na plateia, encontrou Dulce Marta, antiga companheira de cela. "Nós nos vimos depois de 40 anos. Não pensávamos que fôssemos sair com vida."

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